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Ateísmo é a evolução lógica da religião, diz Richard Dawkins

O biólogo britânico Richard Dawkins (foto), 74, respondeu “sim” ao ser questionado se “o ateísmo é a extensão lógica da crença na evolução”. Admitiu que, quanto a isso, nem todos concordam com ele. “O ponto fundamental da evolução é que ela explica como você pode ir de uma simplicidade primordial (que não precisa de explicação, ou precisa muito pouco) até alturas de prodigiosas complexidade (que, definitivamente, precisam de uma explicação).” Em entrevista por e-mail ao "Zero Hora", Dawkins se defendeu das acusações de que seja um militante “destemperado” do ateísmo. Argumentou que fala mais sobre ateísmo do que ciência por causa do interesse dos jornalistas que o entrevistam. Também falou sobre a influência que a teoria da evolução teve em sua vida, da popularidade do chamado “novo ateísmo”, do fanatismo religioso do século 21, da possível associação entre a programação genética e a fé, e da espiritualidade sem Deus. Segue a entrevista.

Qual sua primeira lembrança ligada à descoberta da ciência como uma paixão e um caminho a trilhar?


Acho que foi quando compreendi pela primeira vez, claramente, o poder da seleção natural darwiniana para explicar tudo a respeito da vida. A seleção natural é uma ideia surpreendentemente simples depois que você a compreende, mas ainda assim tem a capacidade de explicar questões muito complexas. Além disso, a humanidade demorou até o século 19 para conseguir entendê-la – o que também é muito surpreendente, dada a simplicidade da ideia.

 

O senhor acredita que hoje é mais fácil ou mais difícil despertar o interesse do público leigo em geral para a ciência? 


Quanto mais se compreende a ciência, mais fácil se torna interessar-se por ela. Porque quando entendemos alguma coisa só temos que explicar o princípio. Antes que compreendamos o princípio, os fatos que o explicam parecem ser todos desconexos, difíceis de transmitir e difíceis de guardar na memória. Por outro lado, nos dias de hoje, existem hostilidades e resistências à ciência aumentando em certos grupos de pessoas.

 

Desde a publicação do livro "Deus: Um Delírio", o senhor tem sido cada vez mais convidado a falar sobre ateísmo, tornando-se quase um porta-voz da causa ateísta no mundo todo. Como o senhor divide seu tempo entre esses dois papéis, o de cientista e o de orador público? 


Passo mais tempo escrevendo do que falando em público. Hoje em dia, quando falo em público, frequentemente sou entrevistado no palco, então eu vou até onde as perguntas me levam. O que parece ser o caso é que as perguntas, inclusive aquelas feitas pelo público em geral, são muito frequentemente sobre religião. Muitas vezes me sinto aliviado quando recebo uma pergunta sobre ciência.

 

O senhor acredita que o ateísmo é a extensão lógica da crença na evolução? 


Acredito, mas devo dizer que nem todo mundo concorda. O engraçado é que são os cristãos fundamentalistas os que concordam comigo. Teólogos sofisticados não têm nenhum problema em conciliar a religião com a evolução. Os fundamentalistas têm, e eu concordo com eles, embora por motivos diferentes. A razão deles é que a evolução entra em conflito com seu livro sagrado. A minha razão é: o ponto fundamental da evolução é que ela explica como você pode ir de uma simplicidade primordial (que não precisa de explicação, ou precisa muito pouco) até alturas de prodigiosas complexidade (que, definitivamente, precisam de uma explicação). E a evolução fornece essa explicação. Deuses criadores teriam que ser entes muito complexos e, portanto, requerem, por direito próprio, uma explicação – uma explicação que os religiosos não têm.

 

O senhor pensa que o aumento da popularidade do novo ateísmo em anos recentes está diretamente ligado à ascensão do fanatismo pós-11 de Setembro? Ou as pessoas estão simplesmente mais confortáveis em se declarar ateias? 


Acho que um pouco de ambas as coisas. Elas caminham juntas.

 

Por que o fanatismo religioso ainda é um assunto tão sensível em muitas partes do mundo em pleno século 21? 


Uma razão presumida é que as pessoas se identificam com a sua religião quase como se fosse parte de sua personalidade. Elas se sentem pessoalmente insultadas se você insultar sua religião, como se você dissesse que elas têm um rosto feio! Eu simpatizo com o sentido de identidade, e entendo por que as pessoas gostam de celebrar rituais que pertencem à sua cultura, sejam festividades cristãs como o Natal, judaicas, como o Pessach, ou muçulmanas, como o Eid al-Fitr. Mas enquanto posso facilmente aceitar a identidade cultural nesse sentido, não posso respeitar as crenças que vêm agarradas a ela a respeito do mundo real quando são manifestamente falsas (como o criacionismo), ou para as quais não há nenhuma boa evidência (tais como milagres), simplesmente porque elas também são parte de uma cultura. Você pode dizer: “Sou um cristão que gosta de celebrar o Natal” ou “Sou um judeu que gosta de celebrar o Pessach”, e isso é bom. Mas se você diz: “Creio que Jesus nasceu de uma virgem, e não tenho nenhuma razão melhor do que o fato de que é isso que diz a minha tradição cultural”, aí é ir longe demais. Crenças sobre fatos deveriam ser baseadas apenas em provas e evidências, não em tradição, livros sagrados ou autoridade sacerdotal.

 

A religião tem sido uma ideia muito persistente na história humana. Há uma possibilidade de que haja algum tipo de programação genética para a fé, como alguns pesquisadores, como Paul Bloom, por exemplo, parecem acreditar? 

Sim, mas eu prefiro dizer programação genética para uma predisposição psicológica à religião, em vez de para a própria religião.

 

Qual sua opinião sobre a ideia de “espiritualidade sem Deus”, expressa em livros de autores como Sam Harris e Alain de Botton? 


Não tenho nenhum problema com ela, embora não seja uma ideia que ressoe comigo pessoalmente.

 

Em uma entrevista em 2013, quando esteve em Porto Alegre no Fronteiras do Pensamento, a historiadora Karen Armstrong declarou que se sentia desconfortável com o “destempero” de seus “ataques contra a religião e contra aqueles que acreditam em uma”. Para ela, o senhor “denuncia a intolerância religiosa, mas corre o risco de se tornar intolerante”. No mesmo ano, o senhor deu uma entrevista ao jornal inglês The Guardian, no qual dizia que não pensava em si mesmo como alguém “estridente ou agressivo”. O senhor se considera mal interpretado? 


Se você ler Deus: Um Delírio, vai descobrir que não é, realmente, um livro destemperado. Ele tem essa reputação porque, na nossa cultura, nos tornamos tão acostumados a tratar a religião com “respeito” exagerado que mesmo um exame crítico suave e sóbrio de ideias religiosas soa destemperado. É verdade que o significado do que escrevo está expresso claramente, e para algumas pessoas a própria clareza soa ameaçadora. A própria Karen Armstrong faz tudo o que pode para ser tão obscura quanto possível, por isso não me surpreendo ao saber que ela considera a clareza “destemperada”. Ela escreve de modo tão pouco claro que provavelmente pensa que qualquer pessoa que diz claramente o que pensa representa uma ameaça.

 

Um conceito criado originalmente pelo senhor em "O Gene Egoísta", o “meme”, ganhou vida nos últimos anos na internet, com um sentido um pouco diferente. O que o senhor pensa disso? 

Eu apresentei o meme como uma analogia para o gene, para ilustrar o argumento de que a seleção natural de Darwin pode, em princípio, funcionar com qualquer informação codificada autorreplicante. Memes são unidades de hereditariedade cultural – unidades que são copiadas de mente para mente –, e elas têm a capacidade de funcionar como genes em uma forma de seleção natural darwiniana. Jovens na internet adotaram a palavra para um subconjunto específico de memes, ou seja, imagens com uma mensagem simples escrita por cima. Não tenho nenhuma grande objeção, só digo que eles estão perdendo muito em ficar só nisso.

Fonte: Paulo Lopes

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15 exemplos da evolução pela seleção natural

A maioria dos biólogos aceitam como certa a ideia de que toda a vida evoluiu pela seleção natural ao longo de bilhões de anos. Eles pesquisam e ensinam em disciplinas que têm essa ideia como base, seguros de que a seleção natural é um fato, da mesma forma que é um fato que a Terra orbita o Sol. Visto que os conceitos e realidades da evolução de Darwin ainda estão sob ataque, embora raramente por biólogos, um resumo sucinto sobre o porquê de a evolução pela seleção natural ser um princípio empiricamente validado é útil para as pessoas terem à mão. Oferecemos aqui 15 exemplos publicados pela Nature ao longo da década passada para ilustrar a extensão, a profundidade e o poder do pensamento evolutivo.

 

1 - Ancestrais terrestres das baleias

 

Os fósseis oferecem pistas cruciais para a evolução, porque revelam as formas frequentemente notáveis de criaturas há muito desaparecidas na Terra. Alguns deles até documentam a evolução em ação, ao registrar criaturas em trânsito entre um ambiente e outro. Baleias, por exemplo, estão belamente adaptadas à vida na água, e têm sido assim por milhões de anos. Mas como nós, são mamíferos. Elas respiram ar, dão à luz e amamentam seus filhotes. Mas há boas evidências de que os mamíferos evoluíram originalmente sobre a terra seca. Se é assim, então os ancestrais das baleias devem ter se mudado para a água em algum momento. Acontece que temos fósseis numerosos dos aproximadamente dez milhões de anos iniciais da evolução das baleias. Nesses se incluem vários fósseis de criaturas aquáticas comoAmbulocetus e Pakicetus, que têm características agora vistas apenas em baleias - especialmente a anatomia do ouvido interno - mas também têm membros como os dos mamíferos terrestres dos quais eles claramente derivaram. Tecnicamente, essas criaturas híbridas já eram baleias. O que estava faltando era o começo da história: as criaturas terrestres das quais as baleias evoluíram mais tarde. Um trabalho publicado em 2007 pode ter apontado com precisão este grupo. Chamados de raoelídeos, essas criaturas agora extintas seriam parecidas com pequenos cachorrinhos, mas eram mais intimamente relacionadas aos ungulados com número par de dedos [artiodáctilos] - o grupo que inclui vacas, ovelhas, veados, porcos e hipopótamos modernos. Evidências moleculares também sugeriram que baleias e ungulados com número par de dedos compartilham uma profunda afinidade evolutiva. O estudo detalhado de Hans Thewissen e colaboradores em NEOUCOM, Rootstown, mostra que um raoelídeo, Indohyus, é similar às baleias, mas diferente de outros artiodáctilos em relação à estrutura de seus ouvidos e dentes, à espessura de seus ossos e à composição química de seus dentes. Esses indicadores sugerem que essa criatura do tamanho de um guaxinim passava bastante tempo na água. Raoelídeos típicos, entretanto, têm uma dieta bem diferente da dieta das baleias, o que sugere que o estímulo para a mudança para a água pode ter sido a mudança de dieta. Esse estudo demonstra a existência de potenciais formas transicionais no registro fóssil. Muitos outros exemplos poderiam ter sido ressaltados, e há toda razão para se pensar que muitos outros estão para serem descobertos, especialmente em grupos que estão bem representados no registro fóssil.

 

2 - Da água para a terra

 

De todos os animais, estamos mais familiarizados com os tetrápodos - eles são vertebrados (têm coluna vertebral) e vivem sobre a terra. Incluem-se nisso humanos, quase todos os animais domésticos e a maioria dos animais selvagens que uma criança reconheceria imediatamente: mamíferos, aves, anfíbios e répteis. A vasta maioria dos vertebrados, entretanto, não é de tetrápodos, mas de peixes. Há mais tipos de peixes, na verdade, que todas as espécies de tetrápodos somadas. De fato, pela lente da evolução, os tetrápodos são apenas mais um ramo da árvore genealógica dos peixes, um ramo cujos membros são adaptados para a vida fora da água. A primeira transição da água para a terra aconteceu há mais de 360 milhões de anos. Foi uma das transições que necessitou de algumas das maiores mudanças já feitas na história da vida. Como nadadeiras se tornaram pernas? E como as criaturas transicionais lidaram com as formidáveis exigências da vida terrestre, da secura do ambiente à esmagadora gravidade? Pensava-se que os primeiros terrícolas foram peixes que se encalhavam e evoluíram de modo a passar mais e mais tempo em terra firme, voltando à água para se reproduzirem. Ao longo dos últimos 20 anos, paleontólogos desenterraram fósseis que viraram essa ideia de cabeça para baixo. Os tetrápodos mais antigos, tais como o Acanthostega da Groenlândia oriental de cerca de 365 milhões de anos atrás, tinham pernas completamente formadas, com dedos, mas retiveram brânquias internas que se secariam facilmente se fossem expostas por muito tempo ao ar. Os peixes evoluíram pernas muito tempo antes de subirem à terra. Os tetrápodos mais antigos passaram a maior parte de sua evolução no ambiente aquático mais clemente. Subir à terra parece ter sido a última etapa. Os pesquisadores suspeitam que os ancestrais dos tetrápodos eram criaturas chamadas elpistostegídeos. Esses peixes grandes, carnívoros de água rasa, se pareceriam bastante (até no comportamento) com jacarés ou salamandras gigantes. Eles aparentavam ser tetrápodos em muitos aspectos, exceto pelas nadadeirasque ainda tinham. Até recentemente, os elpistostegídeos eram conhecidos apenas por pequenos fragmentos de fósseis pobremente preservados, então foi difícil completar um esboço de como eles eram. De poucos anos atrás até aqui, várias descobertas na ilha Ellesmere na região de Nunavut no norte do Canadá mudaram tudo isso. Em 2006, Edward Daeschler e seus colaboradores descreveram fósseis espetacularmente bem preservados de um elpistostegídeo conhecido como Tiktaalik, que nos permite reconstruir uma boa imagem de um predador aquático com similaridades distintas com os tetrápodos - de seu pescoço flexível à sua estrutura de barbatana semelhante a um membro. A descoberta e a análise exaustiva do Tiktaalik iluminam a etapa anterior à evolução dos tetrápodos, e mostram como o registro fóssil é uma caixa de surpresas, embora as surpresas sejam completamente compatíveis com o pensamento evolutivo.
 
 
 
3 - A origem das penas
 
 
 
Uma das objeções à teoria da evolução de Charles Darwin era a ausência de 'formas transicionais' no registro fóssil - formas que ilustrassem a evolução em ação, de um grande grupo de animais para outro. Entretanto, quase um ano após a publicação de Origem das Espécies, uma pena isolada foi achada no Jurássico Superior do calcário litográfico de Solnhofen (com idade de cerca de 150 milhões de anos), na Bavária. Em seguida, em 1861, foi encontrado o primeiro fóssil de Archaeopteryx, uma criatura com muitas características reptilianas primitivas, tais como dentes e uma longa cauda óssea, mas com asas e penas de voo, exatamente como uma ave. Embora o Archaeopteryx fosse comumente visto como a primeira ave conhecida, muitos suspeitaram que ele fosse melhor descrito como um dinossauro com penas. Thomas Henry Huxley, colega e amigo de Darwin, discutiu a possível ligação evolutiva entre dinossauros e aves, e paleontólogos especularam, talvez com ousadia, que dinossauros com penas poderiam ser achados um dia. Nos anos 80 [do século XX], depósitos do período do Cretáceo Inferior (cerca de 125 milhões de anos atrás) na província de Liaoning no norte da China sustentaram essas especulações da forma mais dramática, com descobertas de aves primitivas em abundância - junto com dinossauros com penas e com plumagem semelhante e penas. Começando com a descoberta do pequeno terópode Sinosauropteryx por Pei-ji Chen e colaboradores, do Instituto Nanjing de Geologia e Paleontologia da China, uma variedade de formas cobertas por penas foram encontradas em seguida. Muitos desses dinossauros com penas não podiam possivelmente voar, mostrando que as penas evoluíram primeiramente por outras razões que não o voo, possivelmente para displays sexuais [como faz o pavão] ou isolamento térmico, por exemplo. Em 2008, Fucheng Zhang e seus colegas da Academia Chinesa de Ciências em Pequim anunciaram a bizarra criatura Epidexipteryx, um pequeno dinossauro coberto por uma plumagem macia e dotado de quatro longas plumas em sua cauda. Os paleontólogos agora começam a pensar que suas especulações não eram ousadas o bastante, e que as penas eram na verdade bem comuns nos dinossauros. A descoberta de dinossauros com penas não só apoiou a ideia das formas transicionais, como também mostrou que a evolução tem maneiras de fazer surgir uma fascinante variedade de soluções quando não fazíamos nem ideia de que havia problemas. O voo pode ter sido nada mais que uma oportunidade adicional que se apresentou a criaturas já revestidas por penas.
 
 
 
4 - A história evolutiva dos dentes
 

 

Uma motivação para o estudo do desenvolvimento é a descoberta de mecanismos que guiam a mudança evolutiva. Kathryn Kavanagh e seus colaboradores, da Universidade de Helsinki, investigaram justamente isso observando os mecanismos por trás dotamanho relativo enúmero de dentes molares em camundongos. A pesquisa, publicada em 2007, desvendou o padrão de expressão dos genes que governam o desenvolvimento dos dentes - os molares emergem da parte da frente para a parte de trás, com cada novo dente sendo menor que o último a emergir. A beleza deste estudo está em sua aplicação. O modelo dos pesquisadores prevê os padrões de dentição encontrados em espécies de roedores semelhantes aos camundongos, com várias dietas, fornecendo um exemplo de evolução ecologicamente guiada por uma trajetória favorecida no desenvolvimento. Em geral, o trabalho mostra como o padrão de expressão gênica pode ser modificado durante a evolução para produzir mudanças adaptativas em sistemas naturais.

 

5 - A origem do esqueleto dos vertebrados

 

Devemos muito do que nos faz humanos a um notável tecido chamado crista neural, encontrado apenas em embriões.As células da crista neural emergem da medula espinhal prematura e migram para todo o corpo, efetuando uma série de transformações importantes. Sem a crista neural, não teríamos a maioria dos ossos em nossa face e pescoço, e muitas das características de nossa pele e de nossos órgãos sensoriais. A crista neural parece ser exclusiva dos vertebrados, e ajuda a explicar por que os vertebrados têm 'cabeças' e 'faces' distintas. Desvendar a história evolutiva da crista neural é especialmente difícil em formas fósseis, pois dados embrionários estão obviamente ausentes. Um mistério crucial, por exemplo, é saber quanto do crânio dos vertebrados provém da contribuição das células da crista neural e quanto vem de camadas mais internas de tecido. Novas técnicas permitiram aos pesquisadores rotular e acompanhar células individuais enquanto os embriões se desenvolviam. As técnicas revelaram, até o nível das células individuais, que as bordas dos ossos do pescoço e do ombro derivam da crista neural. O tecido derivado da crista neural ancora a cabeça na superfície anterior da cintura escapular, enquanto o esqueleto que forma a parte de trás do pescoço e dos ombros [escápulas e clavículas] cresce de uma camada mais interna de tecido chamada mesoderme. Tal mapeamento detalhado, em animais vivos, esclarece a evolução de estruturas em cabeças e pescoços de animais extintos há tempos, mesmo sem tecido mole fossilizado,como pele e músculo. Similaridades de esqueleto que resultam de uma história evolutiva compartilhada podem ser identificadas nas marcas de inserção musculares [nos ossos]. Isso permite delinear, por exemplo, a localização do maior osso do "ombro" de ancestrais terrestres extintos dos vertebrados, o cleitro. Esse osso parece sobreviver até hoje na forma de parte da escápula em mamíferos viventes. Esse tipo de exame evolutivo pode ter relevância clínica imediata. As partes do esqueleto identificadas como derivadas da crista neural, por Toshiyuki Matsuoka e seus colaboradores no Instituto Wolfson para Pesquisa Biomédica em Londres, são especificamente afetadas em várias doenças do desenvolvimento em humanos, o que permite esclarecimentos sobre suas origens. O estudo de Matsuoka mostra como uma análise detalhada da morfologia dos animais viventes, informada pelo pensamento evolutivo, ajuda os pesquisadores a interpretar formas fossilizadas e extintas.

 

6 - Seleção natural na especiação

 

A teoria evolutiva prevê que a seleção natural disruptiva terá frequentemente um papel principal na especiação. Trabalhando com esgana-gatas (Gasterosteus aculeatus [peixes da família Gasterosteidae]), Jeffrey McKinnone seus colaboradores,na Universidade de Wisconsin em Whitewater, relataram em 2004 que o isolamento reprodutivo pode evoluir como um subproduto da seleção sobre o tamanho do corpo. Esse trabalho fornece um vínculo entre o estabelecimento do isolamento reprodutivo e a divergência de uma característica ecologicamente importante. O estudo foi feito numa escala geográfica extraordinária, envolvendo testes de acasalamento entre peixes coletados no Alasca, Colúmbia Britânica, Islândia, Reino Unido, Noruega e Japão; e se sustentou em análises de genética molecular que forneceram sólidas evidências de que os peixes que se adaptaram a viver em cursos d'água evoluíram repetidamente de ancestrais marinhos, ou de peixes que vivem no oceano mas retornam à água doce para reprodução. Tais populações migratórias no estudo tinhamem médiacorpos maiores se comparadas às que vivem em cursos d'água. Os indivíduos tenderam a se acasalar com peixes de tamanho similar ao seu, o que serve bem para o isolamento reprodutivo entre diferentes ecótipos[populações geneticamente singulares adaptadas a seu ambiente local]de cursos d'água e seus vizinhos próximos de vida marítima. Levando em consideração as relações evolutivas, uma comparação dos vários tipos de esgana-gata, quer de cursos d'água ou marinhos, apóia fortemente a visão de que a adaptação a diferentes ambientes acarreta o isolamento reprodutivo. Os experimentos dos pesquisadores confirmaram também a conexão entre divergência de tamanho e o estabelecimento de isolamento reprodutivo, embora outras características além do tamanho também contribuam para o isolamento reprodutivo em alguma medida.

 

7 - Seleção natural em lagartos

 

Uma hipótese evolutiva popular diz que mudanças comportamentais em novos ambientes anulam os efeitos da seleção natural. Mas o trabalho de Jonathan Losos e seus colaboradores na Universidade de Harvard, em 2003, empresta pouco apoio a essa teoria. Os pesquisadores introduziram um grande lagarto terrícola e predador, Leiocephalus carinatus, a seis ilhas pequenas nas Bahamas, com seis outras ilhas servindo como controle. Descobriram que a presa desse lagarto, que é um lagarto menor chamado Anolis sagrei, passava mais tempo em maiores alturas na vegetação de ilhas ocupadas pelo predador do que em ilhas onde L. carinatusestava ausente. Mas a mortalidade de A. sagrei continuou mais alta nas ilhas experimentais que nas ilhas controle. A presença do predador maior selecionou em favor de machos de lagarto A. sagreicom pernas mais altas, que podem correr mais rápido, e também favoreceu fêmeas maiores, que são tanto mais rápidas quanto mais difíceis de vencer e de ingerir. Os pesquisadores não detectaram seleção de tamanho em machos; sugeriram que os machos maiores podem ter sido mais vulneráveis por causa de seu comportamento territorial conspícuo. O estudo mostra como a introdução de um predador pode fazer com que os indivíduos de uma espécie predada mudem seu comportamento de modo a reduzir o risco de predação, mas também causa uma resposta evolutiva no nível da população, resposta que difere entre os sexos de acordo com sua ecologia.

 

8 - Um caso de coevolução

 

As espécies evoluem juntas, e em competição. Predadores evoluem sempre armas e habilidades mais letais para caçarem suas presas, que por sua vez, como resultado da canônica 'luta pela existência' de Darwin, se tornam melhores em escapar, e então a corrida armamentista continua. Em 1973, o biólogo evolutivo Leigh Van Valen comparou essa corrida ao comentário da Rainha Vermelha para Alice em "Alice no País do Espelho", de Lewis Carroll: "é preciso correr o máximo que pode, para continuar no mesmo lugar. Se você quer chegar a outro lugar, precisa correr pelo menos duas vezes mais rápido que isso!" Nascia a hipótese da 'Rainha Vermelha', sobre a coevolução. Um problema em estudar a dinâmica de Rainha Vermelha é que essa dinâmica só pode ser vista no eterno presente. Descobrir sua história é problemático, porque a evolução geralmente eliminou todos os estágios anteriores. Felizmente, Ellen Decaestecker e seus colegas, na Universidade Católica de Leuven na Bélgica, descobriram uma notável exceção na corrida armamentista coevolutiva entre as pulgas d'água (Daphnia) e os parasitas microscópicos que as infestam; a pesquisa foi publicada em 2007. Enquanto as pulgas d'água se tornam melhores em evitar o parasitismo, os parasitas se tornam melhores em infectá-las. Ambos presa e predador, nesse sistema, podem persistir em estágios dormentes por muitos anos na lama do fundo do lago que compartilham. Os sedimentos do lago podem ser datados conforme o ano em que se formaram, e os predadores e presas enterrados podem ser ressuscitados. Assim, suas interações podem ser testadas, uma contra a outra, e contra predadores e presas provenientes de seus passados e futuros relativos. Confirmando as expectativas teóricas, o parasita adaptou-se a seu hospedeiro ao longo de apenas alguns anos. Sua infectividade a qualquer determinado tempo mudou pouco, mas sua virulência e aptidão [fitness] cresceram constantemente - equiparadas em cada etapa pela capacidade das pulgas d'água de resistência a elas. Esse estudo fornece um exemplo elegante no qual um registro histórico de alta resolução do processo coevolutivo providenciou uma confirmação da teoria evolutiva, mostrando que a interação entre parasitas e seus hospedeiros não é fixa no tempo, mas, alternativamente, é o resultado de uma corrida armamentista dinâmica de adaptação e contra-adaptação, conduzida pela seleção natural de geração para geração.

 

9 - Dispersão diferencial em aves selvagens

 

O fluxo gênico causadopela migração, por exemplo, pode desfazer adaptações para condições locais e ir na contramão da diferenciação evolutiva dentro de uma população e entre populações. De fato, a teoria clássica da genética de populações sugere que quanto mais as populações locais migrarem e se intercruzarem, mais geneticamente similares elas serão. Esse conceito parece estar de acordo com o senso comum, assume que o fluxo gênico é um processo casual, como a difusão. Mas a dispersão não-casual pode na verdade favorecer a adaptação local e a diferenciação evolutiva, como relataram em 2005 Ben Sheldon e seus colaboradores, do Instituto Edward Gray de Ornitologia de Campo, em Oxford, Reino Unido. O trabalho deles foi parte de um estudo multidécada sobre os chapins-reais (Parus major) que habitam um bosque em Oxfordshire, Reino Unido. Os pesquisadores descobriram que a quantidade e tipo de variação genética no peso dos ninhegos dessa ave canora difere entre uma parte do bosque e outra. Esse padrão de variação leva a respostas diversas à seleção em partes diferentes do bosque, resultando em adaptação local. O efeito é reforçado pela dispersão não-casual; aves individuais selecionam e se reproduzem em diferentes habitats de um modo que aumenta sua aptidão [fitness]. Os autores concluem que "quando o fluxo gênico não é homogêneo, a diferenciação evolutiva pode ser rápida e pode ocorrer sobre escalas espaciais surpreendentemente pequenas." Em outro estudo sobre chapins-reais na ilha Vlieland da Holanda, publicado na mesma edição da Nature, Erik Postma e Arie van Noordwijk, do Instituto Holandês de Ecologia em Heteren, descobriram que o fluxo gênico mediado pela dispersão não-casual mantém uma grande diferença genética do tamanho das garras numa pequena escala espacial, mais uma vez ilustrando, como dizem esses cientistas, "o grande efeito da imigração na evolução de adaptações locais e na estrutura genética da população".

 

 10 - Sobrevivência seletiva em lebistes selvagens

 

A seleção natural favorece características que aumentam a aptidão. Ao longo do tempo, poderia-se esperar que tal seleção exaurisse a variação genética por conduzir variantes genéticas vantajosas à fixação em detrimento de variantes menos vantajosas ou deletérias. Na verdade, as populações naturais apresentam frequentemente grandes quantidades de variação genética. Então como esta é mantida? Um exemplo é o polimorfismo genético que se vê nos padrões de cor de machos de lebiste (Poecilia reticulata [peixe da família Poeciliidae]). Como relatado em 2006, Kimberly Hughes e colaboradores, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, manipularam as frequências de machos com diferentes padrões de cor em três populações selvagens de lebiste em Trinidad. Os pesquisadores mostraram que variantes raras têm taxas muito maiores de sobrevivência do que os mais comuns. Essencialmente, variantes são favorecidas quando raras, e selecionadas negativamente quando comuns. Tal sobrevivência 'dependente de frequência', na qual a seleção favorece tipos raros, tem sido relacionada à manutenção de polimorfismos moleculares, morfológicos e relativos à saúde em humanos e em outros mamíferos.

 

11 - A história evolutiva é importante

 

 

 Pensa-se, muitas vezes, que a evolução tem algo a ver com encontrar soluções ótimas para os problemas que a vida apresenta. Mas a seleção natural só pode trabalhar com os materiais disponíveis - materiais que são por sua vez os resultados de muitos milhões de anos de história evolutiva. Ela nunca começa com uma folha em branco. Se o ótimo fosse o caso, então os tetrápodos, ao se depararem com o problema de andar sobre a terra, poderiam talvez ter evoluído rodas em vez de terem suas nadadeiras transformadas em pernas. Um caso real da engenhosidade da adaptação diz respeito a uma moreia (Muraena retifera), um predador dos recifes de coral que parece uma grande serpente. Historicamente, os peixes ósseos usam a sucção para capturar suas presas. Um peixe, ao se aproximar do alimento, abre sua boca para criar uma grande cavidade que suga água para dentro de si junto com a presa. Quando o excesso de água sai pelas fendas branquiais, o peixe leva a presa ao esôfago e às mandíbulas faringeais, que são um segundo conjunto de mandíbulas e dentes derivados do esqueleto que sustenta as brânquias. Mas as moreias têm um problema por causa de sua forma alongada e estreita. Mesmo com suas mandíbulas abertas, sua cavidade bucal é pequena demais para gerar sucção suficiente para conduzir a presa até suas mandíbulas faringeais. A solução para este impasse foi documentada em 2007. Através de observação cuidadosa e de cinematografia de raios-X, Rita Mehta e Peter Wainwright da Universidade da Califórnia, Davis, descobriram a empolgante solução da evolução. Em vez de a presa vir às mandíbulas faringeais, as mandíbulas faringeais se projetam para a cavidade bucal, encurralando a presa e arrastando-a para dentro. Esse, dizem os pesquisadores, é o primeiro caso descrito de um vertebrado usando um segundo conjunto de mandíbulas para conter e transportar a presa, e é a única alternativa conhecida para o transporte hidráulico de presa registrado na maioria dos peixes ósseos - uma grande inovação que pode ter contribuído para o sucesso das moreias como predadores. A mecânica das mandíbulas faringeais da moréia lembra os mecanismos de retenção usados pelas serpentes - também criaturas longas, estreitas, que fazem predação. Esse é um exemplo da convergência, o fenômeno evolutivo no qual criaturas distantemente aparentadas evoluem soluções similares para problemas comuns. Esse estudo demonstra a natureza contingente da evolução; como um processo ela não pode desfrutar do luxo de 'projetar do nada'.

 

 12 - Os tentilhões das Galápagos e Darwin

 

Quando Charles Darwin visitou as Ilhas Galápagos, registrou a presença de várias espécies de tentilhão que tinham aparência muito similar, exceto por seus bicos. Tentilhões do solo têm bicos profundos e largos; tentilhões do cacto têm bicos longos e pontudos; tentilhões-rouxinóis têm bicos afilados e pontudos; refletindo diferenças em suas respectivas dietas. Darwin especulou que todos os tentilhões tinham um ancestral comum que tinha migrado para as ilhas. Parentes próximos dos tentilhões das Galápagos são conhecidos no continente da América do Sul, e o caso dos tentilhões de Darwin se tornou desde então o exemplo clássico de como a seleção natural levou à evolução de uma variedade de formas adaptadas a nichos ecológicos diferentes a partir de uma espécie ancestral comum - o que se chama de 'radiação adaptativa'. Essa ideia tem sido fortalecida desde então, por dados que mostram que mesmo pequenas diferenças na profundidade, largura e comprimento do bico podem ter grandes consequências para a aptidão geral das aves. Para descobrir que mecanismos genéticos estão na base das mudanças no formato do bico que marca cada espécie, Arhat Abzhanov, da Universidade de Harvard, e seus colaboradores examinaram genes numerosos que são ativados durante o desenvolvimento dos bicos nos filhotes de tentilhão; o estudo foi publicado em 2006. Os pesquisadores descobriram que as diferenças na forma coincidem com a expressão diferenciada do gene para calmodulina, uma molécula envolvida na sinalização por cálcio, que é vital em muitos aspectos do desenvolvimento e do metabolismo. A calmodulina é expressada mais fortemente nos bicos longos e pontudos dos tentilhões do cacto do que em bicos mais robustos de outras espécies. Aumentar artificialmente a expressão da calmodulina nos tecidos embrionários que dão origem ao bico causa um alongamento da parte superior do bico, parecido com o que se observa em tentilhões do cacto. Os resultados mostram que ao menos parte da variação na forma do bico dos tentilhões de Darwin é provável que esteja relacionada à variação na atividade da calmodulina, e associam a calmodulina ao desenvolvimento de estruturas craniofaciais do esqueleto de maneira mais geral. O estudo mostra como os biólogos estão indo além da mera documentação de mudanças evolutivas para identificar os mecanismos moleculares subjacentes a elas.

 

 

 13 - Microevolução vai ao encontro da macroevolução

 

Darwinconcebeu a mudança evolutiva como um acontecimento dividido em passos pequenos, infinitesimais. Ele os chamou de 'gradações imperceptíveis' que, se extrapoladas a longos períodos de tempo, resultariam em mudanças radicais de forma e função. Há uma montanha de evidências para essas pequenas mudanças, chamadas de microevolução - a evolução da resistência a antibióticos, por exemplo, é apenas um de muitos casos documentados. Podemos inferir do registro fóssil que mudanças maiores de espécie para espécie, ou macroevolução, também ocorrem, mas são naturalmente mais difíceis de se observar em ação. Porém, os mecanismos da macroevolução podem ser vistos no aqui e agora, na arquitetura dos genes. Às vezes os genes envolvidos nas vidas cotidianas dos organismos estão conectados ou são os mesmos que governam características principais na forma e no desenvolvimento dos animais. Então a evolução mais vulgar pode ter efeitos extensos. Sean Carroll, do Instituto Médico Howard Hughes em Chevy Chase, Maryland, e seus colaboradores observaram um mecanismo molecular que contribui para o ganho de uma única mancha nas asas de machos da mosca da espécie Drosophila biarmipes; eles relataram seus achados em 2005. Os pesquisadores mostraram que a evolução dessa mancha é conectada a modificações de um elemento regulatório ancestral de um gene envolvido na pigmentação. Esse elemento regulatório adquiriu, com o tempo, sítios de ligação para fatores de transcrição que são componentes primitivos do desenvolvimento das asas. Um dos fatores de transcrição que se liga especificamente ao elemento regulatório do gene yellow é codificado pelo gene engrailed, que é um gene fundamental para o desenvolvimento como um todo. Isso mostra que um gene envolvido em um processo pode ser cooptado para outro, em princípio conduzindo a mudança macroevolutiva.

 

 

14 - Resistência a toxinas em serpentes e em clame-da-areia

 

Os biólogos estão compreendendo cada vez mais os mecanismos moleculares subjacentes à mudança evolutiva adaptativa. Em algumas populações do tritãoTaricha granulosa, por exemplo, os indivíduos acumulam o veneno neuroativo tetrodotoxina em sua pele, aparentemente como uma defesa contra a cobraThamnophis sirtalis. As cobras dessa espécie que predam os tritões venenosos evoluíram resistência à toxina. Através de trabalho exaustivo, Shana Geffeney, da Escola de Medicina de Stanford, na Califórnia, e seus colaboradores descobriram o mecanismo por trás disso; seu estudo foi publicado em 2005. A variação no nível de resistência das cobras à sua caça venenosa pode ser delineada em mudanças moleculares que afetam a ligação da tetrodotoxina a um canal de sódio particular. Uma seleção similar para a resistência a toxinas aparentemente ocorre nos clames-da-areia (Mya arenaria) em áreas costeiras do Atlântico Norte no continente americano, como relatado por Monica Bricelj do Instituto de Biociências Marinhas da Nova Escócia, Canadá, e seus colaboradores na mesma edição da Nature. As algas que produzem 'marés vermelhas' geram saxitoxina - uma causa de envenenamento por frutos-do-mar em humanos. Esses molucos se expõem à toxina ao ingerirem as algas. Os provenientes de áreas com marés vermelhas recorrentes são relativamente resistentes à toxina e acumulam-na em seus tecidos. Os que vivem em áreas não afetadas não evoluíram tal resistência. A resistência à toxina nas populações expostas está correlacionada com uma única mutação no gene que codifica para um canal de sódio, num sítio já relacionado à ligação da saxitoxina. Parece provável, portanto, que a saxitoxina age como um potente agente seletivo nos clames-da-areia e leva à adaptação genética. Esses dois estudos mostram como pressões seletivas similares podem levar a respostas adaptativas similares mesmo em táxons [unidades de classificação] muito diferentes.

 

 15 - Variação versus estabilidade

 

As espécies podem permanecer sem grandes mudanças por milhões de anos, tempo o bastante para coletarmos suas marcas no registro fóssil. Mas elas mudam também, e muitas vezes muito abruptamente. Isso levou alguns a se perguntarem se as espécies - geralmente aquelas se desenvolvendo em trajetórias específicas - guardavam oculto o potencial para a mudança abrupta, soltando uma enxurrada de variação em tempos de estresse ambiental, variação estasobre a qual a seleção pode atuar, e que ficaencoberta em outras circunstâncias em que não há estresse. Essa ideia de 'capacidade evolutiva' foi trazida à baila primeiramente por Suzanne Rutherford e Susan Lindquist em experimentos surpreendentes com moscas-das-frutas. Sua ideia era que proteínas-chave envolvidas na regulação de processos de desenvolvimento são 'acompanhadas' por uma proteína chamada Hsp90, que é produzida mais em tempos de estresse. Nessas situações, Hsp90 é sobrepujada por outros processos e as proteínas normalmente reguladas por ela podem circular livremente, produzindo um rebuliço de variação que de outra forma estaria oculta. Aviv Bergman, da Faculdade Albert Einstein de Medicina em Nova York, e Mark Siegal, da Universidade de Nova York, exploraram se a capacidade evolutiva é restrita à Hsp90 ou é encontrada mais geralmente; seu estudo foi publicado em 2003. Eles usaram simulações numéricas de redes genéticas complexas e dados de expressão gênica de todo o genoma de linhagens de levedura nas quais genes individuais foram deletados. Mostraram que a maioria e talvez todos os genes guardem variação em reserva que é liberada apenas quando são funcionalmente comprometidos. Em outras palavras, parece que a capacidade evolutiva pode ser maior e mais profunda do que se vê na Hsp90.

 

 Fonte: Nature

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Os Achados Fósseis e a Evolução

Milhares de achados fósseis tem sido descobertos nos últimos anos confirmando a teoria da Evolução. Visto ser um assunto bem extenso vou me concentrar apenas em alguns achados relacionados com a espécie humana e sua evolução. Em 19 de julho de 2001 um grupo de paleontólogos da França e do Chade divulgou a descoberta de um fóssil que teria pertencido ao primeiro antepassado humano já conhecido o Sahelanthropus tchadensis ou homem de Toumai. Esse fóssil foi encontrado no Chade, na África Central. Hoje a comunidade científica aceita razoavelmente bem que este é o fóssil do hominídeo mais antigo já encontrado, com 7 milhões de anos. Trata-se de uma indicação de que o bipedismo humano surgiu não na savana como se acreditava, mas na floresta tropical das imediações do Chade, hoje desértica (Alain Beauvilain. "Toumaï, l'aventure huamine". Paris, La Table Ronde, 2003).

     Em outubro de 2009, a revista científica Science publicou um estudo iniciado em 1992 onde 47 investigadores de dez países publicaram em onze artigos os resultados das análises de fósseis do hominídeo Ardipithecus ramidus (Ardi) com 4,4 milhões de anos. Ardi era uma criatura das florestas, com cérebro pequeno, braços longos e pernas curtas. O pélvis e os pés mostram uma forma primitiva de caminhar ereto, porém, o Ardipithecus também era capaz de subir em árvores com seus longos e grandes dedos que lhe permitiam agarrar, assim como os macacos.

     O estágio australopitecídeo, iniciado há uns 3 milhões de anos, inclui achados fósseis que podem ser reunidos em dois grupos: os pequenos australopitecos e os grandes australopitecos ou parantropos. Os pequenos australopitecos eram bípedes, mediam cerca de 1,20m e pesavam entre 25 e 50 quilos, com capacidade craniana média de 500 cm3. Seus primeiros fósseis foram encontrados na garganta de Olduvai, Tanzânia, na África, junto a seixos grosseiramente trabalhados à mão. A postura vertical trazia a vantagem de libertar as mãos para a manipulação e a associação dos movimentos das mãos com os olhos estimulava o cérebro. Assim, o bipedismo constituiu uma base para as habilidades culturais. Aos australopitecos pequenos sucederam-se os australopitecos grandes ou parantropos, do tamanho do homem moderno, porém com o cérebro de 600 cm3. Foram encontrados em Olduvai e no Saara, na África e em Java, na Indonésia.  Entre os principais achados fósseis deste período estão DIK-1 (Selam) descoberto em 2000 na Etiópia por Zeresenay Alemseged e o AL 288-1 (Lucy) descoberto em 1974 na Etiópia por Donald Johanson (Zeresenay Alemseged, Mother of man, 3.2 million years ago. BBC Science & Nature,2006; Um esqueleto hominídeo juvenil de Dikika, na Etiópia.Nature 443 pág. 296-301).

     Depois dos australopitecos, os fósseis encontrados foram classificados como pertencentes ao estágio pitecantropóide. Os primeiros pitecantropos ou "homo erectus" datam de aproximadamente 500.000 anos e foram descobertos em Java (Indonésia), Pequim (China), Heidelberg (Alemanha), Tenerife (Marrocos), Olduvai (Tanzânia) e na Hungria. Viveram na segunda fase interglaciária e seu cérebro possuía capacidade craniana média de 1 000 cm3. Os pitecantropos conheciam o fogo, fato que lhes permitia habitar em cavernas e prolongar o período das atividades, antes limitado pelo cair da noite. Nas cavernas onde moravam, inclusive em lugares muito frios como na Europa, foram encontradas boas quantidades de carvão acumuladas, indicando que várias gerações deles acendiam fogueiras. Eram carnívoros, andarilhos e praticavam a caça de rastreio. Proporcionando luz para habitar as cavernas, calor para enfrentar climas mais frios e um método para preservar a carne, o fogo representou uma grande revolução na cultura dos hominídeos. E com sua ajuda, provavelmente iniciaram a migração pelo planeta, visto que os hominídeos do estágio pitecantropóide só não foram encontrados na América e na Austrália.

     Os Neanderthais viveram entre 100 000 e 40 000 anos atrás e possuíam uma capacidade cerebral próxima à do homem moderno. Eles poderiam ser descritos como possuidores de uma caixa craniana moderna e uma face próxima à dos pitecantropos. Talhavam a pedra com perfeição e praticavam ritos funerários enterrando seus mortos. Descobriu-se que um esqueleto dessa espécie, desenterrado em Shanidar, fora recoberto com oito espécies diversas de flores. Ora, isso demonstra a existência de ritos conscientes, além de uma vida social organizada tal qual a das tribos primitivas de homo sapiens-sapiens.

     Os esqueletos sucessivos aos Neanderthais são denominados de Cro-Magnon ou Homo sapiens-sapiens. Foram encontrados numa localidade da França que lhes deu o nome, a cerca de 35 000 anos, no Paleolítico superior. O uso de instrumentos de caça provavelmente ativou o desenvolvimento do cérebro e a redução das mandíbulas e dos dentes até então usados como ataque e defesa.O homem de Cro-Magnon é o nosso antepassado direto. Vestido como um homem atual, ele seria indistinguível nas ruas das cidades. Possuía estatura elevada e capacidade craniana de 1500 cm3 em média. Desenvolveu a linguagem articulada, fazia instrumentos especializados para a caça e a pesca e criou a arte rupestre e a escultura.A complexidade do cérebro humano, no entanto, levou estes primeiros homens a perceber que era possível interferir na produção tanto das plantas quanto dos animais de que tanto precisavam para se alimentar. A experiência de geração após geração acabou por levar o homem a descobrir a agricultura e a domesticação dos animais. Foi um passo decisivo para a transformação das sociedades primitivas.

     Como vimos até agora os registros fósseis são uma prova consistente de que nosso planeta já abrigou espécies diferentes das que existem hoje. Esses registros são uma forte evidência da evolução porque nos fornecem indícios de parentesco entre estes e os seres viventes atuais ao observarmos, em muitos casos, uma modificação contínua evidente das espécies.

     adaptação, capacidade do ser vivo em se ajustar ao ambiente é outra evidência, uma vez que, por seleção natural, indivíduos portadores de determinadas características vantajosas, como a coloração parecida com a de seu substrato, possuem mais chances de sobreviver e transmitir a seus descendentes tais características. Assim, ao longo das gerações, determinadas características vão se modificando, tornando-se cada vez mais eficientes. Como exemplos de adaptação por meio da seleção natural temos a camuflagem e o mimetismo.

     As analogias e homologias também podem ser consideradas como provas da evolução baseadas em aspectos morfológicos e funcionais, uma vez que o estudo comparativo da anatomia dos organismos mostra a existência de um padrão fundamental similar na estrutura dos sistemas de órgãos.A ciência tem encontrado cada vez mais evidências de que as espécies se originaram de um tronco único, por isso possuem estruturas tão fundamentalmente semelhantes.

    As estruturas análogas desempenham a mesma função, mas possuem origens diferenciadas, como as asas de insetos e asas de aves. Estas, apesar de exercerem papéis semelhantes, não são derivadas das mesmas estruturas presentes em um ancestral comum exclusivo entre essas duas espécies. Assim, a adaptação evolutiva a modos de vida semelhantes leva organismos pouco aparentados a desenvolverem formas semelhantes, fenômeno este chamado de evolução convergente.

     A homologia se refere a estruturas corporais ou órgãos que possuem origem embrionária semelhante, podendo desempenhar mesma função (nadadeira de uma baleia e nadadeira de um golfinho) ou funções diferentes, como as asas de um morcego e os braços de um humano, nadadeiras peitorais de um golfinho e as asas de uma ave. Essa adaptação a modos de vida distintos é denominada evolução divergente. 

     Os órgãos vestigiais são estruturas pouco desenvolvidas e sem função expressiva no organismo, como o apêndice vermiforme e o cóccix indicando que estes órgãos foram importantes em nossos ancestrais remotos e por deixarem de ser vantajosos ao longo da evolução, regrediram durante tal processo. Estes órgãos podem também estar presente em determinadas espécies e ausentes em outras, mesmo ambas existindo em um mesmo período.

     evidência molecular nos mostra a semelhança na estrutura molecular de diversos organismos sendo que, quanto maior as semelhanças entre as sequências das bases nitrogenadas dos ácidos nucléicos ou quanto maior a semelhança entre as proteínas destas espécies, maior o parentesco e, portanto, a proximidade evolutiva entre as espécies.

       É digno de nota que as recentes pesquisas genéticas tem demonstrado que o código genético do ser humano e muito semelhante ao do chimpanzé, 98,7% do código genético do homem é igual ao do chimpanzé e a semelhança com os outros primatas chega a 98,3%. Assim, a Teoria da Evolução reúne uma série de evidências e provas que a faz ser irrefutável até o presente momento.

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A Origem das Espécies

A evolução da espécies foi descrita pelo naturalista britânico Charles Darwin no seu célebre livro “A Origem das Espécies” publicado em 1859. Como é de conhecimento geral, esta teoria culminou no que é agora considerado o paradigma central para a explicação de diversos fenômenos na biologia tornando-se a explicação científica dominante para a diversidade de espécies na natureza (Charles Darwin, A Origem Das Espécies, Coleção Obra-Prima de Cada Autor. Editora Martin Claret, 2007. ISBN 8572325840). A teoria científica da evolução explica como as formas de vida desenvolveram diversidade ao longo das gerações. Uma coisa que se deve entender imediatamente é que ela não alega explicar o desenvolvimento do universo ou o surgimento da vida. Ela explica como novas formas de vida surgiram de formas de vida mais antigas. Mesmo que a vida na terra tenha se iniciado por algum tipo de intervenção divina ou alienígena, isto não afetaria a evidência da evolução, que é aceita por pessoas que acreditam em um ou mais Deuses, bem como por quem não acredita em nenhum. Também é importante entender o que é uma teoria cientifica. Fora do meio cientifico as pessoas frequentemente usam a palavra teoria para se referir a um palpite, ou a qualquer opinião pessoal não provada. Não é isso o que a palavra teoria significa na ciência. Na ciência, uma teoria se refere especificamente a uma explicação bem concreta sobre uma grande quantidade de fatos bem concretos e firmemente estabelecidos. Assim, sempre que encontramos declarações do tipo “evolução é só uma teoria, não um fato”, isso nos diz que quem fez tal declaração não está usando o termo adequadamente. Em ciência, a teoria não é enaltecida pelos fatos, antes, os fatos é que são explicados pela teoria. Por causa de seu poder de explicar as coisas, as teorias são a meta suprema e a plena conquista da natureza da ciência. 

Para começar com alguns fatos bem conhecidos, nós sabemos que as características físicas dos pais são herdadas pela geração seguinte e através do artifício de criação seletiva, muitas características podem ser aumentadas em gerações posteriores. Isso pode ser conseguido muito facilmente acasalando os indivíduos que exibem mais fortemente aquela característica e repetindo este processo através de sucessivas gerações. Crie apenas cavalos que tem ótimo desempenho em competições e seus filhotes também serão premiados. Crie apenas cachorros agressivos, e seus filhotes serão agressivos. Muitos que alegre e facilmente dirão entender esse tipo de seleção artificial são os mesmos que rotulam evolução como “impossível” ou “um conto de fadas”. Contudo, a seleção natural, um dos principais mecanismos que guiam a evolução não requer nenhuma suspensão mágica ou violação das leis da física. Ela simplesmente diz que as características também surgem e oportunidades reprodutivas também são limitadas por outros fatores que não a influência humana. Se um criador de cachorros selecionar apenas os cachorros mais velozes para sua criação, e se na selva, somente as gazelas mais rápidas escaparam dos predadores e sobreviveram para reproduzir, então ambos, a natureza e o criador de cachorros estão favorecendo certos indivíduos para produzirem filhotes e passar sua informação genética para a geração seguinte.

Antes de falar mais sobre seleção natural, gostaria de mencionar outro termo comumente incompreendido: “Mutação”. Muitos pensam que quando biologistas falam sobre mutação, eles estão se referindo apenas a malformações dramáticas como animais com membros ou cabeças a mais. Ou cenários forçados como cães produzindo gatos, ou até se transformando em gatos. Isto tudo é fruto de desinformação. “Mutação” é simplesmente a mudança na variação genética dentro de uma população, originada por inserção, exclusão ou recombinação de sequência do DNA. Mas mutação não é a única causa de variação, porque não é só a sequência do DNA que é importante para a Evolução. Estudos de epigenética, por exemplo, mostram que os genes podem ser ligados ou desligados, e que essa ativação ou inibição pode ser herdada e se expressar em gerações futuras. A maioria das variações são neutras e não tem qualquer impacto na sobrevivência do organismo, acumulando-se naturalmente em gerações sucessivas, o que se chama de deriva genética, cujos efeitos são melhor percebidos em pequenas populações (Richard Dawkins, O Gene Egoísta. Companhia das Letras, 2007. ISBN 978-8535911299).

Mas variação na cor, por exemplo, pode ter um impacto maior. Considere um inseto de coloração pouco parecida com a casca das arvores onde habita. Se a variação genética fizer alguns de seus filhotes menos evidentes para os predadores, eles terão mais chances de sobreviver e de se reproduzir. E com o passar do tempo, os insetos com esta variação de cor podem se tornar mais abundantes dentro da população. Se a variação fizer alguns dos outros filhotes mais evidentes para os predadores, então talvez eles não sobrevivam para se reproduzir, e essa variação pode desaparecer ou ser suprimida pela seleção natural. Muitos que não entendem a evolução tentam descrevê-la como “puro acaso”. Mas não foi por acaso que camuflagem, cascos, pétalas, antenas, barbatanas, asas, olhos e raízes evoluíram no mundo natural. Todas estas características físicas tiveram funções especificas na contribuição para o sucesso reprodutivo de diferentes organismos. E fica óbvio que se os organismos que exibem essas características se reproduzirem, eles perpetuarão sua informação genética, incluindo a informação responsável pela característica para a próxima geração. Mas não é verdade que toda característica de um organismo tem que ser vantajosa. Por exemplo, características que não trazem nenhuma vantagem ainda podem ser favorecidas se estiverem associadas à outra que traz. Quando se trata de características vantajosas, não existe um “tamanho único”. Tamanho pode ser uma grande vantagem para um leão-marinho que quer dominar seus rivais, mas seria uma considerável desvantagem para um macaco-aranha, que está adaptado para movimentar-se agilmente pelas árvores. De novo, não é por acaso que o leão-marinho evoluiu para ser enorme e o macaco-aranha evoluiu para ser esbelto e ter membros tão esguios. Esses atributos físicos os ajudam nos seus respectivos ambientes e meios de vida para sobreviver e competir para se reproduzirem.

Pessoas que dizem que evolução é sobre um impossível e improvável golpe de sorte cega, frequentemente gostam de alegar que a probabilidade de formas de vida evoluir é a mesma de se ganhar o prêmio máximo de um caça-níquel centenas de vezes seguidas. Mas acasos milagrosos não tem nada a ver com evolução. Se formos usar a mesma analogia da máquina caça-níquel, então a evolução mantém presos quase todos os símbolos e só aceita os que combinam cada vez que se puxa a alavanca. Começando com uma palavra nós só precisamos mudar uma letra para transformá-la numa nova palavra. Mudando uma letra dessa nova palavra resultam novas palavras adicionais. E se nós prosseguirmos com esse processo, produziremos palavras totalmente diferentes da original. Uma mudança dramática obtida através de pequenas mudanças por vez. É isso que acontece na Evolução, exceto que na evolução, incontáveis minúsculas mudanças se acumulam ao longo de milhões de anos. O problema para a maioria das pessoas entenderem o processo da evolução é que eles não conseguem pensar em termos de milhões de anos, para muitos é difícil conceber tal espaço de tempo devido à curta duração de nossas vidas (Richard Dawkins, O Relojoeiro Cego, A Teoria da Evolução Contra o Desígnio Divino. Companhia das Letras, 2001. ISBN 8535901612).

Se membros de uma dada espécie se isolam geograficamente, cada grupo acaba por ter que responder a um ambiente muito diferente e a enfrentar diferentes predadores e se adaptar a formas diferentes de obter comida. Assim, a variação genética não mais estará sendo compartilhada por toda a população, mas apenas entre os membros de cada grupo vivendo em determinado ambiente. Desta forma, a deriva genética e a seleção natural podem fazer com que surjam duas espécies distintas que passando um certo período de tempo não são mais tão próximas a ponto de ser possível se reproduzir entre si.

A teoria da evolução não diz que “organismos de uma espécie de repente passam a produzir organismos de outra espécie”. Cães não produzem gatos e organismos individuais não mudam de espécie. Um macaco não se torna um ser humano, há um mal-entendido comum sobre como a evolução nos liga aos macacos que é revelado pela clássica pergunta que a maioria faz “Se os humanos evoluíram dos macacos, por que ainda existem macacos?” Em primeiro lugar os humanos não evoluíram dos macacos que vemos hoje. Humanos e macacos modernos compartilham um ancestral comum, semelhante a um macaco, mas diferente de ambos. Em segundo lugar, quando uma forma de vida evolui de outra isso não quer dizer que a forma de vida original tem que deixar de existir. Considere por exemplo à espécie A tão bem adaptada ao seu meio ambiente que muda muito pouco de uma geração para outra, então, parte dessa população se espalha para um novo meio ambiente em que se mostra pessimamente adaptada. Diferentes pressões de sobrevivência agora levam as gerações dessa população a mudarem dramaticamente enquanto as mudanças na primeira população são quase imperceptíveis. Após muitas gerações a população 1 ainda existe mais ou menos na sua forma original enquanto que a população 2 está agora muito diferente devido a uma adaptação em um ambiente mais hostil. A população 1 não precisa ser extinta, nem mudar da mesma maneira. Por exemplo, os brasileiros descendem dos portugueses, mas nem por isso os portugueses deixaram de existir ou se transformaram em brasileiros.

A teoria da evolução não requer a existência de um animal com a cabeça de crocodilo e o corpo de pato, mesmo quando há evidências de que um animal evoluiu diretamente de outro isso não significa que a transição de todas as formas tem que parecer como pedaços de ambos os animais colados juntos. A evolução não trabalha combinando diferentes espécies aleatoriamente. Cientistas evolucionistas nunca caçaram o “crocopato” ou o “rinopolvo”. A teoria da evolução nos diz uma coisa bem diferente. A natureza não recompensa apenas combinações aleatórias de características, mesmo animais altamente especializados têm sido levados à extinção. A natureza só recompensa aquilo que é capaz de se reproduzir com eficiência. O “crocopato”, inventado para ridicularizar a evolução tornou-se, em vez disso, num símbolo de mau argumento contra a Evolução.

Algumas pessoas dizem que a aceitação dessa teoria implica ou leva inevitavelmente ao desejo por um controle étnico de seres humanos, porém, reconhecer um aspecto da natureza não significa que você tem qualquer desejo de adaptá-lo a uma política social e cometer graves violações aos direitos humanos. Evolução não é um apoio à eugenia. Assim como aceitar o fato de que a fêmea de inúmeras espécies mata e come os machos após o acasalamento não é um endosso ao canibalismo. É apenas a aceitação da realidade. Se alguém menciona que a teoria da Evolução diz alguma dessas inverdades então ele simplesmente não a entende ou está deturpando-a deliberadamente e tentando criar confusão sobre o que é ciência na esperança de que isso dê mais apoio a sua causa.

De qualquer forma, tentativas de fazer a evolução se parecer com um conto de fadas sendo por desinformação ou desonestidade, continuarão sendo desmascaradas. O conto de fadas é a alegação de que a evolução tem alguma coisa a ver com cães gerando gatos, animais se transformando de uma hora para outra em uma diferente espécie ou surgirem por puro acaso. Se você conversar com qualquer um que conheça e aceite a evolução descobrirá que estas ideias são tão ridículas para eles como são para os antievolucionistas. Evolução é tanto o fato como a teoria. É o fato cientificamente estabelecido de que a vida evolui e continua evoluindo e a teoria da evolução explica como isso se dá. Existem muitas razões que tornam importante o entendimento da evolução, não apenas porque ela é essencial para a compreensão da biologia. Nós convivemos com vírus que rapidamente desenvolvem resistência aos nossos sistemas de defesa. Falhar em entender esse processo significa falhar em entender uma das ameaças mais mortais que enfrentamos.

     Pela curiosidade e cuidadosa dedicação ao trabalho de gerações de cientistas nós agora entendemos com mais detalhes do que em qualquer outro momento da história respostas para as maiores perguntas sobre a vida nesse planeta. Essas são as peças chaves da herança cientifica que vale a pena passar para as novas gerações que certamente irão aperfeiçoar o nosso entendimento sobre a vida (Edward O. Wilson, The Diversity of Life. Harvard Univ. Press, 2ª Edição 1992. ISBN 978-0674212985). 

Este texto foi extraído do livro "A BÍBLIA SOB ESCRUTÍNIO", para adquiri-lo CLIQUE AQUI!

 

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