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O Dilúvio Bíblico Realmente Aconteceu?

O Dilúvio Bíblico Realmente Aconteceu?

O relato bíblico do Dilúvio dos dias de Noé traz questões de difícil solução. Em primeiro lugar destaco o fato de a bíblia afirmar que o dilúvio foi global. Já parou para pensar na quantidade de água necessária para inundar a terra inteira, cobrindo até mesmo os mais altos montes? De onde teria vindo esta quantidade incalculável de água? E onde estaria esta agora? Segundo Gênesis 7:20, o nível das águas chegou a quase 7 metros (15 côvados x 45,72cm) acima dos picos mais altos. Considerando que o Everest tem cerca de 8.844 metros, as águas chegaram a 8.851 metros. É muita água! Muitos religiosos costumam vir com a justificativa de que na época do dilúvio não existiam montes altos como o Everest, que tais montes foram formados como consequência do dilúvio. Porém, as evidências geológicas demonstram claramente que a cordilheira do Himalaia foi formada pela colisão das placas tectônicas, no caso a colisão das placas Indo-australiana e da Eurásia, choque este que começou a ocorrer no período Cretáceo Superior a cerca de 70 milhões de anos, portanto milhões de anos antes do suposto dilúvio que segundo o relato bíblico ocorreu a apenas 5 mil anos.

     Outra questão que surgi tem a ver com a pressão das águas. Para cada 10 metros que um mergulhador desce no mar, a pressão (em atmosferas) sofre um acréscimo de uma unidade. Se ele descer a 20m, estará sob uma pressão de 3 atm (1 atm da pressão ao nível do mar, mais 2 atm porque ele desceu 20m). Com 8.851m, a pressão no que seria originalmente o nível do mar sofreria um acréscimo de mais de 880 atm!Sob essa pressão nenhuma pintura rupestre ou fóssil resistiria, seriam todos esmiuçados.

     Outro detalhe curioso tem a ver com o lugar onde esta quantidade estratosférica de água estava armazenada antes do dilúvio. Segundo a bíblia havia águas acima da expansão ou do firmamento (céu) separadas no segundo dia criativo ou seja, as nuvens estariam debaixo d’água. Muitos religiosos usam tal relato bíblico para defender a ideia das fontes do paraíso, que existia um enorme manancial de água acima da expansão, surgem diversas explicações mirabolantes e anticientíficas sobre como a água fora mantida suspensa até o dilúvio e sobre os processos que resultaram na sua queda. Mas tudo isso não passa de especulação sem sentido de religiosos tentando dar sentido a sua fé, pois tais idéias são absurdas. Mesmo porque, não há vapor d’água a determinada altura. E mesmo que houvesse, o frio transformaria a água em granizo. Então, as pessoas e animais não morreriam afogados, mas de traumatismo craniano dado o tamanho das pedras de gelo.

     Pense na imensa quantidade de espécies de animais que existem, segundo os mais recentes estudos este número pode chegar a mais de um milhão. Portanto onde Noé colocou esta quantidade imensa de animais? Segundo a bíblia, a arca tinha modestos 300 côvados de comprimento, 50 côvados de largura e 30 côvados de altura. Calculando em metragem moderna seriam 133 metros de comprimento, 22 metros de largura e 13 metros de altura. Tal metragem seria a metade do tamanho de um transatlântico moderno. De fato seria impossível colocar tamanha quantidade de animais dentro desta arca.

     Além disso, imagine a quantidade de alimento necessário para que todos estes animais sobrevivessem durante todo o tempo em que ficaram dentro da arca. Segundo o relato bíblico eles ficaram mais de um ano dentro da arca (Compare Gênesis 7:11 com Gênesis 8:13, 14). Deveria haver um lugar para a comida, não só dos animais, mas para a família de Noé também, afinal se eles matassem um carneiro, estariam descumprindo as ordens de Deus. Outro detalhe importante é que havia animais carnívoros. Como impedir que os leões atacassem as zebras? Como impedir que as raposas comessem os coelhos? E os gaviões, águias, abutres (estes últimos só se alimentam de carniça) etc? Para os herbívoros seria mais fácil? Bem, faz idéia do quanto os elefantes comem por dia? Neste caso, eles teriam que construir mais umas 10 arcas para levar alimento suficiente para que todos estes animais sobrevivessem durante um ano. E depois que esta enorme quantidade de animais saiu de dentro da arca, onde encontraram alimento? Segundo o relato bíblico a terra estava toda devastada devido a esta inundação catastrófica. Depois de um ano de inundação não haveria vegetação sobre a terra, entretanto, Noé envia uma pomba para ver se havia qualquer terra seca. Porém ela volta sem achar nenhuma. Então, apenas sete dias depois ela sai novamente e retorna com uma folha de oliveira. Mas como uma oliveira pôde sobreviver à catastrófica inundação? Mesmo que acontecesse de qualquer semente sobreviver, certamente ela não germinaria e produziria folhas num período de sete dias (Gênesis 8:8-11).

     Pense também na grandiosa quantidade de ecossistemas que funcionam de maneira harmoniosa. Basta acompanhar alguns programas da National Geographic ou do Discovery Channel, para nos maravilharmos com tais lugares, cada qual tendo seu próprio equilíbrio. Às vezes ficamos indignados com a ação do homem que infelizmente tem destruído a frágil estrutura de tais lugares, alguns sofrendo danos irreversíveis. Agora pense nos danos catastróficos que um dilúvio das proporções do relatado na bíblia causaria a todos estes ecossistemas.

     Além disso, existem animais que só vivem em determinados ecossistemas. Por exemplo, o canguru só existe na Austrália, o urso polar apenas no pólo norte, o urso panda apenas na China, o lêmure só em Madagascar, o mico-leão-dourado só no Brasil. Como tais animais saíram de lugares longínquos, alguns precisando atravessar até mesmo oceanos inteiros para chegarem ao oriente médio, lugar que segundo a bíblia a arca foi construída? Como puderam o urso panda, o canguru, o urso polar, o lêmure e o mico-leão-dourado deslocarem dezenas de milhares de quilômetros até chegarem a arca? Isto exigiria uma gigantesca migração que levaria séculos, e com certeza durante este colossal deslocamento, várias gerações destes animais morreriam pelo caminho, enquanto as novas gerações continuariam esta heróica jornada até chegarem ao seu destino. Se isto realmente tivesse acontecido, os paleontólogos achariam os fósseis destes animais, indicando sua impressionante peregrinação. Seria uma das mais fabulosas descobertas da paleontologia, grandes clãs de animais se deslocando através de séculos, saindo da China, Austrália, Pólo Norte, Américas, todos em direção a salvadora arca de Noé. Pena que nenhum cientista jamais achou algo parecido, pelo contrário, como sabemos os cangurus sempre viveram na Austrália e nunca saíram de lá, o urso panda sempre viveu na China e por lá sempre ficou, o urso polar nunca deixou o pólo norte, o lêmure nunca deixou Madagascar e o mico-leão-dourado nunca deixou o Brasil.

     Ainda existem as questões morais de tal ato destruidor. Deus resolve devastar toda a terra, incluindo os animais por causa da maldade do homem, agora surge a pergunta: O que os animais tinham a ver com isso? E as crianças que foram mortas sem dó nem piedade por causa das ações dos adultos, o que estas pobres crianças tinham a ver com isso? Neste ataque de ira Deus exterminou bebês recém-nascidos, mas o que estes bebês tinham a ver com a suposta maldade de seus pais? Morreram porque simplesmente tiveram o infortúnio de nascer na época errada? Se elas tivessem a oportunidade de crescer talvez tivessem escolhido um proceder diferente de seus pais. Mas infelizmente o Deus bíblico não lhes deu esta oportunidade, foram impiedosamente massacrados. O pior de toda essa prosopopéia é que o próprio Deus bíblico reconheceu que toda essa matança não serviu para nada, pois tudo continuou do mesmo jeito, tanto é assim que ele mesmo prometeu não mais trazer uma destruição desta forma. Observe, isso foi falado antes do dito dilúvio: "Por conseguinte, Jeová viu que a maldade do homem era abundante na terra e que toda inclinação dos pensamentos do seu coração era só má, todo o tempoE Jeová deplorou ter feito os homens na terra e sentiu-se magoado no coração.  De modo que Javé disse: Vou obliterar da superfície do solo os homens que criei, desde o homem até o animal doméstico, até o animal movente e até a criatura voadora dos céus, porque deveras deploro tê-los feito" (Gênesis 6:5). Agora compare com o que ele disse depois do dilúvio: "E Jeová começou a sentir um cheiro repousante, e Jeová disse então no seu coração: “Nunca mais invocarei o mal sobre o solo por causa do homem, porque a inclinação do coração do homem é má desde a sua mocidade; e nunca mais golpearei toda coisa vivente assim como tenho feito" (Gênesis 8:21). O Próprio Deus reconheceu que aquela ação não serviu para nada e prometeu nunca mais agir daquela forma.

     Diante de todos estes fatos como podemos acreditar na epopéia lendária do dilúvio bíblico? Existem versões mais razoáveis para explicar este evento. William Ryan e Walter Pitman, geólogos da Universidade de Colúmbia teorizam que no fim da última era glacial o mar Mediterrâneo se encheu de tal forma que suas águas atravessaram o Estreito de Bósforo invadindo a região onde se encontra o Mar Negro, causando uma grande inundação. Utilizando ondas sonoras e dispositivos para analisar as profundezas do Mar Negro (os mesmos equipamentos usados para descobrir os destroços do Titanic), eles encontraram evidências claras da existência de um antigo lago de água doce rodeado por um vale fértil. Além disso, foram achados indícios de habitação humana neste lugar (W.B. Ryan and W.C. Pitman, Noah's Flood: The new scientific discoveries about the event that changed history. Simon & Schuster, 2000. ISBN 978-0684859200).

     Sofisticadas técnicas de datação confirmaram que há 7.600 anos atrás (5600 a.C.), o mar Mediterrâneo rompeu através do vale estreito de Bósforo derramando para dentro do lago com uma força monumental uma inimaginável quantidade de água salgada, inundando praias e rios. A borda do lago, que havia servido como um oásis, um jardim do Éden para fazendas e aldeias em uma vasta região do semideserto, tornou-se um mar de morte. As pessoas fugiram, dispersando suas línguas, genes e memórias. Esta catástrofe natural com certeza ficou bem marcada na vida dos sobreviventes e estes certamente passaram esta história para as novas gerações que as recontaram. Esta transmissão oral provavelmente foi dando contornos épicos à história e com o passar dos séculos se tornou à lenda que hoje conhecemos como “o dilúvio” (Ian Wilson, Before the Flood: Understanding the Biblical Flood Story as Recalling a Real-Life Event. St. Martin's Griffin, 2004. ISBN 978-0312319717).

     Visto que um dos primeiros povos a habitar a Mesopotâmia originou-se desta região é provável que trouxeram as lembranças desta catástrofe natural, que com o tempo tornou-se uma lenda comum entre os povos sumérios, podendo ter sido a base para o famoso mito sumério-acadiano chamado de Epopéia de Gilgamês, um texto cuneiforme originário da biblioteca de Assurbanipal, que reinou na antiga Nínive. Trata-se de 12 tábuas de argila descobertas por arqueólogos em 1850, das quais a 11ª apresenta a história de um dilúvio (David R. Montgomery, The Rocks Don't Lie: A Geologist Investigates Noah's Flood, 2012. New York: WW Norton. ISBN 978-0393082395).

     Existem outras teorias formuladas pelos cientistas como um devastador tsunami que ocorreu no período Neolítico devido ao deslizamento de uma grande parte do vulcão Etna na Sicília (Itália) causando enormes ondas que varreram todo o Mediterrâneo ou uma enchente colossal que varreu toda a região do rio Eufrates na Mesopotâmia durante a Idade da Pedra. Tais teorias tem sido estudadas, mas ainda não existe evidência contundente de que tais catástrofes geológicas foram o acontecimento real que deu origem à lenda do dilúvio. Porém, uma coisa é certa, uma catástrofe local ocorrida no período Neolítico deu origem à lenda. É interessante notar que à grande maioria das civilizações antigas tiveram seus primórdios na Mesopotâmia, e quase todas têm uma lenda sobre uma grande inundação no passado onde humanos e animais foram poupados através de uma embarcação. Visto que os judeus também tiveram seu início nesta região, obviamente desenvolveram sua própria lenda sobre esta catástrofe natural, que se encontra na bíblia em Gênesis capítulos 06 a 08.

 

Este texto foi extraído do livro "A BÍBLIA SOB ESCRUTÍNIO", para adquiri-lo CLIQUE AQUI!

 

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Última modificação emSexta, 09 Dezembro 2016 20:45

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