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Lendas e fantasias no relato bíblico da criação

Lendas e fantasias no relato bíblico da criação

Um mito é uma narrativa de caráter simbólico procurando explicar a realidade. Na cultura das civilizações antigas encontramos relatos que procuram explicar os fenômenos naturais e as origens do mundo e do homem por meio de Deuses e semideuses juntamente com seus heróis. Muitas destas civilizações organizaram tais relatos formando uma mitologia como, por exemplo, a mitologia grega e a romana. À medida que um mito vai sendo repassado oralmente de geração em geração ele sofre alterações ganhando contornos épicos se transformando em uma lenda. De caráter fantástico e fictício, as lendas combinam fatos reais e históricos com fatos irreais e fantasiosos que são meramente produto da imaginação humana. Como toda civilização antiga, os Hebreus também desenvolveram seus mitos e lendas sobre a origem do mundo e do homem, estes se encontram no primeiro livro da bíblia chamado de Gênesis e como toda mitologia lendária este relato está cheio de contradições e incoerências, exageros e fantasias. Vamos analisar alguns exemplos que comprovam este fato.

     Em Gênesis 2:17 Deus alerta a Adão que se comece de um tal fruto da árvore do conhecimento do que é bom e do que é mau, ele morreria imediatamente, pois o texto diz: “porque no dia em que dela comeres, positivamente morreras”. Entretanto o próprio relato bíblico diz que Adão morreu com 930 anos (Gênesis 5:5). Como podemos ver Adão não morreu no dia em que comeu do fruto proibido. Alguns religiosos tentam justificar esta clara incoerência criando uma explicação mirabolante numa tentativa desesperada de defender sua fé. Dizem que ele morreria em sentido espiritual, quer dizer, do ponto de vista de Deus, ao comerem do fruto, imediatamente estariam mortos. Ainda outros criaram uma explicação mais espetacular, dizendo que este dia descrito no texto teria a duração de 1000 anos. Visto que Adão morreu com 930 anos, estaria dentro deste suposto dia. Chegam até mesmo a citar uma passagem em 2ª Pedro 3:8 onde o escritor bíblico tentando explicar a grande demora do fim do mundo, faz uma analogia a eternidade de Deus, dizendo que para Deus 1 dia e igual a 1000 anos. Entretanto, fica claro que o escritor faz uma simples comparação para destacar a eternidade de Deus. Ele poderia usar 10.000 anos, 100.000 anos, 1 milhão de anos, 1 bilhão de anos, etc. A intenção não era justificar a incoerência de Gênesis. Quem tenta fazer isso são os atuais líderes religiosos fanáticos, que usando este trecho dão uma costurada no assunto, aplicando este texto em Gênesis, tentando de alguma forma remendar o erro. O interessante é que a bíblia fala também de um dia durando 1 ano (Números 14:34, Ezequiel 4:6), só que neste caso eles não podem aplicar a Gênesis, porque continuaria a incoerência. Fica evidente o grande esforço dos religiosos em tentar explicar as contradições da bíblia aplicando outras passagens que nada tem a ver com o assunto, escritas mais de um milênio depois.

     Em Gênesis 1:24-26 relata-se que os animais foram criados primeiro, depois foi criado o homem. Já em Gênesis 2:19 diz claramente que o homem foi criado primeiro, depois Deus foi criando os animais e trazendo ao homem para que desse nome a eles. Afinal, Deus criou primeiro os animais ou o homem?

     Em Gênesis 3:14 a serpente recebeu uma espécie de maldição onde a partir daquele momento teria de “andar sobre seu ventre”, ou seja, rastejar. Tal expressão indica que a serpente tinha pernas antes de seduzir Eva e que depois as perdeu. Segundo os religiosos a serpente simplesmente foi usada por um ser espiritual iníquo que através dela seduziu Eva. Portanto, Deus joga uma maldição sobre um animal irracional que era inocente. Segundo o relato bíblico, todas as serpentes rastejam por causa desta maldição dada por Deus.

     Em Gênesis 3:16 Deus proclama suas maldições ao casal devido a sua desobediência. Diz à mulher que aumentaria grandemente suas dores de parto. Este termo indica que, mesmo se ela não comece do fruto, sentiria dores de parto, pois o texto diz claramente que ele aumentaria suas dores de parto, portanto algum tipo de dor ela sentiria, mas se pecasse, esta dor aumentaria. Só que este tipo de ameaça não fez o menor sentido para Eva, porque segundo a bíblia ela nunca tinha dado a luz e nunca tinha sequer visto alguém dar a luz, por isso ela não deve ter entendido a maldição de Deus, nem tão pouco soube diferenciar as dores que ela sentiria sem pecar, com as dores que ela sentiria pecando, afinal segundo a bíblia ela só deu a luz depois da maldição de Deus.

     Em Gênesis 3:17 Deus pune o homem dizendo que amaldiçoaria o solo, só que a terra nunca se tornou estéril, ou maldita, nunca deixou de produzir com abundância. Depois Deus diz que ele comeria a vegetação do campo com o suor de seu rosto. Será que se o homem não pecasse, Deus iria continuar a plantar as coisas para ele, e o homem se limitaria apenas a comer? Não seria esta uma vida sedentária e monótona? O homem é que peca e Deus amaldiçoa a terra? O que o planeta tem a ver com isso? E já que a terra foi amaldiçoada porque a bíblia diz em Gênesis 8:22 que nunca iria cessar a sementeira e a colheita? Porque diz a bíblia que Deus faz o sol levantar sobre bons e ruins e faz chover sobre justos e injustos (Mateus 5:45)? O Salmo 104:14 diz que Deus “faz brotar capim para os animais e vegetação para o homem, e que o alimento sai da terra”. Jó 40:20 diz que “os próprios montes produzem seus produtos”. São estas descrições condizentes com uma terra maldita? Veja Deuteronômio 8:7-9: “pois o senhor teu Deus te introduzirá numa terra boa, uma terra de vale de torrentes de água, de fonte e de água de profundeza surgindo no vale plano e na região montanhosa, uma terra de trigo e de cevada, de videiras e figos, de romãs, uma terra de azeitonas e de mel, uma terra em que não comerás pão com escassez, em que não carecerás de nada” (Veja também Neemias 9:25). Esta é uma descrição da terra de Canaã, uma pequena região entre várias existentes na terra. Regiões tão maravilhosas como esta existem aos milhares em nosso planeta. Será que este panorama condiz com a terra amaldiçoada de Gênesis 3:17?

     Em Gênesis 3:22 Deus diz: “eis que o homem se tem tornado como um de nós, sabendo o que é bom e o que é mau”. Neste texto, Deus diz claramente que a serpente estava certa, porque em Gênesis 3:15 ela diz que se Adão e Eva comessem do fruto proibido, seriam como Deus, sabendo o que é bom e o que é mau. Portanto Deus da razão a serpente, reconhecendo que ela falou a verdade.

     O capítulo 4 de Gênesis é ainda mais incoerente. Os dois filhos de Adão levavam uma vida solitária, não possuíam amigos e nem a quem vender seus produtos, porque segundo o relato, só havia 4 pessoas em todo planeta, Adão, Eva, e seus dois filhos, Caim e Abel. Quando os filhos de Adão resolvem ofertar seus produtos a Deus, ele aceita os produtos pecuários de Abel, mas rejeita os produtos agrícolas de Caim (o relato não explica o motivo dessa preferência de Deus pela oferta de Abel). Por isso Caim mata seu irmão. Diante de tudo isso Deus resolve colocar um sinal em Caim para que ninguém o mate (Gênesis 4:15). Agora pense bem, quem mataria Caim? Seus pais? Não havia mais ninguém na terra. Mesmo que os pais de Caim resolvessem matar seu filho será que haveria a possibilidade deles confundirem seu filho com outra pessoa? No caso com quem? Para que, por favor, me expliquem, colocar um sinal em Caim? Um religioso tentou me explicar dizendo que este sinal era para que as gerações futuras não tentassem matar Caim. Mas a questão continua, porque gerações futuras iriam querer matar Caim? Eles nasceriam muito tempo depois deste acontecimento, portanto não poderiam ver o assassinato nem conviver com os envolvidos para poderem nutrir algum sentimento relativo a tal ato, nem mesmo havia algum descendente da vítima Abel, para poder transmitir esse ódio para as gerações futuras. Os pais, Adão e Eva, com certeza gostariam de esquecer esta tragédia ocorrida com seus filhos e dificilmente iriam querer contar esta fatídica história para seus outros filhos, e mesmo que o fizessem, seus outros filhos não teriam como guardar rancor de algo que eles não presenciaram, tomar as dores de uma pessoa que eles nem mesmo conheceram. Mas as peripécias de Caim não param por aí. Misteriosamente, não sei como nem de onde, o escritor bíblico arranja uma bendita mulher para Caim (Gênesis 4:17). Não satisfeito ele relata que Caim constrói uma cidade, não sei para quem morar, contrariando o que Deus disse que aconteceria, porque segundo o relato, Deus o condena a se tornar um fugitivo e errante sobre a terra (Gênesis 4:12). Depois Caim observa o nascimento do filho Enoque e de mais 4 gerações de sua linhagem até surgir um tal de Lameque que resolve compor um poema se gabando de matar um homem, comparando-se com Caim (Gênesis 4:23, 24). Parece que até esse momento Caim ainda está vivo e se tornou uma lenda, admirado por todos. Somente agora depois de toda esta epopeia, Adão e Eva resolvem ter outro filho para substituir Abel, lembra, aquele que foi morto por Caim (Gênesis 4:25).

     Em Gênesis 6:4 o relato bíblico deixa bem claro que antes do dilúvio existiam homens gigantes na terra, chamados Nefilins. Porém, depois da grande inundação eles desapareceram da terra, morreram todos afogados nas águas do dilúvio. Só que a mesma bíblia diz em Números 13:33 que séculos depois do dilúvio os Nefilins ainda existiam.

     Em Gênesis 11:1, 6-9 encontra-se o famoso relato da Torre de Babel. Segundo diz ali todos os seres humanos falavam a mesma língua, usavam as mesmas palavras, até que Deus se enfurece com a tentativa dos homens de construir uma imensa torre e confunde a língua deles criando assim vários idiomas diferentes. Entretanto, a bíblia fala em Gênesis 10:5 que antes deste acontecimento, havia diversas nações, cada uma com sua própria língua diferente. Dá para entender?   

     Em Gênesis 15:13, Deus faz uma promessa a Abraão, diz que seus descendentes seriam residentes forasteiros numa terra que não era a deles, que serviriam a outro povo e seriam atribulados por 400 anos. Depois disso seriam libertos. No versículo 16, Deus complementa esta predição dizendo que tudo isso aconteceria dentro de 4 gerações, quando finalmente os descendentes de Abraão voltariam para Canaã, a terra que Abraão vivia. Pois bem, em Êxodo 12:40, 41 o escritor bíblico relata que esta profecia se cumpriu na saída dos israelitas do Egito, afirmando que os israelitas, descendentes de Abraão haviam morado no Egito os preditos 430 anos. Note que um texto fala de 400 anos e o outro fala de 430 anos. Mas esta é a menor das contradições. Segundo o relato bíblico, os israelitas não ficaram 400 ou 430 anos no Egito e sim 200 anos. Alguns religiosos desenvolveram uma explicação mirabolante, dizendo que o dito período em que o descendente de Abraão começou a ser atribulado por outra nação, numa terra estrangeira, começou quando houve uma briga de adolescentes, citando o relato de Gênesis 21:8, 9 onde Ismael, irmão mais velho de Isaque, começa a fazer caçoada de seu irmão. A partir daí criaram toda uma explicação, dizendo que o filho mais velho de Abraão tinha sangue egípcio, porque sua mãe era uma escrava egípcia, e que naquele momento ele representava os egípcios, que começaram a atribular o descendente legítimo de Abraão filho de sua mulher Sara. Diante deste raciocínio passam a contar os 400 anos a partir deste momento. Só que Êxodo 12:40 diz que os israelitas moraram no Egito por 430 anos. A briguinha de adolescentes entre Ismael e Isaque aconteceu em Canaã, e Isaque não serviu a Ismael como a profecia indicava. Pelo contrário, Ismael depois disso foi expulso por Abraão junto com sua mãe. Outro fato interessante nisto tudo é que quando Jacó, neto de Abraão, muito tempo depois, mudou-se para o Egito, o relato de Gênesis 46:27 diz que ele trouxe consigo 70 pessoas, estes compunham toda sua família. Já em Êxodo 12:37-41, apenas 200 anos depois, os descendentes de Jacó que saíram do Egito totalizaram 600.000 varões, isto mesmo, 600.000 homens, fora mulheres e crianças. Se formos incluir todos, o número chegaria à astronômica cifra de 3 milhões de pessoas. Imagine uma família de 70 pessoas se transformar em apenas 200 anos numa nação de 3 milhões de pessoas. Como posso dar crédito a um relato desses? Creio que nem mesmo uma praga de ratos conseguiria se multiplicar desta maneira.

     Outro ponto interessante é que segundo Gênesis 15:16, durante estes ditos 400 anos, passariam apenas 4 gerações. Como se pode acreditar numa coisa dessas? Isso só poderia acontecer se cada um dos descendentes de Abraão começasse a ter filhos depois dos 100 anos. Porém, segundo o relato bíblico, só Abraão chegou perto disso, outro fato difícil de acreditar, um senhor de quase 100 anos ter filhos. Mas suponhamos que a virilidade e a capacidade procriativa deste senhor fossem fenomenais, mesmo assim, os demais descendentes de Abraão como, por exemplo, sua linhagem através de Isaque, Jacó, Levi, Coate, Anrão e Moisés tiveram filhos bem mais cedo em suas vidas, e conforme você mesmo pôde contar houve 6 gerações, e não 4 como foi predito. E o escritor bíblico ainda quer nos fazer acreditar que em 6 gerações, 2 pessoas se transformaram em 3 milhões.

     Numa das famosas pragas que Deus mandou no Egito, Ele mata todos os animais dos egípcios com uma forte pestilência. Nenhum dos animais sobreviveu a esta devastadora praga conforme registrado em Êxodo 9:3-6. O interessante é que no relato de Êxodo 9:19-21, 25, Deus manda uma outra praga no Egito, desta vez tal praga veio na forma de uma devastadora chuva de granizo que mata todos os animais dos Egípcios. Mas os animais não tinham morrido na praga anterior, aquela da pestilência?

     O que você acha dessas histórias? Consegue achar algum sentido nisso? Diversas religiões modernas acham, inclusive procuram encontrar uma explicação, tentando dar sentido a elas. Dizem que o relato não é escrito de forma cronológica, fazem uma releitura costurando pedaços do relato aqui e ali, pegando textos que estão no fim e colocando no começo, aplicando relatos de forma simbólica, fazendo a maior celeuma num esforço inútil de dar algum sentido a sua fé.

     Mas o fato é que qualquer pessoa que ler a narrativa bíblica sem fanatismo religioso, com a mente aberta, de forma racional, chegará à conclusão óbvia de que se trata de uma fábula, pois nas páginas da bíblia encontramos um mundo mágico que contêm cobras e mulas falantes (Gênesis 3:1-5; Números 22:28-30), dedos flutuantes escrevendo na parede (Daniel 5:5), comida caindo do céu (Números 11:7), cajados virando serpentes (Êxodo 7:10-12), muralhas desmoronando com o toque de trombetas (Josué 6:20-21), água virando sangue (Êxodo 7:20, 21), pessoas voltando dos mortos (João 11:38-44; 1 Reis 17:17-24; 2 Reis 4:32-37; 13:20, 21; Mateus 28:5-7; Lucas 7:11-17; 8:40-56; Atos 9:36-42 e 20:7-12), o sol parando por horas (Josué 10:12-14), bruxas lendo o futuro (1ª Samuel 28:7-19), carruagens de fogo cruzando o céu (2ª Reis 2:11-14), anjos dormindo com humanas (Gênesis 6:1-4), pessoas que passam dias no estômago de uma baleia (Jonas 1:17), virgens dando à luz (Mateus 1:18-21) e incontáveis aparições de anjos e demônios (Gênesis 19:15, 16; Daniel 6:22; Atos 12:6-11; Mateus 8:28-32; Revelação 12:7-12). Fascinante, sem dúvida uma literatura fantástica. Mas obviamente uma ficção, nada mais que isso.

Este texto foi extraído do livro "A BÍBLIA SOB ESCRUTÍNIO", para adquiri-lo CLIQUE AQUI!

 

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Última modificação emQuarta, 21 Outubro 2015 20:11

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