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Perguntas que as Testemunhas de Jeová não conseguem responder

     01. A Sociedade Torre de Vigia (ou Corpo Governante) cometeu diversos erros ao longo dos anos quando se pronunciou sobre assuntos como vacinas, transplantes de órgãos, frações de sangue, serviço civil alternativo e datas para o fim do sistema de coisas (1874, 1914, 1915, 1918, 1920, 1925, 1941, 1975 e 2000). Além disso, mudou e voltou atrás em diversos ensinos e doutrinas como a ressurreição dos sodomitas, as autoridades superiores, quem está sob o novo pacto, o espírito santo guiar a organização, corpos de anciãos dirigindo as congregações, o uso do termo ministro ordenado, a geração que de modo algum passará, a época da separação das pessoas em ovelhas e cabritos, etc, etc, etc. Portanto, como pode tal organização dizer que é dirigida por Deus? Será que foi Deus que orientou a Torre de Vigia a fazer todas as declarações acima? Foi Deus que se enganou em suas orientações ou o Corpo Governante não é quem diz ser? Qual das duas opções você acha mais razoável? É possível um grupo que se diz representante de Deus, o único canal de orientação provido por Deus ser tão confuso, incoerente e contraditório? 

    

     02. Segundo o livro Clímax de Revelação páginas 195 e 247 a ONU foi identificada pela Sociedade como sendo a “imagem da fera” e a “fera cor de escarlate”. O livro profecia de Isaías volume 1 página 153 afirma que a ONU vai tentar aniquilar as Testemunhas de Jeová. Portanto, como explicar a parceria secreta de mais de 10 anos da Torre de Vigia com a ONU exposta pelo jornal britânico The Guardian num artigo de 08 de outubro de 2001? Como justificar a associação da Watchtower Bible and Tract of New York (principal entidade controladora dos interesses jurídicos das Testemunhas de Jeová) com o Department of Public Information (departamento de relações públicas da ONU)? Porque depois de exposto este relacionamento através de provas documentais a Torre de Vigia apressadamente pôs fim a uma parceria de mais de 10 anos?

    

     03. Porque durante os anos 60 a Torre de Vigia proibiu a aquisição da carteira de identidade do partido único no Malauí provocando perseguição, encarceramento, assassinatos e estupros de milhares de Testemunhas de Jeová (Livro Proclamadores página 674) enquanto que, na mesma época permitia no México que seus adeptos pagassem uma propina a funcionários públicos para receberem um documento militar (chamado “la cartilla”) onde constava falsamente que a pessoa já havia prestado o serviço militar e agora fazia parte da primeira reserva do exército? Não existe responsabilidade sobre a Sociedade pelo encarceramento e morte de muitos jovens em razão da proibição do serviço militar alternativo, liberado apenas em 1996?   

    

     04. Não existe culpa de sangue sobre a Sociedade pelas pessoas que morreram ou ficaram gravemente doentes por obedecerem às proibições das vacinas (1923-1952), dos transplantes de órgãos (1967-1980) e das 'frações menores de sangue', TODOS PERMITIDOS HOJE EM DIA? Porque é proibido receber glóbulos brancos (leucócitos) através de transfusão quando no colostro (aquele leite mais amarelado que se manifesta nos primeiros dias de aleitamento) contém mais glóbulos brancos do que uma mesma quantidade de sangue? Se receber leucócitos na veia é proibido, por que comê-los não é? Estaria Deus burlando a sua própria lei do sangue? Se ele nos proibisse de passar por um tratamento intravenoso à base de glóbulos brancos, criaria um sistema pelo qual os comemos literalmente, indo direto para o nosso sistema digestivo? Estaria a criação de Deus indo contra sua lei? Como você explica isso? Por que é permitido receber frações de sangue mas é proibido doar sangue? Então é permitido ser beneficiado do erro de alguém, visto que alguém doou o sangue?

    

     05. Conforme ensina a Sociedade em A Sentinela 01/09/1981 página 24 e The Watch Tower 15/07/1960 página 435, a "classe" do "Escravo Fiel" sempre existiu desde 33 EC. Então por que Russell, em 1870, não recorreu a esta classe ou organização, mas buscou o entendimento bíblico por iniciativa própria e criando seu próprio grupo (coisa que a Sociedade condena como apostasia)? Por que a Sociedade Torre de Vigia não respeitou o testamento do falecido Russell que previa uma comissão de cinco editores de A Sentinela (sendo Rutherford apenas um de um grupo de suplentes) vindo o controle e a autoria de QUASE TODOS os livros da Sociedade a estar nas mãos de um único homem, Rutherford? Não fere isso o arranjo de uma "classe" do "Escravo"?

    

    06. Como pôde Cristo (supostamente presente desde 1914) ter aprovado em 1919, após uma inspeção, apenas a Sociedade Torre de Vigia como "Escravo Fiel designado sobre seus bens", SE NA ÉPOCA DA INSPEÇÃO E POR ANOS DEPOIS a Sociedade estava envolvida com piramidologia, símbolos ocultistas, comemorações pagãs, uso da cruz, culto a personalidade, participação na I Guerra e no apoio aos aliados (Proclamadores, pp. 191, 200, 201)?

    

     07. Segundo a Sociedade Torre de Vigia, de 33 EC até 1935 EC (quando foi identificada a "Grande multidão"), TODOS os que se tornaram genuínos cristãos eram parte dos 144.000. Conforme A Sentinela 01/02/1981 página 24; 01/02/1982 página 15 e Despertai! 22/11/1988 página 19, grupos da Idade Média como os Valdenses, Lolardos, Anabatistas e Socinianos eram cristãos genuínos. Portanto, como é possível que durante quase 2000 anos só tenha existido 144.000 cristãos? Não diz o relato de Atos 2:41 que em apenas um dia 3000 foram batizados? Não indica a história que tem havido milhões de genuínos cristãos desde os tempos da igreja primitiva? Em que parte da Bíblia se diz que a soma total dos 144.000 de Revelação 7:4 tem de ser entendida como um número literal quando se reconhece que as parcelas de 12.000 desta soma são simbólicas? Por que o total é literal e as parcelas são simbólicas? Onde a Bíblia diz que isso tem de ser assim?

     

     08. Porque Deus matou o filho de Davi, o filho de Faraó e de todos os egípcios, os filhos dos habitantes de Sodoma e Gomorra, os filhos dos destruídos pelo dilúvio, os filhos das pessoas de todas as nações cananéias que foram dizimadas na conquista da terra prometida, quando a própria lei de Deus diz claramente: “os pais não devem ser mortos por causa dos filhos o os filhos não devem ser mortos por causa dos pais, cada um deve ser morto pelo seu próprio erro” (veja também 2ª Crônicas 25:4; Jeremias 31:29)?  Por que as crianças que são filhos dos "mundanos", serão destruídas no Armagedom, se elas nem desenvolveram sua personalidade? Podemos dizer com plena certeza que o filho seguirá o caminho dos pais, se esses forem iníquos? Porque nestes casos Deus está indo contra sua própria lei?

 

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Principais Ensinos e Declarações

Elas declaram ser profetas e porta-vozes de Deus

     "Assim como Jeová revelou suas verdades, por meio da congregação cristã do 1º século, assim também ele o faz atualmente, por meio da atual congregação cristã. Por meio desta agência, faz com que se cumpra o profetizar em escala intensificada e sem paralelo. Toda esta atividade não é feita por acaso. Jeová é quem está por trás dela.”

- A Sentinela de 15/12/1964, pág. 749

     "Lá no ano de 613 AEC, Jeová... designou Ezequiel... para ser seu profeta...O mesmo se deu com as testemunhas ungidas e dedicadas de Jeová..."

- As Nações Terão de Saber que Eu Sou Jeová, 1971, pág. 63

     "...Quem é este profeta?... Este 'profeta' não era um só homem, mas um grupo de homens e mulheres. Era o grupo pequeno dos seguidores das pisadas de Jesus Cristo, conhecidos naquele tempo como Estudantes Internacionais da Bíblia. Hoje são conhecidos como testemunhas cristãs de Jeová."

- A Sentinela de 1/10/1972, pág. 581

     "... só a organização de Jeová, em toda a terra, é dirigida pelo espírito santo...Ela é a única para qual a Palavra Sagrada de Deus, a Bíblia, não é um livro lacrado... a única organização que compreende as 'coisas profundas de Deus'!"

- A Sentinela de 1/1/1974, p. 18

     "...Ocupam uma posição similar a de Paulo e seus colaboradores, quando esse apóstolo falou sobre as maravilhosas verdades que Deus revela ao seu povo: 'É a nós que Deus tem revelado por intermédio de seu espírito'."

- A Sentinela de 1/12/1982, pág. 13

    “...o 'profeta' suscitado por Jeová não tem sido um único homem... mas uma classe. Os membros desta classe, iguais ao profeta-sacerdote Jeremias, estão plenamente dedicados a Jeová Deus...  existe apenas um restante desta classe do 'profeta' ainda na terra."

- A Sentinela de 1/5/1983, pág. 27

 

 

 

Elas previram o “fim do mundo” (“Armagedom”) para os anos de 1914, 1915, 1918, 1925, 1941, 1975 e 2000

    

     "Nós apresentamos prova de que... a 'batalha do grande dia do Deus Todo-Poderoso' (Rev. 16: 14)... terminará em 1914 A.D., com a vitória completa sobre o governo terrestre..."

- Estudos das Escrituras III, 1905, editorial 26 (em inglês)

     "...a completa destruição dos poderes... deste mundo maligno - político, financeiro, eclesiástico - por volta do fim do Tempo dos gentios, outubro de 1914."

- Estudos das Escrituras IV, 1897, págs. 604,622  (em inglês) 

     "A 'batalha do grande dia do Deus Todo-Poderoso' (Rev. 16: 14)... terminará em 1915 A.D., com a vitória completa sobre o governo terrestre...... consideramos uma  verdade estabelecida que o final dos reinos deste mundo, e o completo estabelecimento do reino de Deus, se cumprirão próximo do fim de 1915 A.D."

- Estudos das Escrituras III, 1915, editorial 101 e 99 (em inglês)

     "Parece conclusivo que as 'dores de aflição' da Sião Nominal estão fixadas na passagem de 1918... há razões para crer que os anjos caídos invadirão as mentes de muitos da igreja nominal, levando-os a uma conduta excessivamente tola e culminando com sua destruição às mãos de massas enfurecidas... Também, no ano de 1918, quando Deus destruir as igrejas e seus membros aos milhões..."

- O Mistério Consumado, 1917, págs. 128,129 e 485 (em inglês)

     "Seja como for, há evidência de que o estabelecimento do Reino na Palestina será provavelmente em 1925, dez anos mais tarde do que nós uma vez tínhamos calculado [isto é, 1915]."

- O Mistério Consumado, 1917, pág. 128 (em inglês)

     "Por conseguinte, nós podemos esperar confiantemente que 1925 marcará o retorno de Abraão, Isaque, Jacó e os profetas fiéis da antiguidade... um cálculo simples dos jubileus traz-nos a este importante fato."

- Milhões que Agora Vivem Nunca Morrerão, 1920, págs. 88-90 (em inglês)

    "... os meses que restam antes do Armagedom."

- A Sentinela de 15/9/1941, pág. 288  (em inglês)

     "Devemos presumir, à base deste estudo, que a batalha do Armagedom já terá acabado até o outono de 1975 e que o reinado milenar de Cristo, há muito aguardado, começará então? Possivelmente... A diferença talvez envolva apenas semanas, ou meses, não anos."

- A Sentinela de 15/2/1969, pág. 115

     "O apóstolo Paulo servia de ponta de lança na atividade missionária cristã. Ele também lançava o alicerce para uma obra que seria terminada em nosso século vinte."

 - A Sentinela de 1/1/1989, pág. 12; As nações terão de saber que eu sou Jeová, pág. 200

     Nota: Em 1929, as Testemunhas de Jeová construíram uma mansão em San Diego, Califórnia, EUA – chamada Beth-Sarim – destinada a servir de residência aos patriarcas bíblicos Abraão, Isaque e Jacó, cuja ressurreição havia sido prevista para 1925. Mas eles não apareceram para tomar posse. Quem residiu lá até 1942 – ano de sua morte – foi na verdade, o então Presidente da organização, J. F. Rutherford. Em 1939, foi construído um abrigo antiaéreo secreto em uma propriedade vizinha – chamada Beth-Shan. Pouco depois da II Guerra Mundial, a organização silenciosamente vendeu os dois imóveis. A publicação oficial das Testemunhas de Jeová, o livro Proclamadores, admite a existência de Beth-Sarim (pág. 76) – embora omita que a escritura da casa foi feita em nome dos patriarcas bíblicos – e silencia totalmente quanto à existência de Beth-Shan.  

 

Elas acreditam que SÓ os membros de sua religião têm esperança de sobreviver ao “fim do mundo” 

    

      "Nunca se esqueça de que apenas a organização de Deus é que sobreviverá ao fim deste sistema moribundo. Portanto, aja sabiamente e faça planos para a vida eterna por construir seu futuro em harmonia com a organização de Jeová." 

- A Sentinela, 15/2/1985, pág. 31

     "Apenas as Testemunhas de Jeová, os do restante ungido e os da Grande Multidão, qual organização unida sob a proteção do Organizador Supremo, têm esperança bíblica de sobreviver ao iminente fim deste sistema condenado, dominado por Satanás, o diabo."

 - A Sentinela de 1/9/1989, pág. 19  

 

 

Acreditam que Jesus Cristo NÃO é o mediador de TODA a humanidade, mas APENAS de uma classe de 144.000 pessoas (os “ungidos”), dos quais só restam hoje cerca de 9.000 no mundo inteiro entre as fileiras das Testemunhas de Jeová (os únicos que vão para o céu). Os demais, chamados de “Grande Multidão” (aqueles que esperam ter vida eterna na terra como seres de carne e osso) dependem da instituição, denominada “O Escravo Fiel e Discreto”, para se salvar

    

    “De modo que,  em  estrito sentido  bíblico,  Jesus  é  o  mediador  apenas  dos cristãos Ungidos”.          

    -  A Sentinela de 15/9/1979, pág. 32 – Perguntas dos Leitores

     “Conseqüentemente, 1 Timóteo 2:5, 6 não usa “mediador” no sentido amplo, comum em muitas línguas. Não está dizendo que Jesus é mediador entre Deus e toda a humanidade... As pessoas de todas as nações que têm a esperança de vida eterna na terra se beneficiam mesmo agora dos serviços de Jesus. Embora ele não seja seu Mediador legal...”

- A Sentinela de 15/8/1989, pág. 31 - Perguntas dos Leitores

     “Jesus Cristo não é o Mediador entre Jeová Deus e toda a humanidade. Ele é o Mediador entre seu Pai Celestial, Jeová Deus, e a nação do Israel espiritual, a qual é limitada a apenas 144.000 membros,...”

      - Segurança Mundial  sob o ‘Príncipe da Paz’ (1986), pág. 10 par. 16

     “Jeová e Cristo dirigem e corrigem o escravo [a organização] quando necessário, não a nós como indivíduos... Nós devemos seguir junto com a organização teocrática do Senhor e esperar por mais esclarecimento...”

- A Sentinela de 1/2/1952, págs. 79, 80 (em inglês)

     Nota: Para maiores informações sobre a equivocada doutrina das Testemunhas de Jeová de que os 144.000 descritos em Revelação (Apocalipse) 7:1-6 e 14:1-3 descrevem um número literal (na realidade trata-se de um número simbólico como todo o restante do livro) e de que a Grande Multidão simboliza uma classe terrestre (as evidências mostram que se trata de uma classe celestial) veja o Capítulo 18 deste livro na pág. 326 com o tema “Há cristãos que não são filhos de Deus?”.   

 

 

Acreditam que, em 1919, Jesus Cristo – entronizado desde 1914 – rejeitou TODAS   as outras   religiões e escolheu as Testemunhas de Jeová (então “Estudantes da Bíblia”) como o “único canal” de comunicação entre Deus e os homens

     

     “Os fatos históricos mostram que 1919 foi o ano em que o remanescente terrestre dos 144.000 herdeiros do Reino começaram a ser libertados  de Babilônia,  a  Grande. Naquele ano, a mensagem do  Reino  de   Deus estabelecido começou a ser pregada de casa em casa e divulgado pelas Testemunhas cristãs de Jeová de um modo destemido.     Esta pregação  do Reino como estabelecido em 1914 foi em cumprimento da profecia de Jesus em Mateus 24: 14.”

- Caiu Babilônia, a Grande! (1963), pág. 515 (em inglês)

    "Assim como as profecias bíblicas apontavam para o Messias, elas também nos encaminham ao unido corpo de cristãos ungidos das Testemunhas  de  Jeová, que serve atualmente qual escravo fiel e discreto. Todos os que  desejam entender a Bíblia devem reconhecer que a  'grandemente diversificada sabedoria de Deus' só pode ser conhecida através do  canal de comunicação de Jeová, o escravo fiel e discreto. - João 6:68"

 - A Sentinela de 01/10/1994, pág. 8

      "A menos que estejamos em contato com este canal de comunicação usado por Deus, não avançaremos na estrada da vida, não  importa o quanto leiamos a Bíblia."

 - A Sentinela de 01/08/1982, pág. 27

   

 

Ataques às Igrejas Católica e Protestante

   

      "As igrejas Católica, Ortodoxa e, mais tarde, as Protestantes...   tornaram-se parte de Babilônia a Grande, o império mundial da religião  falsa do diabo. - A Sentinela de 01/12/1991, pág. 13 

     “De modo que católicos mataram outros católicos com aprovação de seus líderes religiosos, e os protestantes fizeram o mesmo”.

 - Poderá Viver para Sempre no Paraíso na Terra (1982), pág. 28

     “Em vez de ajudar as pessoas na sua busca do Deus Verdadeiro, as numerosas seitas e denominações que surgiram em resultado do livre espírito da Reforma Protestante apenas as dirigiram a muitas diferentes direções. De fato, a diversidade e a confusão levaram muitos a questionar a própria existência de Deus.”     

- O Homem em Busca de Deus (1990), pág. 328  

 

 

Racismo

       

     “...É verdade que a raça branca exibe algumas qualidades de superioridade sobre qualquer outra...”

-  Zion’s Watch Tower de 15/7/1902, pág. 3043 (reimpressão)

     “Deus pode mudar a pele  etíope [negra] no seu devido tempo.”

-  Zion’s Watch Tower de 15/7/1904, pág. 3320 (reimpressão)

     "Eles [os negros] têm sido e são uma raça de serviçais... Não há no mundo um serviçal tão bom quanto um bom serviçal de cor, e a satisfação que ele obtém por prestar um fiel serviço é uma das mais puras satisfações que há no mundo."

A Idade de Ouro de 24/7/1929, pág. 207 (em inglês)

     "Deus... evidentemente tem sido um respeitador das raças, e tem abençoado especialmente certos ramos da raça Ariana na Europa e América... a raça branca tem sido mais abundantemente abençoada com a luz das boas novas  do que outras... a Igreja eleita provavelmente será composta principalmente da altamente favorecida raça branca.."

 A Bíblia versus a Teoria da Evolução (1898), págs. 30,31 (em inglês)

     "As raças negra e latina provavelmente sempre serão inclinadas à superstição."

Zion's Watch Tower de 1/4/1908, pág. 99

     "...as diversas raças da humanidade provavelmente terão seus interesses espirituais como Novas Criaturas melhor preservados por alguma medida de separação."

Estudos das Escrituras - Vol III (1904), pág. 490 (em inglês)

     "EDUCAÇÃO DE NEGROS EM CINCINNATI - Negros por toda a cidade vão a esta escola por opção. Eles sentem que podem ter melhores oportunidades permanecendo em seu próprio grupo, e estão provavelmente certos... sob as condições imperfeitas presentes, uma sábia segregação é provavelmente uma vantagem para todos os envolvidos."

A Idade de Ouro de 1/10/1919, pág. 8 (em inglês)

     "Hispânicos.. e outras raças retrógradas..."

A Idade de Ouro de 30/11/1927, pág. 141 (em inglês)

     "Cuidadosas observações em uma escola em Londres mostraram que as crianças davam suas melhores risadas, não com comédias 'pastelão', mas...olhando um mineiro negro comer um prato cheio."

A Idade de Ouro de 1928, pág. 684 (em inglês)

    Nota: Não seria correto afirmar que as Testemunhas de Jeová, hoje, constituem uma comunidade racista (pelo menos, não mais do que outras religiões ou culturas o são). Não obstante, não se pode deixar de perceber em seus artigos, tais como os acima transcritos, a representação do pensamento tradicional da época em que foram escritos, os quais não conseguem disfarçar, em seu teor, uma forma, por assim dizer, sutil e 'piedosa'  de racismo.

                                                      

 

Anti-semitismo

               

     "Seja sabido, de uma vez por todas, que aqueles homens gananciosos, sem consciência e egoístas que se chamam Judeus, e que controlam a maior parte das finanças do mundo e os negócios do mundo, nunca serão dirigentes desta nova terra. Deus não correria o risco com tais homens egoístas em uma posição tão importante."

A Idade de Ouro de 23/2/1927, pág. 343 (em inglês)

     “Os Judeus receberam mais atenção do que realmente mereciam.”

- Vindicação (1932), pág. 258 (em inglês)

     “...O Clero Protestante... com os rabis da organização religiosa judaica, seguem as  direções da organização Católica Romana... todos eles praticam a religião, da qual o diabo é o autor.”

- Inimigos (1937), pág. 212 (em inglês)

     “Atualmente, os assim chamados ‘Protestantes’ e o clero Yiddish [judeu] cooperam abertamente e são controlados pelas mãos da Hierarquia Católica Romana, como simplórios palermas...”

- Inimigos (1937), pág. 222 (em inglês)

     “Entre os instrumentos que ela (a Prostituta de Babilônia) usa, estão os homens ultra-gananciosos chamados ‘Judeus’ que só procuram o lucro pessoal.

- Inimigos (1937), pág. 281 (em inglês)  

     Nota: De modo semelhante às questões sobre racismo, não seria correto atribuir às Testemunhas de Jeová, hoje, uma filosofia anti-semita.  Por outro lado, também não  podem passar despercebidas certas oscilações de pensamento da entidade com relação ao povo judeu, em função da época. Por exemplo, nas publicações Conforto para os Judeus (1925) e Vida (1929), a organização defende, a exemplo de seu fundador,  idéias claramente sionistas. Subitamente, a partir da década de 30, época em que o anti-semitismo ganhou novo impulso mundial, é nítida a mudança no teor das publicações da Sociedade Torre de Vigia. Queira o leitor atentar para as datas em que as declarações acima foram feitas, coincidentes com a ascensão do nazi-fascismo na Europa.

 

 

Piramidologia 

 

   “...refere-se à Grande Pirâmide, cujas medidas confirmam o ensino bíblico de que 1878 marcou o começo da colheita...”

 - A Sentinela de 1/10/1917, pág. 6149 (em inglês)

     “...a Pirâmide do Egito, permanecendo como uma testemunha silenciosa e inanimada do Senhor...”

- A Sentinela de 15/5/1925, pág. 148 (em inglês)  

     "...quando se lançou a idéia segundo a qual a grande pirâmide é a 'Testemunha' de Jeová, cujo testemunho é de igual importância tanto para a verdade divina quanto para a ciência pura..."

Thy Kingdom Come (1897), cap. 10, pág. 320

     "...[a pirâmide] converteu-se em objeto de interesse crescente para cada cristão maduro no estudo da palavra de Deus; pois ela parece dar-nos de uma maneira notável, e de acordo com todos os profetas, um esquema do plano de Deus para o passado, presente e futuro."

Thy Kingdom Come (1897), cap. 10, pág. 314

     "Então Satanás colocou o seu conhecimento na pedra morta [a pirâmide], que pode ser chamada Bíblia de Satanás, e não testemunha pétrea de Deus."

- A Sentinela  de  15/11/1928, pág. 344 (em inglês)

     E mais: O livro Testemunhas de Jeová – Proclamadores do Reino de Deus (1993), pág. 201, admite a piramidologia como parte de seus ensinos primitivos, embora justifique isto por dizer que se tratava apenas de “um pensamento” do Pastor Russell, por cerca de 35 anos.  

    Nota: Em 1912 - durante uma de suas visitas à pirâmide de Gizé o pastor Russell proferiu o célebre discurso "Uma Testemunha de Deus - A Grande Pirâmide do Egito".  Uma evidência adicional  do envolvimento da religião com piramidologia existe até hoje, na forma de um enorme monumento de pedra, em forma de pirâmide, que fica ao lado do sepulcro de  Russell, no Cemitério Rosemont United (Pittsburgh, Pensilvânia, EUA). Recentemente no primeiro número de A Sentinela do ano 2000 (1/1/2000, páginas 9 e 10) a religião fez uma confissão mais pormenorizada de seu envolvimento com a piramidologia, embora não mencionasse que este envolvimento perdurou até 1928, durante a 2ª presidência da entidade e 9 anos após a suposta ‘aprovação’ do “Escravo Fiel e Discreto”, em 1919, por Jesus Cristo.  

 

 

Astrologia

     

       “Nós questionamos seriamente todas as declarações da astrologia; ainda assim, o que se segue, qualquer que seja a fonte das sugestões, até mesmo do próprio adversário, parece marcadamente verdadeiro quanto às nossas expectativas baseadas na Palavra do Senhor. Apenas por essa razão nós o publicamos como segue:  Saturno é o representante do grande poder motivador que tem dominado a mente humana até o presente momento... Júpiter, representando a lei, religião e a moralidade... Júpiter também deve transferir sua anterior lealdade ao ganancioso Saturno para o recentemente descoberto fator que defende a irmandade universal, isto é, Urano. Quando Urano e Júpiter se encontrarem no signo benigno de Aquário em 1914, a era há muito prometida terá tido um belo começo na obra de libertar os homens na busca de sua própria salvação e assegurará a realização final dos sonhos e ideais de todos os poetas e sagas da História... Urano está preparando o caminho para Netuno, o qual simboliza  o amor em sua forma mais elevada - o cumprimento da lei. Em 1903, Júpiter estará no signo de Peixes..."

 - A Sentinela de 1/5/1903, págs. 127-131 ou págs. 3183 na reimpressão (em inglês)    

     “Por esta razão tem sido feita a sugestão de que [a constelação de]  Plêiades pode representar a residência de Jeová, o lugar de onde ele governa o universo.”

- A Sentinela de 15/6/1915, pág. 5710 (em inglês)

     “Mas a grandeza em tamanho de outras estrelas ou planetas é pequena quando comparada com Plêiades em importância, porque Plêiades é o lugar do trono eterno de Deus....Tem sido sugerido, e com bastante peso, que uma das estrelas do grupo [‘Alcyone’]  é o local de habitação de Jeová.”

-  Reconciliação (1928), pág. 14 (em inglês)

      E mais: Zions WT de 15/05/1895, pág. 1814 e Criação (1927), pág. 94 (em inglês)

     Nota: O entendimento sobre a estrela “Alcyone” e a constelação de “Plêiades” perdurou por 62 anos, de 1891 a 1953, 35 anos após uma suposta inspeção de Cristo à organização e 34 anos após a dita “aprovação” dele à organização, em 1919. (A Sentinela de 15/04/89, página 7, parágrafo 9  e A Sentinela de 15/03/90, página 15, parágrafo 4)  

 

 

 

Comunicação com o mundo espiritual  

     

      “Uma verdade apresentada pelo próprio Satanás é tão verdadeira quanto uma verdade declarada por Deus.... Aceite a verdade onde quer que a encontre, não importa o que ela contradiga.”

- Zion’s Watch Tower, Julho de 1879, págs. 8 e 9

     “Este verso (Revelação 8:3) mostra que, embora o Pastor Russell tenha transposto a cortina [ou morrido], ele ainda está dirigindo cada aspecto do trabalho de colheita... Nós sustentamos que ele supervisiona... o trabalho a ser feito”

-  O Mistério Consumado (1917),  págs. 144, 256 (em inglês)

     “Então nosso querido Pastor, agora em glória [morto], está, sem dúvida alguma, manifestando profundo interesse no trabalho de colheita, e Deus lhe permite exercer uma forte influência em razão disso.”

- A Sentinela de 1/11/1917, pág. 6161 (reimpressão)

      Nota: O Pastor Russell faleceu em 1916 – cerca de um ano antes do lançamento destes dois últimos artigos. Além disso, a religião já fez uso – como fonte de apoio para a sua tradução do texto bíblico de João 1:1  – dos escritos de dois médiuns espíritas: Johannes Greber e John S. Thompson – Ajuda ao entendimento da Bíblia (1969), pág. 1245,  e Kingdom Interlinear Translation (1985), págs. 1139 e 1140  

    

 

Ocultismo

    

     Em 1914, o 'pastor' Russel lançou o célebre "Fotodrama da Criação" - um ambicioso projeto que combinava películas cinematográficas, slides e trilha sonora (Livro Proclamadores, págs. 56 a 60).  As imagens destacavam, entre outras coisas, os signos do zodíaco, a pirâmide e a esfinge do Egito, além disso, o emblema dos Estudantes da Bíblia era o símbolo da cruz e da coroa - o mesmo que apareceria na capa das publicações da Sociedade Torre de Vigia até os anos 30.

 

 

 

Proibição  e liberação das vacinas

   

       “A vacinação é uma violação direta do pacto eterno que Deus fez com Noé após o dilúvio”.

- A Idade de Ouro de 4/2/1931, pág. 293 (em inglês)

     “Pessoas ponderadas prefeririam ter varíola em vez de serem vacinadas, porque as vacinas propagam as sementes da sífilis, cancros, eczema, erisipelas, scrofula, tuberculose, até a lepra e muitas outras doenças nojentas. Portanto, a prática da vacinação é um crime, um ultraje, e um engano.”

- A Idade de Ouro de 1/5/1929, pág. 502 (em inglês)

      “As vacinas nunca salvaram uma vida humana. Não previnem a varíola”.

- A Idade de Ouro  de  4/2/1931, pág. 294 (em inglês)  

     "Usem seus direitos como cidadãos Americanos para abolir para sempre a prática demoníaca das vacinas."

- A Idade de Ouro  de  12/10/1921, pág. 17 (em inglês)  

     "Já se demonstrou conclusivamente que não existe tal coisa como a hidrofobia [raiva]!"

- A Idade de Ouro  de  1/1/1923, pág. 214 (em inglês)  

     "Nunca se provou que uma única doença seja devida a germes."

- A Idade de Ouro  de  16/1/1924, pág. 250 (em inglês)  

     "As doenças são causadas por fermentação e calor... não por germes." 

- A Idade de Ouro  de  25/8/1926, pág. 751 (em inglês)  

     "Evite inoculações de soro e vacinas, pois elas poluem a corrente sanguínea com seu pus nojento."

 - A Idade de Ouro  de  13/11/1929, pág. 106,107 (em inglês)  

     "A questão da vacinação é algo que o indivíduo deve encarar e decidir por si próprio."

- A Sentinela  de  15/12/1952, pág. 764 (em inglês)  

     "As vacinas parecem ter causado uma drástica redução das doenças.."

 - Despertai!  de  22/8/1965, pág. 20 (em inglês)  

     Nota: A revista A Idade de Ouro [Golden Age] – publicada de 1919 a 1937, pelas Testemunhas de Jeová – é considerada por certos autores como uma das fontes literárias mais prolíficas em aberrações científicas, ataques à medicina tradicional, endosso de  terapias folclóricas – às vezes fatais – e charlatanismo em assuntos médicos. Os trechos extraídos acima - provavelmente originários da mente do editor da revista, Clayton Woodworth - parecem confirmar esta opinião. 

 

 

 

Proibição e liberação dos transplantes de órgãos ou tecidos

      

      "Há alguma coisa na Bíblia contra se doar os olhos (após a morte) para serem transplantados numa pessoa viva? A questão de se colocar o corpo ou parte do corpo à disposição dos homens da ciência ou dos médicos, após a morte, para experiências científicas ou para transplantação em outros, não é vista com bons olhos por certos grupos religiosos. Entretanto, não parece haver nenhum princípio ou lei bíblica envolvida. É, portanto, algo que cada pessoa deve decidir por si mesma."

- A Sentinela de 1/2/1962, pág. Pág. 96

     "Será que há alguma objeção bíblica a que se doe o corpo para uso na pesquisa médica ou que se aceitem órgãos para transplante de tal fonte?... Aqueles que se submetem a tais operações vivem às custas da carne de outro humano. Isso é canibalesco...Jeová não deu permissão para os humanos tentarem perpetuar suas vidas por receberem canibalescamente em seus corpos a carne humana, quer mastigada quer na forma de órgãos inteiros ou partes do corpo, retirados de outros."

- A Sentinela de 1/6/1968, pág. 349,350

     "Embora milhares de transplantes de córnea sejam realizados cada ano...Há aqueles, como as testemunhas cristãs de Jeová, que consideram todos os transplantes entre humanos como canibalismo..."

- Despertai! de 8/12/1968, págs. 21,22 

    "...as Testemunhas de Jeová se opõem em sã consciência a todos os transplantes como sendo mutilação desnecessária de seus corpos criados por Jeová, e puro canibalismo."

- Despertai! de 8/12/1968, pág. 30

     "Deve a congregação tomar ação quando um cristão batizado aceita o transplante dum órgão humano, tal como a córnea ou um rim? No que se refere ao transplante de tecido ou osso humano para outro, é um caso de decisão conscienciosa de cada uma das Testemunhas de Jeová...É um assunto para decisão pessoal."

- A Sentinela de 1/9/1980, pág. 31

     Nota: Entre os anos de 1968 e 1980, vários casos de morte por recusa religiosa de transplante foram registrados entre os membros das Testemunhas de Jeová. Entre esses se encontra o caso de Arvid Moody, 68 anos de idade, em Massachusetts EUA, que por volta de Junho de 1978, faleceu após recusar um transplante de rim.

 

 

 

Liberação e proibição das transfusões de sangue

    

      “...um dos médicos na emergência principal doou um quarto de seu sangue para transfusão, e hoje a mulher vive e sorri alegremente...”

- Consolação (25/12/1940), pág. 19 (em inglês)

     “...se, no futuro, ele persistir em aceitar transfusões de sangue ou em doar sangue...ele mostra que não se arrependeu realmente...e deve ser cortado [da congregação] por ser desassociado.”

 - A Sentinela 1/12/1961, pág. 736

     Nota: A edição  de 15/06/2000 da revista A Sentinela (págs. 29-31) traz um curioso artigo, no qual agora se autoriza, por parte das Testemunhas, o uso de "frações" dos componentes "maiores" do sangue - plasma, hemáceas, leucócitos e plaquetas - os quais requerem doação, estocagem e processamento de grandes quantidades de sangue. Paradoxalmente, as Testemunhas continuam proibidas tanto de doar o sangue para a obtenção destas "frações" permitidas como de receber  tais componentes "maiores" integralmente.

                                                   

 

Proibição do voto

      

     “As Testemunhas são neutras nas guerras e lutas entre as nações, e mantêm-se livres de todo envolvimento político, nem mesmo votando...”

- A Sentinela 15/06/1978, pág. 14

     “...Testemunhas de Jeová mantêm-se separadas de toda política, nem mesmo votando...”

 - A Sentinela (WatchTower) 15/10/1973, pág. 627 (em inglês)

      “As Testemunhas... não tomam parte em votar nas eleições. Não transigem na sua posição de neutralidade em assuntos de política...; se forem às seções eleitorais e anularem o seu voto de algum modo, quer riscando-o quer anotando nele, por exemplo, as palavras 'Para o Reino de Deus' ”.

-  A Sentinela 15/11/1964, pág. 692

     Nota: a posição intransigente da religião proibindo a aquisição da carteira de identidade do partido único do governo do país africano Malauí resultou, durante as décadas de 60 e 70, em perseguição, assassinatos e estupros de milhares de Testemunhas de Jeová naquele país. (Livro Proclamadores, página 674) Curiosamente, durante o mesmo período, a religião autorizava seus adeptos no México – país onde se registrou como entidade ‘cultural’ e não religiosa – a pagar uma propina a funcionários públicos para receberem um documento militar (“cartilla”), no qual  constava falsamente que a pessoa já havia prestado o serviço militar e agora fazia parte da ‘primeira reserva’ do Exército.

 

 

 

Proibição e liberação do Serviço Militar Alternativo

    

       "Não deveria haver nada contra nossa consciência em entrar para o exército."

- A Sentinela (WatchTower) 15/4/1903, pág. 120 (em inglês)  

      “Um exame dos fatos históricos mostra que as Testemunhas de Jeová não somente recusaram vestir uniformes militares e pegar em armas, durante o último meio século, ou mais, mas que também recusaram fazer serviços não-combatentes ou aceitar outro serviço militar.”

- Unidos na Adoração do Único Deus Verdadeiro (1983), pág. 167  

      "Um irmão talvez ache agora que pode prestar conscienciosamente este serviço sem violar sua neutralidade cristã..."

- A Sentinela  de  15/8/1998, pág. 17 

      Nota:  por cerca de  50 anos, a religião proibia a seus adeptos não só o serviço militar, como também o serviço alternativo, até 1996, ano em que a posição anterior foi revista – somente para  aqueles países em que tal serviço é coordenado por alguma entidade civil não religiosa. Vale ressaltar que esta equivocada postura anterior representou, para muitas Testemunhas de Jeová no mundo inteiro, o encarceramento ou a morte. No Brasil, os jovens são instruídos a  solicitar às forças armadas um ATESTADO DE EXIMIÇÃO, o qual custa-lhes seus direitos políticos – cassação – o que, na prática, significa que o jovem não terá título de eleitor ou carteira de reservista, estando,  por este motivo, impedido de prestar concurso público ou de adquirir passaporte. Todavia, diversas Testemunhas de Jeová (inclusive 'anciãos') exercem hoje  cargos em repartições públicas e órgãos do governo, mesmo sendo eximidos, o que constitui uma violação clara das leis do país (passível de denúncia às autoridades), as quais só concedem este privilégio àqueles em pleno gozo de seus direitos políticos. Estranhamente, a Sociedade Torre de Vigia, com seu silêncio diante desta situação, tem se mostrado, no mínimo, conivente com a ilegalidade, a despeito de recomendar seus membros ao público como "os cidadãos mais leais... que não procuram esquivar-se de leis inconvenientes a seus próprios lucros" e de afirmar que as Testemunhas precisam se "comportar honestamente em todas as coisas" (livro Proclamadores, pág. 196, linha 7 e pág. 178, parágrafo 4). 

  

 

Violação da 'Neutralidade Cristã'

     

     "De acordo com a resolução do Congresso em 2 de Abril, e com a proclamação do Presidente dos Estados Unidos em 11 de Maio, sugere-se que o povo do Senhor em todos os lugares, faça de 30 de Maio um dia de oração e súplica. A Deus aprouve graciosamente fazer com que esta nação fosse formada e se desenvolvesse sob as mais favoráveis condições no mundo para a preservação da liberdade civil e religiosa."

- A Sentinela  de  1/6/1918, pág. 174 (em inglês) 

     "Um cristão, não desejando matar, talvez não tenha sido conscienciosamente capaz de comprar bônus [de guerra] do governo; mais tarde ele considera que grandes bênçãos recebeu sob este governo, e percebe que a nação está em apuros e encarando o perigo quanto a sua liberdade, e ele se sente conscienciosamente capaz de enviar algum dinheiro ao país, simplesmente do mesmo modo que ele  o enviaria  a um amigo em dificuldades."

- A Sentinela  de  1/6/1918, pág. 6268 (reimpressão em inglês)

     "Desde que a Casa de Betel foi fundada, num canto da sala de visita tem sido preservado um pequeno busto de Abraham Lincoln, com duas bandeiras americanas hasteadas sobre ele...Nada vemos de impróprio para com o dever de um cristão."

- A Sentinela  de  15/5/1917, pág. 150 (em inglês)  

     "Todos na América deveriam ter satisfação em mostrar a bandeira Americana..."

 - A Idade de Ouro  de  4/2/1931, pág. 293 (em inglês)  

     Nota: o lançamento dos dois primeiros artigos acima, em 1918, causou  uma imediata reação de repúdio entre muitos membros da Sociedade Torre de Vigia na época, ocasionando uma ruptura no movimento, da qual nasceu uma entidade de dissidentes - "Associação dos Estudantes da Bíblia Intransigentes" - os quais ficaram conhecidos como Standfasters. A própria Sociedade admite a quebra da 'neutralidade política' em seu livro Proclamadores, pág. 191, muito embora não transcreva o artigo sobre o "dia de oração e súplica" e tampouco mencione a questão da compra de bônus de guerra. Karl Klein, antigo membro do Corpo Governante, em seu depoimento pessoal sobre aquela época - Despertai! de 22/9/1987, pág. 17 -  admite que os dissidentes Standfasters  "viam esta questão com clareza", mas ao mesmo tempo, por uma questão de "lealdade aos co-Estudantes da Bíblia", decidiu "correr o risco" e permanecer ao lado da Sociedade, mesmo diante de tal violação clara do princípio da neutralidade.

 

 

Comprometimento com o Nazismo

    

      Em 25 de Junho 1933, na Alemanha, em pleno regime nazista – após ataques do governo à sede das Testemunhas de Jeová (‘Estudantes da Bíblia’), em Magdeburg – uma conferência de cerca de 5000 adeptos da religião foi secretamente realizada em Berlim. Nesta conferência foi redigida aquela que ficou conhecida como Declaração de Fatos (Erklärung) , bem como uma carta pessoal a Adolf Hitler, ambas contendo expressões de elogio aos ‘princípios’ do governo nazista e ataques ao povo judeu, aos Estados Unidos e à Grã-Bretanha. A própria Sociedade Torre de Vigia não nega a existência da ‘Declaração de Fatos’ . Uma transcrição da mesma foi publicada, em inglês,  no ano seguinte ao de sua escrita, no Anuário das Testemunhas de Jeová de 1934, com conteúdo idêntico aos originais em alemão.

     Ainda hoje, podem-se encontrar cópias de tais documentos no Museu do Holocausto (EUA). Cerca de 40 anos depois, no Anuário de 1974 (1975 em português, pág. 110), a religião admite que o documento provocou um sério mal estar em muitos dos presentes à reunião. De modo lacônico, o artigo diz que o conteúdo da declaração havia sido "amainado" - um eufemismo, se considerarmos o seu teor anti-semita e o apoio expresso aos princípios nazistas. Mesmo assim, a declaração foi distribuída aos milhões. O artigo prossegue acusando o representante da sede alemã na época (Paul Balzereit) de ser o responsável por uma alteração no conteúdo dos documentos, o que, na prática, corresponde a uma admissão de que seu conteúdo era, de fato, comprometedor. 

     Mais recentemente, na revista Despertai!  8/7/1998 pág. 10-14, a religião admite que a acusação era inverídica, absolve o acusado  e adota agora outra linha de defesa. Por mais incrível que pareça, eles tentam justificar o conteúdo destes dois documentos. Além disso, mais de cinco décadas de separação entre este embaraçoso documento e a vasta maioria  das Testemunhas de Jeová na atualidade certamente contribuem para o obscurecimento da gravidade de seu conteúdo na mente delas.

     Assim sendo, transcreverei  alguns dos trechos mais chocantes da Declaração de Fatos, precisamente aqueles que as publicações recentes das Testemunhas de Jeová normalmente omitem ou tentam justificar. Queira o leitor prestar atenção ao modo como a organização fala do povo judeu e de que forma ela se posiciona diante dos princípios do governo nazista:

     “O governo atual da Alemanha declarou-se enfaticamente contra os opressores do Grande  Comércio e em oposição à influência religiosa errada nos assuntos políticos da nação. Essa é exatamente a nossa posição: ...Longe de estarmos contra os princípios advogados pelo governo da Alemanha, nós apoiamos sinceramente esses princípios e sublinhamos que Jeová Deus através de Jesus Cristo causará a realização completa destes princípios...”

    “Somos falsamente acusados pelos nossos inimigos de termos recebido dos judeus apoio financeiro para o nosso trabalho. Nada está mais longe da verdade. Até este momento, nunca houve a mínima quantia de dinheiro contribuída para o nosso trabalho pelos judeus. Nós somos os seguidores fiéis  de Cristo Jesus e acreditamos Nele como sendo o Salvador do mundo, enquanto os judeus rejeitam inteiramente Jesus Cristo e negam enfaticamente que ele seja o Salvador do mundo enviado por Deus para o bem do homem. Por si só, isto devia ser prova suficiente em como nós não recebemos nenhum apoio dos judeus e portanto as acusações contra nós são maliciosamente falsas e só podiam vir de Satã, o nosso grande inimigo.”

     “Foram os homens de negócios Judeus do Império Anglo-Americano que estabeleceram e têm mantido os Grandes Negócios como um meio de explorar e oprimir os povos de muitas nações.... Este fato é tão manifesto na América que existe um provérbio a respeito da cidade de Nova Iorque que diz: “os Judeus são donos dela, os Católicos Irlandeses governam-na, e os Americanos pagam os impostos.”

    “[Os] Estudantes da Bíblia estão lutando pelos mesmos objetivos e ideais elevados e éticos que o Reich alemão nacional proclamou a respeito do relacionamento do Homem com Deus.... não existem pontos de vista conflitantes... mas antes, pelo contrário, no que diz respeito  aos  objetivos  puramente religiosos e apolíticos... estes estão em harmonia completa com... o Governo Nacional do Reich alemão.”  

     O livro The Nazi State  and the  New  Religions  [O  Estado  Nazista  e as Novas Religiões]  de  Christine King (1982),  diz  o  seguinte  sobre  a  ‘Declaração de Fatos’:

     “O documento é uma obra prima no gênero e digna das outras quatro seitas [os Cientistas Cristãos, os Santos dos Últimos Dias, os Adventistas do Sétimo Dia e os membros da Nova Igreja Apostólica], tendo todas elas apoiado, de uma maneira ou de outra, o estado Nazista. Tendo tentado assegurar às autoridades, pela Declaração de Fatos, que eram bons cidadãos, tendo interpretado e explicado os seus ensinos de um modo que, dadas as preocupações do regime, pretendia acalmar medos e oferecer uma certa medida de compromisso, as Testemunhas parecem ter esperado que daí em diante não teriam mais incômodos. Não tinham na declaração juntado aos Nazistas na condenação da Liga das Nações, não tinham descrito o Nacional Socialismo como estando contra as injustiças que os alemães tinham sofrido desde 1919 e não tinham terminado com um apelo pessoal ao ‘führer’?”    

     Veja uma fotocópia da “Declaração de fatos”:

     O episódio em questão é mencionado na própria publicação de História Oficial das Testemunhas de Jeová, o livro Proclamadores, pág. 693. Curiosamente, o livro nada diz sobre o conteúdo destes documentos, embora mostre na íntegra diversos outros que lhe são favoráveis como o documento de renúncia à fé, redigido pelos nazistas. Recentemente, a entidade tem estado empenhada em uma campanha de ‘saneamento’ deste embaraçoso capítulo de sua história, por meio de sua literatura e de um site na Internet, intitulado “triângulos roxos”, onde descreve a bravura com que muitos Estudantes da Bíblia enfrentaram o confinamento nos campos de concentração.

     Embora, de fato, a maioria dos fiéis na Alemanha, durante a II Guerra Mundial  (de modo semelhante aos membros de diversas outras religiões, cujo suplício o livro Proclamadores não menciona) tenham individualmente resistido à opressão nazista, também é fato que o líder da entidade à época, J. F. Rutherford (2º presidente e autor de diversos livros da religião) empreendeu, por meio da Declaração de Fatos e de uma carta pessoal, uma tentativa de compromisso com o führer Adolf Hitler. Todavia, diversas  publicações das Testemunhas de Jeová fazem pesadas críticas às lideranças de outras denominações religiosas por terem tentado a mesma coisa.

     Por exemplo, a revista A Sentinela de 1/1/1989 (pág. 21, par. 13) acusa outras religiões de terem se comprometido “de forma lamentável” com o nazismo. Porém o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová  prefere esquecer tais fatos com relação à sua própria organização. Repare o leitor o que afirma um trecho da referida revista:

     “As religiões principais, tanto católica como protestante, comprometeram-se de forma lamentável em prestar honra ao nazismo, idolatrando o führer, saudando sua bandeira suástica e abençoando suas tropas enquanto estas partiam para massacrar seus irmãos de fé de nações vizinhas. Os assim chamados ‘cristãos’ de todos os credos – exceto as Testemunhas de Jeová – foram apanhados em fervor patriótico.”

     Em vista dos documentos aqui apresentados, fica evidente que os líderes das Testemunhas de Jeová na época tentaram de todas as formas algum tipo de comprometimento com os nazistas. Obviamente, depois que todas estas tentativas de aproximação fracassaram e o nazismo começou a atacá-los, os dirigentes da Sociedade Torre de Vigia não tiveram alternativa, a não ser se voltar contra o nazismo. Apesar do Corpo Governante tentar de todas as formas ocultar ou minimizar estes fatos, provas documentais como “Declaração dos Fatos” e a carta pessoal a Hitler deixam isso bem claro.

 

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A QUESTÃO DO SANGUE

abstinência de carne bovina caracteriza o hinduísmo; a abstinência de carne suína caracteriza o judaísmo; a abstinência de transfusões de sangue ou derivados caracteriza as Testemunhas de Jeová. Se há, por assim dizer, uma 'marca registrada', uma coisa pela qual as Testemunhas de Jeová sejam mundialmente conhecidas e, ao mesmo tempo, impopulares, esta é a sua exótica política contra o uso medicinal do sangue. Todavia, nem sempre foi assim. Na verdade, a maioria esmagadora das Testemunhas de Jeová em nossos dias não faz a mínima idéia de qual era a postura de sua 'mãe espiritual' (a Sociedade Torre de Vigia) até o início dos anos 40. A primeira menção sobre o tema foi feita ainda no século 19, porém com uma visão totalmente diferente daquela sustentada pelas testemunhas de Jeová nos últimos 60 anos. Trata-se do comentário feito pelo fundador da religião (C. T. Russell) na publicação Torre de Vigia de Sião de 15 de novembro de 1892, no qual, analisando a decisão do concílio apostólico de Atos, capítulo 15, ele diz:

     "[Tiago] sugeriu, mais adiante, escrever-lhes para simplesmente absterem-se das impurezas dos ídolos (versículo 29), das coisas estranguladas e do sangue (como se, por comerem tais coisas, eles estivessem se tornando pedras de tropeço para seus irmãos judeus, vide 1 Cor. 8:4-13) e da fornicação."

      Vemos aqui que o entendimento do 'pastor' Russell  era semelhante ao da quase totalidade dos teólogos no que se refere a esta passagem bíblica. Cerca de quinze anos depois, em 1909, ele confirmaria este mesmo entendimento. Na página 117 de A Sentinela de 15 de Abril daquele ano, Russell esclarecia que os cristãos não viam a decisão quanto à 'abster-se de coisas sacrificadas a ídolos e de sangue' como sendo "uma lei", nem isto fazia deles "cristãos", mas servia meramente como um meio de manter a harmonia com os judeus recém-convertidos ao cristianismo. Russell morreu pensando assim. Seus sucessores trataram de mudar este entendimento, com conseqüências dramáticas até a atualidade.

     A primeira interpretação desastrada do capítulo 15 de Atos e 6 de Gênesis surgiu em 1923, com um inflamado artigo na revista A Idade de Ouro, deflagrando a campanha contra a vacinação pública, a qual duraria cerca de 30 anos. Por essa época, aplicava-se o entendimento dos textos bíblicos como se referindo exclusivamente aos animais. Isto colocava a prática da vacinação na mira dos 'teólogos' da Sociedade Torre de Vigia, ao passo que passava por alto as transfusões de sangue humano. Na verdade, a organização elogiou a doação de sangue por duas vezes, uma em 1925 e outra em 1940. Veja o que diz estes artigos:

O Sr.B.W Tibble, de Londres, Inglaterra, em quarenta e cinco ocasiões diferentes doou um litro de sangue, para transfusão aos pacientes do Hospital de Londres. A taxa normal é de cinco guincas, 25 dólares, mas Tibble sempre se recusou a receber qualquer pagamento por seus serviços. Ele foi honrado com a Ordem do rei. (A Idade de Ouro, 29 de Julho de 1925, pág. 683).

     “...um dos médicos na emergência principal doou um quartode seu sangue para transfusão, e hoje a mulher vive e sorri alegremente...” (Consolação, 25 de Dezembro de 1940, pág. 19)                     

     Infelizmente, este entendimento do assunto duraria menos de cinco anos à frente, pois um artigo de A Sentinela de 1 de Julho de 1945, em inglês,  declararia:                                                                                                        “...[o uso do sangue] era para ser feito sobre o altar sagrado... e não por tomar tal sangue diretamente dentro do corpo humano... As transfusões de sangue [são] pagãs [e] desonram a Deus.”  

      Foi o começo de tudo. Após a malfadada campanha contra as vacinas, a Sociedade Torre de Vigia centrava agora seu ataque no uso medicinal do sangue. Todavia, da mesma forma que no episódio das vacinas, a doutrina não tardaria a esbarrar em sérios obstáculos científicos e  lógicos, produzindo uma das mais incríveis seqüências de  idas e vindas, com conceitos sendo constantemente reformulados. Um breve exame histórico do desenvolvimento desta doutrina vai nos permitir contemplar o seu naufrágio na areia movediça da inconsistência e da contradição. Vejamos:

    1925 - A edição de A Idade de Ouro de 29 de Julho, pág. 683, tece comentários elogiosos aos doadores habituais de sangue (conforme transcrição acima). Praticamente nenhuma Testemunha de Jeová hoje sabe disso.

     1940 - A edição de Consolação de 25 de Dezembro classifica (conforme transcrição acima) como 'heróico' o ato de um doador de sangue que salvara a vida de uma senhora. Outro fato ignorado pelas Testemunhas de Jeová da atualidade.

     1945 - A edição de A Sentinela de 1 de Julho condena (conforme transcrição acima) o uso medicinal de sangue e derivados. Ironicamente, a versão holandesa da revista Consolação, apenas dois meses mais tarde, diria:

      "Deus jamais emitiu decretos proibindo o uso de medicamentos, injeções ou transfusões de sangue. Tudo não passa de invenções de pessoas que, como os fariseus, desprezam o amor e a misericórdia de Deus." - Consolação de Setembro de 1945, pág. 29 (em holandês)

     Este desconcertante episódio serve para demonstrar quão súbita foi à mudança doutrinal. O responsável (ou responsáveis) pela revista na Holanda talvez não estivesse a par da repentina reviravolta e simplesmente manteve a política anterior. Provavelmente, houve uma falha de comunicação. Em todo caso, fica óbvio que ele próprio era incapaz, mediante a leitura da Bíblia, de chegar à mesma conclusão que a Sociedade chegara. A partir do relato, vê-se que ele teve um entendimento totalmente oposto.

     1954  - A edição de 8 de Agosto de Despertai!, pág. 24 (em inglês), condena - pela primeira vez - o uso de "frações" do sangue, tais como a gamaglobulina:

      “...a proteína sanguínea ou 'fração' conhecida como gamaglobulina para uma injeção...aqueles interessados no aspecto bíblico notarão que o fato de ser ela obtida do sangue integral  coloca-a na mesma categoria das transfusões de sangue”   

     1956 - A Sociedade Torre de Vigia confirma o banimento às "frações" sanguíneas, novamente em Despertai!, edição de 8 de Setembro, pág. 20 (em inglês):

      “Enquanto este médico defende o uso de certas 'frações' sanguíneas, particularmente albumina, tal uso está sob proibição bíblica."

     1958 - Subitamente, a organização volta atrás e afirma que o uso de 'frações' do sangue e as transfusões não estão na mesma categoria. A Sentinela de 15 de Setembro, pág. 575 (em inglês), diz:

      “Devemos considerar a injeção de soro... e frações do sangue como a gamaglobulina na corrente sanguínea... como o mesmo que ingerir sangue ou tomar transfusões de sangue ou plasma? Não, não parece necessário que os ponhamos na mesma categoria, embora o tenhamos feito algum tempo atrás.”   

     Assim, a Sociedade Torre de Vigia libera, pela primeira vez, o que havia proibido. Por outro lado, um comentário na seção "Perguntas dos Leitores" de A Sentinela de 1 de Agosto deste ano, pág. 478 (em inglês), considera uma eventual aceitação de transfusão como sinal de "imaturidade", não provendo base para disciplina severa por parte da congregação.

     1959 - A organização fecha gradualmente o cerco em direção a uma postura mais radical, condenando até a transfusão autóloga, ou seja, aquela em que a pessoa recebe parte de seu próprio sangue, recolhido antes da cirurgia:

      “Conseqüentemente, a remoção do sangue de alguém, armazenando-o e depois devolvendo-o à mesma pessoa constituiria uma violação dos princípios bíblicos...se o sangue for armazenado, mesmo por um breve período de tempo, isto seria uma violação das escrituras..." - A Sentinela 15/10/1959, pág. 640 (em inglês)

     1961 - Sai o famigerado artigo no qual a Sociedade Torre de Vigia define sangue transfundido como alimento. Para isso, recorre ao comentário do médico Jean Baptiste Denys:

       "Não faz diferença que o sangue seja introduzido no corpo através das veias em vez de através da boca. Também não tem peso a alegação de alguns, de que não é o mesmo que alimentação intravenosa. O fato é que isso nutre ou sustém a vida do corpo. Em harmonia com isto, está uma declaração no livro Hemorrhage and Transfusion [Hemorragia e Transfusão], de George W. Crile, A.M., M.D., que cita uma carta de Denys, médico francês e investigador pioneiro no campo das transfusões. Diz: 'Ao realizar uma transfusão, isso nada mais é do que nutrir através de um caminho mais curto do que o normal -- ou seja, colocar nas veias sangue já feito em vez de tomar alimento que só depois de várias mudanças se transforma em sangue.'" - A Sentinela 15/9/1961, pág. 558 (em inglês)

     O que o artigo acima deixa de mencionar é que a declaração evocada como apoio para a doutrina do sangue foi emitida, não na década de 60, mas no século dezessete, sendo, portanto totalmente obsoleta.

     Nesse mesmo ano, a edição de A Sentinela  de 1 de Dezembro, pág. 736 (em português), finalmente estabelece a punição para todo aquele que persistir em aceitar uma transfusão de sangue ou doar sangue:

      “...se, no futuro, ele persistir em aceitar transfusões de sangue ou em doar sangue...ele mostra que não se arrependeu realmente...e deve ser cortado [da congregação] por ser desassociado.”

     Fica claro, pois, que se trata de uma determinação organizacional. Ainda nesse ano, um artigo em A Sentinela (15/9) afirma que impulsos homicidas e suicidas são transmitidos pelo sangue. Também, neste ano, a Sociedade Torre de Vigia  muda novamente sua postura com relação às 'frações' de sangue, condenando-as pela segunda vez

      “É errado suster a vida mediante infusões de sangue, plasma, glóbulos vermelhos ou várias frações de sangue? Sim! ...Quer seja sangue integral quer fração do sangue, ... quer seja administrado por transfusão ou por injeção, a lei divina se aplica... [Deus] requer respeito pela santidade do sangue ” - A Sentinela 15/3/1962, pág. 174 (em português)

     1963 - A Sociedade Torre de Vigia continua a reiterar a proibição do uso medicinal do sangue, seja em transfusões seja em quaisquer derivados:

      “...Transfusões de sangue ... são uma prática antibíblica... não apenas sangue integral, mas qualquer coisa que se derive do sangue..." - A Sentinela 15/7/1963, pág. 443 (em português)

     1964 - A organização muda novamente e considera "questão de consciência" o uso de 'frações' sanguíneas (A Sentinela de 15/11, em inglês):

      “...Assim, deixamos para a consciência de cada indivíduo determinar se deve se submeter a uma inoculação com soro contendo frações de sangue com o propósito de produzir anticorpos para combater doenças..."

     Aqui, as 'frações' de sangue são liberadas pela segunda vez. Também, neste ano, um artigo de A Sentinela (15/11) autoriza médicos adeptos da religião a realizarem transfusões de sangue em pacientes não-adeptos.

     1965 - Durante este ano, a postura favorável ao uso das 'frações' de sangue é mantida:

      “...Já que [os soros] não envolvem o uso de sangue como alimento para nutrir o corpo, algo que a Bíblia condena diretamente, seu uso é matéria para a consciência de cada um." - Despertai! de 22/8/1965, pág. 18 (em inglês)

     1966 - Pouco antes da proibição dos transplantes de órgãos - classificados como 'canibalismo' - a Sociedade Torre de Vigia ensaia a primeira comparação com respeito ao sangue:

      “É alguém a quem repugna desobedecer a lei de Deus? Então, tomar sangue lhe é tão desprezível como o canibalismo." - A Sentinela de 1/1/1967, págs. 16,17 (em português)

     1967 - Os pais são incentivados pela organização a não permitirem que seus filhos pequenos recebam uma transfusão de sangue:

      “De modo correto, [os pais] tentam evitar que seus filhos recebam sangue de outrem em seus corpos." - A Sentinela de 1/12/1967, pág. 724 (em inglês)

     1972 - A Sociedade Torre de Vigia relembra a proibição das transfusões autólogas:

      “A Bíblia mostra que o sangue não deve ser retirado do corpo, armazenado e posteriormente reutilizado." - Despertai!  de 8/4/1972, págs. 29,30 (em inglês)

     1974 - A postura com respeito às 'frações' de sangue - tomada dez anos antes - é mantida:

      “Que dizer, então do uso dum soro que contenha apenas uma fração minúscula do sangue e que seja empregado para prover uma defesa auxiliar contra uma infecção, não sendo empregado para realizar a função sustentadora da vida, normalmente desempenhada pelo sangue? Cremos que isto deve ser decidido pela consciência de cada cristão." - A Sentinela de 15/10/1974, pág. 640 (em português)

     1975 - A Sociedade Torre de Vigia - por incrível que pareça - muda novamente sua postura concernente ao uso de 'frações' do sangue, desta vez com respeito ao tratamento de pacientes hemofílicos:

      “Certos fatores plasmáticos de coagulação acham-se agora em amplo uso... os que recebem tal tratamento enfrentam outro perigo mortífero... quase 40% dos 113 hemofílicos apresentaram casos de hepatite... todos receberam sangue integral, plasma ou derivados sanguíneos que continham os fatores. Naturalmente, os cristãos não utilizam este tratamento potencialmente perigoso, acatando a ordem bíblica de 'abster-se de sangue'." - Despertai! de 22/10/1975, pág. 29 (em português)

     Do artigo acima se subentende que o uso de 'frações' (derivados) de sangue foi proibido - pela terceira vez! Esta política duraria - pelo menos oficialmente - cerca de 3 anos e não há meios de saber quantas vidas se perderam neste período por conta deste entendimento. No início dos anos 70 recomendava-se às Testemunhas de Jeová que aceitassem o uso de 'frações' de sangue apenas uma única vez. 

     Todavia, ainda no ano de 1975, por volta do mês de junho, a organização instruía aqueles que buscavam contato telefônico a tomarem pessoalmente a decisão de aceitar ou não o uso de fatores de coagulação. Há razões para crer que tal postura não foi publicada neste mesmo ano porque representaria uma mudança muito brusca, suscitando contestações e - quem sabe - ações judiciais. Àqueles que enviaram correspondência, a nova postura extra-oficial foi transmitida. Infelizmente, não havia como contatar de volta aqueles que apenas telefonaram. Pode-se apenas conjeturar sobre o que  teria acontecido a estes pacientes até o ano de 1978, quando, finalmente, a mudança doutrinal foi anunciada.

     1977 - A Sociedade reconhece que a transfusão de sangue não passa de um transplante de órgão -  proibido desde 1967:

      “...uma pessoa poderia rejeitar sangue simplesmente porque se trata essencialmente de um transplante de órgão, o qual, na melhor das hipóteses, é apenas parcialmente compatível com seu próprio sangue." - As Testemunhas de Jeová e a Questão do Sangue, pág. 41 (em inglês)

     Três anos mais tarde, os transplantes seriam liberados. A analogia, porém, foi esquecida, as transfusões continuavam proibidas.

     1978 - O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová reverte totalmente seu entendimento de três anos atrás. Repare o leitor o que diz este artigo:

      “...Que dizer se aceitarem injeções de soro para combater doenças tais como... difteria, tétano, hepatite por vírus, hidrofobia, hemofilia e incompatibilidade de RH? Isto parece cair numa zona de questões limítrofes... alguns cristãos acham que aceitar uma pequena quantidade de derivado de sangue para tal fim não é... desrespeito pela lei de Deus... adotamos atitude de que esta questão precisa ser resolvida por cada pessoa, por decisão pessoal." - A Sentinela de 15/10/1974, pág. 640 (em português)

     Não se pode concluir outra coisa, a não ser que o uso de 'frações' de sangue foi liberado - pela terceira vez! Vemos também que a Sociedade Torre de Vigia introduz um novo conceito de ' zona limítrofe', uma área de indefinição sobre o que é certo ou errado.

     1980 - A Sociedade Torre de Vigia cria as Comissões de Ligação aos Hospitais (COLIH). O objetivo de tais comissões é fazer contato com médicos que aceitem fazer cirurgias sem sangue ou derivados e 'assessorar' as Testemunhas em sua postura contrária ao tratamento tradicional, assegurando que este não seja administrado a  um paciente inconsciente, mesmo em risco de morte.

     1982 - O Corpo Governante introduz, embora de maneira não explícita, a teoria dos componentes "maiores" e "menores" do sangue:

      “Embora estes versículos não estejam expressos em termos médicos, as Testemunhas de Jeová consideram que proíbem a administração de transfusões de sangue total, de GV's e de plasma, bem como de GB's e de plaquetas sob forma concentrada. Entretanto, o entendimento religioso das Testemunhas não proíbe de modo absoluto o uso de componentes como albumina, as imunoglobulinas e os preparados anti-hemofílicos; cabe a cada pessoa decidir individualmente se deve aceitar esses." - Despertai! de 22/12/1982, pág. 22 (em português)

     1983 - A condenação à transfusão autóloga permanece, mas a circulação sanguínea extracorpórea é autorizada:

      “...o sangue é sagrado... quando retirado do corpo de uma criatura, deve ser devolvido a Deus por derramá-lo no seu escabelo, a terra... Portanto, como poderia ser correto armazenar seu sangue (mesmo que apenas por um período relativamente curto) e depois repô-lo no seu corpo? [E se] seu sangue [fosse] canalizado através de um equipamento fora do seu corpo e então reposto imediatamente? Alguns acharam que podem permitir isso com a consciência limpa desde que o equipamento  seja aprontado com líquido que não é sangue. Consideraram a aparelhagem externa como extensão de seu sistema circulatório..." - Unidos na Adoração do Único Deus Verdadeiro (1983), pág. 157 (em português)

     1984 - O transplante de medula óssea é assunto de decisão pessoal. Entretanto, o fato de a medula transplantada poder conter certa medida de sangue pode desencorajar a Testemunha de Jeová a recebê-la, mesmo diante do risco envolvido em tal decisão, a saber, a  morte iminente. É o que diz A Sentinela de 15 de Novembro, págs. 31 e 32. Também neste ano, o Corpo Governante recua de seu equívoco científico de 1971, não mais afirmando que o coração exerce qualquer papel referente às emoções e à cognição.

     1985 - A Sentinela 15 de Agosto págs. 22 e 23, num artigo sobre a contaminação de milhares de receptores de sangue ou derivados com o vírus da AIDS evoca este fato em apoio de sua doutrina. Entretanto, isso seria o mesmo que promover a doutrina judaica de não comer carne de porco ou a doutrina hindu de não comer carne de gado bovino sob a alegação de que tais medidas evitariam doenças como a teníase ("solitária"). É interessante lembrar que as razões apontadas pela liderança das Testemunhas de Jeová para a rejeição do uso medicinal do sangue são de natureza teológica, não médica. O uso de certos fármacos (penicilina e anestésicos, por exemplo) também envolve riscos à saúde (choque anafilático é um deles) e nem por isso as Testemunhas de Jeová fazem objeção bíblica ao seu uso.

     1988 - A revista Despertai! de 8 de Outubro, pág. 11, relatou que cerca de 12 mil americanos hemofílicos haviam sido contaminados com AIDS, sugerindo que a doutrina das Testemunhas de Jeová punha seus adeptos a salvo de tal risco. Entretanto, o artigo omitiu o fato de que, em muitos casos, a via de contaminação foi, não a transfusão de sangue integral, mas a administração de fatores de coagulação, agora permitidos pela religião. Em outras palavras, a doutrina não estava provendo proteção alguma aos hemofílicos. Matérias como essa acabam por desviar convenientemente a atenção do leitor do fundo religioso da doutrina. A Sociedade Torre de Vigia faz clara seleção de evidência, omitindo os casos em que o tratamento salvou ou prolongou vidas e concentrando-se naqueles em que houve complicações. Essa estratégia tem um objetivo, incutir na mente da Testemunha de Jeová a idéia de que os fracassos e riscos da terapia constituem evidência adicional de que a doutrina de sua organização é divinamente inspirada.

     1989 - Mais uma vez a organização condena as transfusões autólogas. No entanto, autoriza a hemodiluição:

      “...esse uso de sangue autólogo. As Testemunhas de Jeová, porém, não aceitam este procedimento. Há muito entendemos que tal sangue estocado não é mais parte da pessoa. Foi totalmente removido dela, assim, esse sangue deve ser descartado em harmonia com a lei de Deus... Em um processo diferente, sangue autólogo pode ser desviado de um paciente para um dispositivo de hemodiálise (rim artificial) ou máquina cárdio-pulmonar. O sangue flui através de um tubo para o órgão artificial... e retorna ao sistema circulatório... Alguns cristãos têm permitido isso desde que a máquina não seja preparada com sangue... Um cristão, tendo que decidir quanto a se permite que seu seja desviado por algum dispositivo externo, deve ponderar, não primariamente sobre se uma breve interrupção do fluxo poderia ocorrer, mas se ele conscienciosamente consideraria o sangue desviado como parte de seu sistema circulatório... E quanto à hemodiluição?... alguns cristãos têm aceito, outros têm recusado. Novamente, cada indivíduo deve decidir..." - A Sentinela de 1/3/1989, págs. 30,31 (em português)

     Neste mesmo ano,  pareceu haver uma notável falta de comunicação dentro dos prédios da organização, pois o autor da brochura Como Pode o Sangue Salvar sua Vida?, pág. 27 (em inglês), escreveu:

      “Técnicas para coleta intraoperativa ou hemodiluição que envolve armazenamento de sangue são objetáveis para eles."

     Das duas uma,  o autor do artigo não estava a par da postura da organização ou a Sociedade Torre de Vigia havia mudado de opinião mais uma vez. As duas opções são ruins. A primeira revelaria falta de harmonia e responsabilidade para com o bem-estar dos milhões de leitores e a segunda, falta de senso quanto ao que é certo ou errado. O que torna mais contraditório o argumento desta brochura é o fato de a própria organização reconhecer - em A Sentinela de 15/6/1985 - que, para obter os fatores de coagulação para o tratamento de um único paciente hemofílico, é necessária a contribuição de mais de 2500 doadores, cujo sangue é "estocado" e processado. No entanto, tal tratamento foi liberado aos adeptos hemofílicos desde 1974, enquanto que a mesmíssima estocagem para transfusão autóloga (ou hemodiluição) era condenada. Por que  aceitar a estocagem de milhares de doadores não-adeptos, ao passo que os beneficiados não podem retribuir o gesto? Por que o uso do sangue de uns é tolerado e o de outros, condenado?

     1990 - A Sociedade Torre de Vigia dá agora uma roupagem mais 'científica' à sua doutrina dos componentes "maiores" e "menores" do sangue:

      “Os Componentes Principais do Sangue...   Plasma: cerca de 55% do sangue. 92% dele é água; o resto é composto de proteínas complexas, tais como globulinas, fibrinogênio e albumina. Plaquetas: aproximadamente 0,17% do sangue. Glóbulos brancos: cerca de 0,1%. Glóbulos vermelhos: cerca de 45%." - Despertai! de 22/10/1990, pág. 4 (em inglês)

     Até hoje, não se sabe exatamente qual é a importância de tal 'tecnicismo' no tocante à doutrina cristã. Tampouco se sabe em que parte das Escrituras o Corpo Governante apoiou-se para legislar tão minuciosamente sobre o que pode ou não ser considerado "maior" ou "menor", "principal" ou "secundário"  no tecido sanguíneo. Caso uma Testemunha de Jeová seja indagada sobre estas questões, dificilmente saberá como embasá-las biblicamente. Ainda em 1990, um artigo publicado em A Sentinela de 1 de Junho, na seção "Perguntas dos Leitores", autoriza o uso de 'diminutas' frações do plasma de um doador, tais como anticorpos, fator RH, fatores de coagulação para hemofílicos e albumina. Note o leitor que todos estes são parte de um componente anteriormente definido como "principal" (plasma) e, portanto, proibido. Exatamente onde a Bíblia proíbe o uso do todo, mas admite o uso de uma 'fração' do todo? É admissível a um cristão o usufruto de uma 'fração diminuta' do pecado?  Também, no artigo acima mencionado, salienta-se que a "transferência natural de algumas frações protéicas do plasma para o sistema sanguíneo de outrem [no caso, da mãe para o feto] pode ser outro fator a ser considerado quando o cristão tem de decidir se aceitará imunoglobulina, albumina ou injeções similares de frações do plasma". Mais uma vez a organização esbarrou na ciência, pois por volta desta mesma época, constatou-se que os componentes "maiores" - proibidos pela religião - também são passados, em pequenas quantidades, tanto da  mãe para o feto quanto no sentido contrário. Estaria Deus violando seu próprio decreto?

     1991 - Os pais são novamente exortados a incutir repetidamente na mente dos filhos, mesmo muito pequenos, a resolução contrária ao uso de transfusões de sangue. Os jovens devem ser treinados quanto ao que dizer na presença de um juiz:

      “Se você tem crianças, está certo de que elas aceitam e podem explicar a postura bíblica sobre transfusões?...Pais conscientes revisarão estas matérias com seus filhos, quer sejam muito jovens quer quase adultos. Os pais podem promover sessões práticas na qual cada jovem encara questões que poderiam ser colocadas por um juiz ou um diretor de hospital” - A Sentinela de 15/6/1991, pág. 18 (em inglês)

     1992 - Um artigo em A Sentinela de 15 de Outubro afirma que não há necessidade de preocupações com "minúcias" sobre a forma do abate de um animal para consumo, tais como o tempo decorrido entre a morte e a sangria, se todo o sangue fora drenado, qual o vaso sanguíneo cortado, se resta muito sangue ainda na carcaça e coisas assim. Um grande contraste se considerarmos todas as 'minúcias' com que o Corpo Governante tem legislado sobre o uso de 'frações' deste ou daquele tipo, o uso único de fatores de coagulação,  o sangue ter sido ou não estocado momentaneamente fora do corpo, se o fluxo sanguíneo foi ou não interrompido e outras coisas do gênero.

     1994  -  Sai o famoso exemplar de Despertai! repleto de fotos de jovens que morreram recusando o tratamento medicinal com sangue ou derivados "maiores". Se por um lado, o artigo aparentemente buscava fazer uma propaganda favorável à postura das Testemunhas de Jeová, por outro lado, talvez tenha sido o maior equívoco editorial já lançado pelas gráficas de Brooklyn. A matéria repercutiu mal perante o público em geral e até entre algumas Testemunhas de Jeová. O artigo diz:

      “Em tempos passados, milhares de jovens morreram por colocarem Deus em primeiro lugar. Eles ainda o estão fazendo, só que hoje o drama se desenrola em hospitais e tribunais, com as transfusões de sangue sob discussão."

     Vemos aqui , pela primeira vez, a Sociedade Torre de Vigia admitindo que literalmente milhares de pacientes jovens estavam  morrendo como resultado de sua postura relativa à doutrina  do sangue. O artigo em momento algum reconhece que as transfusões de sangue poderiam ter salvado a vida de grande parte destes jovens, que morreram de forma estúpida e desnecessária.  

 

Despertai!  22/05/1994 - O "tiro saiu pela culatra"...

    

     1995 - Um artigo em A Sentinela de 1 de Agosto menciona algumas Testemunhas de Jeová como não objetando a uma técnica chamada reinfusão sanguínea e, sobre esta questão, o artigo reporta-se à matéria publicada na edição de 1 de Março de 1989.

     1996 - Em junho deste ano, três representantes da Sociedade Torre de Vigia compareceram a um fórum de bioética em uma universidade espanhola. Os profissionais médicos e os advogados presentes perguntaram: "Se um paciente Testemunha de Jeová vacilasse e aceitasse uma transfusão, seria rejeitado pela sua comunidade?"

     A resposta se encontra em A Sentinela de 15 de Fevereiro de 1997, pág. 20:

      “Isto iria depender da situação, porque a desobediência à lei de Deus, com certeza,  é um assunto sério a ser examinado pelos anciãos da congregação."

     A resposta acima apenas confirma aquilo que já se sabia, apesar de oficialmente negado pela instituição, a saber, a doutrina do sangue é uma postura organizacional e não simplesmente um entendimento pessoal. Do contrário, a resposta, logicamente, teria de ser: "não, a pessoa não será rejeitada por seus irmãos em hipótese alguma".

     1997 -  O JAMA [Jornal da Associação Americana de Medicina] - edição de 5 de Fevereiro, Vol. 277, No. 5, p. 425 - menciona a "morte desnecessária de milhares de pessoas" em razão da doutrina das Testemunhas de Jeová. É de longa data o empenho dos profissionais médicos desta entidade no sentido de expor as crendices e charlatanismos endossados pela Sociedade Torre de Vigia neste século.

     Os últimos anos têm assistido a um gradual abrandamento no tom dos artigos publicados pelas Testemunhas de Jeová - especialmente no tocante a questões delicadas como a  doutrina do sangue. Além disso, perante  organismos internacionais, os dirigentes da organização têm se mostrado  cada vez mais reticentes e ambíguos ao abordarem sua política organizacional neste e noutros  pontos polêmicos. Tem-se buscado aprimorar a imagem da entidade perante o público e isto exigirá, talvez, revisões doutrinais em um futuro próximo. Há razões para crer que tais mudanças já começaram a acontecer.

     A tendência é que com o tempo mais e mais frações passem a ser permitidas, até que fique insustentável esta absurda separação entre frações primarias e frações secundarias. Depois que todas as frações do sangue forem permitidas abre-se o caminho para que com  o tempo o próprio sangue também passe a ser permitido. Obviamente todo este processo deve ocorrer de maneira lenta e gradual para não assustar e chocar o grande numero de testemunhas que durante as ultimas décadas perderam parentes e amigos devido a esta absurda interpretação bíblica. Imagine quantos processos a Sociedade Torre de Vigia não enfrentaria se abruptamente mudasse sua doutrina do sangue.   

 

 As Testemunhas de Jeová Realmente Abstêm-se de Sangue?

 

     “As Testemunhas de Jeová prezam a vida e a consideram uma dádiva de Deus. Em harmonia com Atos 15:29, elas se abstêm de sangue.” –  Anuário das Testemunhas de Jeová, 2002, pág. 111

     A declaração acima, apesar de paradoxal, representa o conceito comum que as pessoas têm sobre as Testemunhas de Jeová. Não há dúvida que há na Bíblia uma lei sobre a abstenção de sangue, mas o que dizer dos critérios que a Sociedade Torre de Vigia dos EUA – entidade dirigente das Testemunhas de Jeová  – adota sobre essa lei?

 

 

Componentes do sangue que são permitidos

 

A Torre de Vigia não costuma usar termos tais como “proibimos isso ou aquilo”. Ela diz que essa ou aquela decisão depende da consciência do cristão. Mas isso é uma falsa colocação, pois se ela proibir alguma coisa, não importa se sua consciência permita ou não tal coisa (nem que a Sociedade acabe adquirindo a mesma opinião que você já tem! Há casos assim). Ou seja, quem manda mesmo é a Torre, e não a consciência de seus adeptos. Portanto, quando se usam, neste texto, expressões tais como “a Sociedade proibia”, ou “A Torre de Vigia não permite”, elas estão em perfeito acordo com a realidade.

    

     Como talvez saiba, ao contrário de antigamente, hoje a Torre de Vigia permite que seus adeptos aceitem certas frações derivadas de sangue. Essas frações são obtidas através de um processo chamado fracionamento. Alguns derivados do plasma são:

· Concentrado de Fator VIII
· Concentrado de Fator IX
· Complexo de Anti-Inibição de Coagulação (AICC)
· Albumina
· Imunoglobulinas
· Concentrado de Anti-Trombina III
· Concentrado de Inibição Alfa 1-Proteinase

     Às vezes argumenta-se que os componentes do sangue permitidos pela Sociedade Torre de Vigia dos EUA são frações do sangue muito pequenas, e por isso podem ser usadas. Mas tome como exemplo a albumina, que é um componente do sangue permitido pela Sociedade. Sabe a porcentagem que ela ocupa no sangue? Cerca de 2,2%. Esta porcentagem é muito maior do que a porcentagem dos componentes que a Sociedade proíbe, como os glóbulos brancos (1%) e as plaquetas (0,17%). Qual é a lógica que permite 2,2%, mas proíbe 0,17%? Então, fica claro que o que determina esse critério de proibição não é o fato de uma substância sangüínea ser ou não ser bem pequena.

A Sociedade ensina que os componentes do sangue permitidos estão apenas limitados àqueles que passam através da barreira da placenta durante a gravidez e que, baseando-se nisto, uma Testemunha pode aceitá-los de consciência tranqüila. Raciocina-se que se Jeová permite que estes componentes sangüíneos passem da mãe para o feto, é sinal de que Ele não está violando a sua própria lei. Isso até que tem lógica, mas o problema é que a ciência médica descobriu que praticamente todos os componentes do sangue passam através da barreira da placenta. Existem também vacinas e remédios que são feitos à base de sangue, que a Sociedade também permite. Sabe como se obtém os remédios à base de sangue permitidos? Observe:

     · Albumina: para se obter 600 gramas de albumina é preciso uns 45 litros de sangue que não foi ‘derramado no solo’, conforme a orientação bíblica, mas sim armazenado (a albumina é usada para tratar queimaduras graves).

    · Imunoglobulina: é dessa substância que se faz à vacina contra a cólera e muitas Testemunhas de Jeová já foram vacinadas com ela. Para se fabricar uma única injeção é preciso 3 litros de sangue. Este sangue, mais uma vez, é doado, armazenado e processado para produzir os produtos sangüíneos aprovados pela Sociedade Torre de Vigia dos EUA.

    · Crioprecipitado Anti-Hemofílico AHF: é a porção do plasma que é rica em certos fatores coagulantes, incluindo Fator VIII, fibrinogênio, Fator von Willebrand e Fator XIII. O AHF é removido do plasma através de congelação e depois descongelação lenta do plasma. (É usado para prevenir ou controlar hemorragias em indivíduos com hemofilia tipo A, doença de von Willebrand, e anomalias hereditárias na coagulação).

     · Preparados hemofílicos (Fator VIII e IX): o tratamento eficaz para um hemofílico requer uma substância chamada Fator VIII, que ajuda na coagulação e é feita a partir do sangue retirado de muitos indivíduos. São necessários cerca de 9000 Kg de sangue total para produzir uma única dose de 0,1 grama de Fator VIII. Uma pessoa que sofra de hemofilia grave necessita normalmente de várias doses por ano.

     Além dos itens descritos acima, há outros remédios derivados do sangue que são permitidos pela Torre de Vigia como a imunoglobulina da hepatite B [HBIG] (usada para tratar e prevenir a hepatite B), imunoglobulina do tétano (injeção contra o tétano), imunoglobulina da Raiva [RIG] (usada para tratar e prevenir raiva), imunoglobulina RhO [RhoGam] (administrada a mães Rh negativo para prevenir doença hemolítica do recém nascido), anti-trombina III (usada para tratar deficiência na anti-trombina III), e imunoglobulina humana [HIG] (usada para tratar e prevenir, dentre outras coisas, a hepatite tipo A). Aliás, a tendência em anos recentes tem sido permitir mais e mais produtos sanguíneos.

     É lógico pensar que aceitar essas substâncias significa aceitar parcialmente o sangue. Talvez seja por isso que o órgão dirigente das Testemunhas de Jeová vez por outra use a expressão “o mau uso do sangue” (A Sentinela, 15/06/91, p. 15, § 9). Ora, se o sangue for derramado no solo, ele não terá nenhuma utilidade; não se fará nenhum uso dele. Então, quer dizer que o sangue pode ter outra finalidade, além de ser ‘derramado no solo’? Pelo visto, fabricar remédios a partir do sangue é um ‘bom uso dele’, contrariando a opinião oficial da Torre de Vigia de que todo sangue que sai do corpo deve ser ‘derramado no solo’, conforme a Lei mosaica.

     Diante deste quadro, não parece ser possível explicar porque a Sociedade Torre de Vigia permite que uma Testemunha aceite estes componentes, enquanto é uma violação da lei de Deus aceitar outros, como plasma, plaquetas, glóbulos vermelhos e glóbulos brancos.

 

Relato de um suposto tratamento sem sangue

    

     Uma evidência de que a Torre aprova o uso parcial do sangue, se encontra na Despertai! de 22 de outubro de 1992, p. 12, no artigo “Tratamento sem sangue salvou-me da morte iminente”, onde relata o caso de um membro da sede mundial das Testemunhas de Jeová. Ele conta que um médico da Filial da Torre de Vigia lhe administrou eritropoietina (EPO) que, segundo o narrador, é “um hormônio sintético que estimula a medula óssea a produzir glóbulos vermelhos em ritmo acelerado” (p. 13, § 1). Sabe como se obtém a EPO? A descrição “hormônio sintético” deixa a impressão de que não se trata de algo relacionado com o sangue, talvez por isso muitas Testemunhas de Jeová a utilizem. No entanto, note o que a própria Torre de Vigia diz sobre a EPO:

     “Atualmente, usa-se também uma pequena quantidade de albumina em injeções do hormônio sintético EPO (eritropoetina).” – A Sentinela, 1º de outubro de 1994. p. 31.

     O estimulante de glóbulos vermelhos EPO mencionado pela Torre de Vigia é feito com uso da proteína sangüínea conhecida como albumina, que é sintetizada a partir de sangue que não foi ‘derramado no solo’, e sim coletado, armazenado e processado. Portanto, o título correto da Despertai! citada acima deveria ser: “Tratamento quase sem sangue salvou-me da morte iminente”. Quando a EPO começou a ser utilizada, todos os laboratórios que fabricavam a eritropoietina sintética usavam albumina na sua composição. Hoje em dia, porém, certo laboratório afirma que está produzindo EPO sem o uso de albumina (atualmente é o mais utilizado por Testemunhas de Jeová aqui no Brasil). É digno de nota que a imprensa internacional divulgou recentemente que a EPO desse laboratório está causando certos problemas imunológicos em alguns pacientes, versão que foi rechaçada tanto pelo laboratório como por alguns profissionais de saúde. Não há informação se o suposto problema tem haver com a ausência de albumina. Portanto, não se pode afirmar aqui que as duas coisas tenham relação entre si, nem que o problema realmente existe. De qualquer maneira o ponto importante a salientar é que a Torre aprova o uso da EPO, mesmo ela sendo feita com albumina.

Da mesma forma que alguns medicamentos hoje disponíveis de fatores VIII e IX (preparados hemofílicos), a EPO é produzida através de técnicas de engenharia genética. Na primeira menção que a Sociedade fez da EPO ela não deixou claro a sua forma de obtenção, apenas disse: “Recentemente foi aprovada, para uso limitado, uma promissora droga medicamentosa chamada eritropoietina recombinante. Ela acelera a produção de hemácias pelo próprio corpo, ajudando efetivamente a pessoa a produzir mais do seu próprio sangue.” (Despertai!, 22/10/1990, p. 13 - Brochura Como Pode o Sangue Salvar sua Vida, p. 15).

O termo recombinante se origina da idéia de recombinar geneticamente o DNA de certas substâncias gerando proteínas que permitam alcançar os mesmos efeitos que suas correspondentes naturais. Em outras palavras, é reproduzir artificialmente o que natureza produz. No que se refere à albumina sintética (EPO), a albumina humana é utilizada para estabilizar o preparado. O motivo de haver grande interesse em se fabricar proteínas sintéticas é que as correspondentes naturais não podem ser produzidas em grande quantidade, pois elas representam uma pequena fração do sangue total. Em virtude dessas técnicas de engenharia genética, muitos sonham que um dia poderá haver um sangue totalmente artificial.

Ainda sobre os preparados hemofílicos, a Associação da Torre de Vigia (denominação brasileira) sabe muito bem que para obtê-los é preciso muito sangue, e mesmo assim os aprova:

     “Cada lote de Fator VIII é fabricado do plasma coletado de até 2.500 doadores de sangue.” (A Sentinela, 1.º de outubro de 1985, p. 23. Veja também a Despertai!, 8 de outubro de 1988, p. 11).

     Muitas pessoas esclarecidas que não são Testemunhas de Jeová, mas que conhecem o ensino das Testemunhas, têm chamado a atenção da Torre de Vigia sobre a posição embaraçosa dela de permitir o uso separado de todos os componentes que foram aqui citados, mas proibi-los juntos. Se pegarmos todos esses componentes, juntá-los e adicionarmos água, o resultado será o plasma, que é proibido pela Torre. É como disse certo comentarista, especializado no ensino das Testemunhas de Jeová: “Faria sentido proibir alguém de comer um sanduíche, mas permitir que ele o abra e coma todas as partes separadamente?” (carne, alface, maionese etc.). Em qual base se determina esses critérios de proibição? Certamente, não é na Bíblia, pois ela não aborda tais assuntos.

 

 

O aleitamento materno e os leucócitos

     Como já foi dito, a Torre de Vigia simplesmente se baseia num conceito já ultrapassado de que só alguns componentes do sangue passam pela barreira da placenta e chegam até o bebê que está na barriga de uma gestante. Porém, está comprovado que quase todos os componentes do sangue da mãe passam pela placenta e chegam até o bebê. Entretanto, mais contundente do que a barreira da placenta, é o mecanismo de aleitamento materno.

Pouco depois do nascimento de uma criança, aproximadamente no segundo dia depois do parto, uma substância chamada colostro, um soro branco, é produzido pela mãe e transmitido ao bebê através da amamentação. Segundo os especialistas “a secreção do colostro continua durante cerca de uma semana, com uma conversão gradual para leite maduro”. Dentro do colostro e no leite humano há anticorpos, imunoglobulinas e outros elementos que são transmitidos à criança para que ela desenvolva resistência à doenças, tais como componentes de complemento, macrófagos, linfócitos, lactoferrina, lactoperoxidase, dentre outros. Macrófagos, também chamados de monócitos, são células do sistema reticuloendotelial que se movem no corpo e ingerem, por fagocitose, microorganismos, células mortas e outros resíduos. Os monócitos são os mesmos glóbulos brancos encontrados no sangue, também chamados de leucócitos. Existem outros tipos de glóbulos brancos como os eosinófilos, linfósitos, neutrófilos e basófilos. Resumindo, dentro do leite humano há substâncias sangüíneas, substâncias estas terminantemente proibidas pela Torre de Vigia! – Conceitos de Biologia, de Amabis e Martho, Ed. Moderna, Vol. 2, pp. 287, 292; Pelos caminhos do Sangue, de Rogério Nigro, Ed. Atual, p. 34.

O leite materno contém mais leucócitos do que se pode encontrar em uma quantidade equivalente de sangue. O sangue contém cerca de 4.000 a 11.000 leucócitos por milímetro cúbico, enquanto o leite de uma mãe pode conter, durante os primeiros meses de aleitamento, até 50.000 leucócitos por milímetro cúbico. Isto é de cinco a doze vezes mais do que a quantidade presente no sangue! Lembre-se que a Torre não aprova o uso de leucócitos. No aleitamento não está envolvida uma transfusão de sangue. A criança é alimentada por via oral com leite que contém substâncias sangüíneas. Ao se recorrer ao tipo de analogia que a própria Torre de Vigia faz, nota-se que Deus não está infringindo a sua própria lei por ter feito o homem um mamífero, que suga para dentro do estômago, nos primeiros meses de vida, alguns elementos do sangue materno junto com o leite, tais como os leucócitos. Portanto, se comer leucócitos não é pecado, por que transfundi-lo seria?

Consegue perceber que um padrão de entendimento está começando a surgir? Por que Jeová criou o corpo humano de uma forma que aparentemente faz com que sua lei não seja respeitada? Ou seria porque a Torre de Vigia não está entendendo essa lei corretamente? Segundo ela, uma transfusão é o mesmo que comer sangue, e é essa equivalência que gerou a proibição:

 “Abster-se do sangue na nutrição do corpo é tão necessário como abster-se da fornicação e da idolatria.”- A Sentinela, 15/03/86, p. 18.

     “Toda vez que se menciona a proibição de sangue nas escrituras é com relação a tomá-lo como alimento, e assim, é como nutriente que nos interessa a sua proibição.”– A Sentinela, 1/02/59, pp. 95 e 96 (Vide CD-ROM Biblioteca da Torre de Vigia, em inglês).

     Por volta de 1960, a Torre de Vigia aprendeu que o sangue transfundido não é digerido, mas é retido no corpo de forma muito semelhante a um órgão transplantado. (Comer sangue envolve o sistema digestivo, e recebê-lo por transfusão envolve o sistema cardiovascular). Mesmo com esse entendimento, a proibição das transfusões foi mantida, mas foram sendo permitidos cada vez mais produtos sangüíneos, se tomados separadamente. Se receber sangue é um pecado semelhante à fornicação, como é que a Torre admite a pessoa receber apenas uma parte desse sangue? Já ouviu falar que só um pouco de fornicação é aceitável? Não existe meio termo, ou algo é pecado ou não é. Admitir o uso parcial do sangue entra em conflito com a suposta posição adotada de “se abster de sangue”.

     Descrevendo de forma simplificada, para conseguir obter nutrição a partir do sangue, seria necessário comê-lo e digeri-lo, para poder decompô-lo e usá-lo como alimento. Não há benefício nutritivo de uma transfusão de sangue. A Torre de Vigia tem tentado contornar este fato argumentando que receber uma transfusão não é diferente de ser alimentado intravenosamente com dextrose ou álcool. Tais comparações são questionáveis e tratam o assunto de forma superficial, pois se analisarmos profundamente, o açúcar e o álcool podem realmente ser usados pelo corpo como alimento, sem digestão. O sangue transfundido não pode ser usado pelo corpo como alimento, da mesma forma que um coração transplantado não pode ser usado como alimento.

     O sangue na realidade é um órgão, só que em forma liquida. Portanto a uma grande diferença de se comer o sangue (aonde ele vai ser digerido pelo sistema digestivo e realmente nutrir o corpo) e de se fazer uma transfusão de sangue (aonde o sangue vai para o sistema circulatório e passa a fazer parte do corpo, seus glóbulos vermelhos vão levar oxigênio a todas as partes do corpo, seus glóbulos brancos passam a defender o corpo de vírus e bactérias nocivas, etc,etc...). A transfusão de sangue e semelhante a um transplante de rins por exemplo, a uma diferença muito grande de se pegar um rim, cortá-lo em bifes passar numa chapa e comê-lo, de você pegar o órgão e transplantá-lo para seu corpo (neste caso ele vai fazer parte do seu corpo, vai trabalhar filtrando o seu sangue, ele não vai ser digerido pelo seu corpo).

     Considere dois pacientes que estão incapacitados de comer, e dão entrada num hospital. Se durante vários dias, a um deles for aplicadas transfusões de sangue e ao outro for dada alimentação pela veia, qual deles estará se alimentando e sobreviverá? Logicamente, o que receber a transfusão de sangue não viverá; morrerá de fome! É por isso que os médicos não aplicam transfusões de sangue para tratar a desnutrição. A transfusão é administrada para substituir algo que o corpo perdeu, geralmente os glóbulos vermelhos que são necessários para transportar oxigênio e manter a pessoa viva.

     Como transfusão de sangue não é o equivalente a comer sangue, perde-se o “elo crítico” que seria necessário para apoiar biblicamente a posição da Sociedade Torre de Vigia a respeito do sangue.

 

A dúvida que afetou a vida de pessoas

    

     “Embora este médico argumente a favor do uso de certas frações do sangue, particularmente albumina, estas também estão sob a proibição das Escrituras.” (Despertai!, 8 de setembro de 1956, p. 20 [em inglês]).

     Estão sob “proibição das Escrituras” ou proibição da Torre de Vigia? Como pode perceber, o que a Torre hoje permite [albumina], antes ela proibia. Embora se trate de um assunto que envolva vidas humanas, ela evidenciou, ao longo dos anos, que não tem certeza dos detalhes restritivos que ensina. Mesmo assim ela gosta de brincar de ser Deus afetando a vida dos outros. As frações sangüíneas eram proibidas, depois foram permitidas, depois foram proibidas novamente, e depois foram outra vez permitidas. Observe abaixo o constante vai e vem da Torre de Vigia no seu conceito sobre as frações do sangue:

 

     1) Despertai!, 1º de fevereiro de 1956, p. 20: frações proibidas.
     2)  A Sentinela, 1º de fevereiro de 1959, pp. 95 e 96: frações permitidas.
     3)  A Sentinela, 15 de março de 1962, p. 174, §§ 16 e 19: frações proibidas.
     4) A Sentinela, 15 de julho de 1963, p. 443: frações proibidas.
     5) A Sentinela, 15 de outubro de 1974, p. 640: frações permitidas.
     6)    A Sentinela, 1º de dezembro de 1978, p. 31:  frações permitidas.

     Se você pesquisar as publicações antigas da Sociedade Torre de Vigia, notará que posições vacilantes também foram adotadas sobre os transplantes de órgãos e as vacinas. Considerava-se transplante de órgãos o mesmo que canibalismo, por causa da mesma linha de raciocínio sobre as transfusões de sangue, ou seja, colocar o sangue de uma pessoa em outra é o mesmo que se alimentar. (Qualquer notícia que a Sociedade encontrasse desfavorável ao transplante, publicava sem reservas). Disse a Torre de Vigia:

     “Notar que a posição das testemunhas cristãs de Jeová — de que tais transplantes são efetivamente uma forma de canibalismo — provaram ser uma salvaguarda” (Despertai!, 08/01/73, p. 28).

     Como sempre, a transferência de responsabilidade é o expediente padrão adotado. Uma opinião da Torre de Vigia é descrita como a opinião das Testemunhas de Jeová em geral. Faz-se ainda a arriscada afirmação que se abster de um transplante é sempre benéfico. Depois que a Torre aprendeu que essa analogia (transplante-canibalismo) não é correta, abandonou essa posição, mas somente no que tange aos transplantes de órgãos sólidos, e embora o sangue também seja um órgão (líquido), a Sociedade o excluiu do novo critério adotado. É a velha prática de dois pesos e duas medidas. No que diz respeito às vacinas, o rigor era ainda maior. Nas publicações mais antigas, entre 1920 e 1945, que não estão disponíveis no CD-ROM da Torre de Vigia, adotava-se uma posição altamente rigorosa sobre as vacinas, identificando-as com o Diabo e seus agentes. Publicações mais recentes também proibiam o uso de vacinas derivadas do sangue, que hoje são permitidas. – A Idade de Ouro, 1/05/29, p. 502; A Sentinela, 15/12/52; Despertai!, 08/04/70, p. 4; A Sentinela, 01/06/70, p. 347; A Sentinela, 01/03/76, p. 135.

 

Mais um exemplo revelador

     Considere outra circunstância, a que envolve a bomba coração-pulmão. Num artigo da Sentinela, a Torre de Vigia proibiu explicitamente o recolhimento de sangue antes da operação para uma transfusão autóloga (ou seja, usando o próprio sangue do paciente), mas permitiu outro procedimento:

    “Num processo um tanto diferente, o sangue autólogo pode ser desviado do paciente para um aparelho de hemodiálise (rim artificial), ou para uma bomba coração-pulmão. O sangue flui para fora através de um tubo até o órgão artificial que o bombeia e filtra (ou oxigena) e daí volta para o sistema circulatório do paciente. Alguns cristãos têm permitido isso, caso o equipamento não seja escorvado (posto a funcionar) com sangue estocado. Eles têm encarado a tubulação externa como uma extensão de seu sistema circulatório, de modo que o sangue possa passar através de um órgão artificial. Têm considerado o sangue nesse circuito fechado como ainda parte deles, não necessitando ser ‘derramado’.” (A Sentinela, 1/03/1989, p. 30). – note o velho jogo de palavras: “Alguns cristãos têm permitido isso...”, quando, na verdade, o que o escritor quer dizer é: “A Torre de Vigia tem permitido...”.

     Não é difícil perceber que a lógica que permite a bomba coração-pulmão também permite que se armazene o próprio sangue, se fosse permitido estabelecer esse critério de julgamento. Afinal, o único argumento contra o armazenamento do sangue vem de uma regra na Lei de Moisés que dizia que o sangue de um animal que era morto fosse derramado no chão. (Deuteronômio 12:24). Conforme diz o mesmo comentarista mencionado anteriormente, “seguir a regra demonstrava que a pessoa entendia que a vida do animal provinha de Deus”. Portanto, é evidente que tais raciocínios baseados na Lei mosaica não se aplicam às transfusões de sangue autólogo, porque ninguém morre quando é feita uma transfusão deste tipo. O sangue é devolvido à pessoa da qual foi retirado.

     As Escrituras são muito claras em afirmar que não se deve ir “além das coisas que estão escritas” (1 Coríntios 4:6). Todo esse conjunto de normas sobre qual fração sangüínea pode ou não pode ser usada, fere claramente o princípio citado por Paulo. A Bíblia não contempla esses detalhes, e ninguém está autorizado a fazer acréscimos às Escrituras. Além do mais, a proibição das Escrituras refere-se a usar o sangue como alimento, em respeito à vida que foi tirada para suprir a necessidade de nutrição de quem a tirou. Nenhum grupo de homens está autorizado a estabelecer regras proibitivas que só Deus seria capaz de fornecê-las, nem de afirmar presunçosamente que tais regras são orientações que descem da parte de Deus, pois Dele só desce “toda boa dádiva e todo presente perfeito”, e não orientações vacilantes que podem prejudicar a vida das pessoas. Cada cristão, mesmo um líder religioso, deve seguir o seguinte princípio: “Não pense mais de si mesmo do que é necessário pensar”. – Tiago 1:17; Romanos 12:3.

É claro que muito do que a Torre de Vigia publicou sobre os perigos do sangue, e o abuso que alguns fazem dele, é basicamente correto (embora assim como há pessoas que morrem ao receber sangue, há muitas outras que sobrevivem e riscos existem em qualquer procedimento medico). No entanto, essas ponderações não tem nada a ver com o preceito bíblico de se abster de sangue; apenas desvia a atenção do foco principal, a saber, que comer sangue não é o mesmo que uma transfusão, e que a proibição da Bíblia se refere a se alimentar do sangue de um animal que foi morto para servir de alimento. Durante anos pessoas escrevem para a Sociedade alertando da inconsistência de sua doutrina do sangue. Nesse ínterim muitos se prejudicam. Além disso, perceba que quando ela muda de opinião em momento algum ela faz referência à posição anterior e nem lamenta pelos transtornos que causou. Ao invés disso, sempre lança a responsabilidade para os irmãos, como se eles sozinhos tivessem chegado a tais conclusões. É simplesmente lamentável! (Evidentemente, querendo evitar processos judiciais, a Torre de Vigia não usa o termo "proibir". Mas, na prática, ela proíbe mesmo).

A Torre de Vigia também já foi alertada de que transfusão de sangue não é o mesmo que comer sangue. Conforme já vimos, uma pessoa inconsciente por vários dias num hospital recebendo apenas sangue nas veias  morrerá de fome, pois o organismo não assimilará o sangue como alimento. Sendo o sangue um tecido líquido o organismo o aceita de maneira semelhante a um transplante de órgão. Por isso a alimentação intravenosa que o paciente recebe não é sangue e sim outras substâncias nutritivas. Portanto, leitor, o ensinamento da Sociedade Torre de Vigia dos EUA que tem tido maior notoriedade junto ao público externo, precisa de uma séria revisão, por que do contrario, mais e mais pessoas morrerão sem nenhuma necessidade.

 

 

Perguntas sobre as quais refletir

    

   

    (01) De acordo com a Torre de Vigia, receber leucócitos (Glóbulos Brancos) numa transfusão é pecado, porque é o mesmo que comer sangue. No entanto, uma porção do leite materno, especialmente o colostro (aquele leite mais amarelado) que se manifesta nos primeiros dias de aleitamento, contém mais leucócitos do que uma quantidade equivalente de sangue.  Se receber leucócitos na veia é proibido, por que comê-los não é? Estaria Deus burlando a sua própria lei do sangue? Se ele nos proibisse de passar por um tratamento intravenoso à base de glóbulos brancos, criaria um sistema pelo qual os comemos literalmente, indo direto para o nosso sistema digestivo? Como você explica isso?

     (02) Se receber transfusão de sangue é o mesmo que comer sangue, por que uma pessoa que está inconsciente num hospital, se ficar recebendo apenas sangue na veia morrerá de fome?

     (03) A posição oficial da Torre de Vigia é que não se deve receber plaquetas na veia. Os derivados do sangue, tais como a albumina, porém, são permitidos.  As Testemunhas de Jeová imaginam que essas frações de sangue são “questão de consciência” porque são muito pequenas. No entanto, de todo sangue que há no corpo apenas 0,17% são plaquetas, enquanto que 2,2% é albumina. Por que é proibido 0,17% e permitido 2,2%?

    (04) Por que todos os credos cristãos, e mesmo os mais ortodoxos judeus, que são dependentes da Tora (lei), a lêem diariamente no hebraico original (para entender o contexto da tradição), filosofam sobre seu contexto, e amam a Lei de Deus mais do que suas próprias almas, não proíbem o uso médico do sangue? É razoável que sejamos os únicos a crer desta forma?

   (05) Se Gênesis 9:3-7 apresenta um "pacto eterno" que é válido para toda a humanidade, por que Paulo recomendou que se permaneça solteiro, e por que a Sociedade permite o uso do controle da natalidade, o qual seria uma clara violação do terceiro elemento do pacto: "E quanto a vós, homens, sede fecundos e tornai-vos muitos, fazei a terra pulular de vós e tornai-vos muitos nela"? Podemos escolher quais partes de um pacto eterno devemos manter? Se essas partes do pacto não são válidas, como ele pode ser um "pacto eterno"?

    (06) Se consumir sangue era uma ofensa capital, por que os homens de Saul não foram executados quando foram pegos ingerindo sangue junto com a carne que comiam? (1 Samuel 14:31-35).

     (07) Se, quando preciso, um israelita podia comer a carne de um animal não sangrado que tivesse morrido por si mesmo (veja Levítico 17:15), e o resultado era apenas uma impureza cerimonial que requeria um banho e a lavagem das roupas, por que a Sociedade diz que devemos desassociar (excomungar) aqueles que aceitam uma transfusão de sangue para salvar a vida?

     (08) Uma vez que a exigência de o sangue ser derramado ao solo está na Lei Mosaica, e não se repete nas Escrituras Gregas, e uma vez que os cristãos não estão submetidos à Lei Mosaica, por que seria errado armazenar o próprio sangue antes de uma operação?

     (09) Jesus estava disposto a fazer milagres no sábado a fim de salvar vidas, ou simplesmente curar os doentes, e ele não condenou a mulher com o fluxo de sangue por tocá-lo e fazê-lo cerimonialmente impuro. Aliás, ele condenava os fariseus por seu excessivo apego à Lei. Será que Jesus não faria uma exceção a uma regra dietética para salvar uma vida humana?

     (10) A maioria dos frangos "nao-kosher", encontrados em lanchonetes, armazéns e até no comércio de rua, são mortos por eletrocussão. Não há diferença entre estrangulamento e eletrocussão porque em ambos o sangue não é derramado. É por isso que a maioria dos frangos não é "kosher", isto é, não é aceitável pelos judeus. Assim sendo, por que é certo desobedecer a uma parte de Atos 15:29, mas morrer pela outra?

     (11) Como a Sociedade pode ver o mandamento de "abster-se de comer carne sacrificada aos ídolos" como simbolizando a questão da "Idolatria" em vez de uma regulamentação dietética, enquanto, ao mesmo tempo, vê "abster-se de comer sangue" como regulamentação dietética literal, e não como um símbolo da questão maior "Santidade da Vida"? Como eles podem ter uma diferença tão drástica de ponto de vista quando as duas observações sobre alimentação ocorrem na mesma frase e no mesmo versículo da Bíblia? (Atos 15:29).

     (12) Se concluirmos que alimentos oferecidos aos ídolos podem ser comidos, e que certos componentes ou frações do sangue podem ser usados, então uma pequena fração de fornicação não tem problema? Se não, por que não?

     (13) Recusar tratamento médico para seu filho quando a única alternativa seria a morte, faz de você responsável pela morte. Como se pode justificar a morte de uma criança com base numa regra judaica de preparação de alimentos?

     (14) Se uma transfusão de sangue é essencialmente um transplante de órgão (o sangue é um órgão em forma líquida), de que modo ela pode ser vista como "comer sangue", se não há digestão ou adição de benefícios nutricionais? Ela poderia ser um transplante de órgão e uma refeição ao mesmo tempo?

     (15) Se estocar o próprio sangue para uma transfusão autóloga é errado, então por que a Sociedade permite o uso de vários componentes sangüíneos que têm de ser doados e estocados antes de serem usados por Testemunhas de Jeová? Ainda mais, por que razão as Testemunhas aceitam e se beneficiam do sangue que outros doam, mas não doam elas próprias o seu sangue? Isso não é egoísta e hipócrita? Doar sangue para ajudar a salvar outras vidas não seria a atitude mais cristã e amorosa a se tomar?

     (16) Com que base a Sociedade usa as expressões "sustentar a vida" ou "introduzir" com respeito a aceitar uma transfusão, quando tais palavras não aparecem na Bíblia?

     (17) Por que a Sociedade tem de citar médicos que viveram há centenas de anos para achar apoio para sua crença de que uma transfusão é alimentação de sangue? Acaso os médicos modernos não admitem que uma transfusão de sangue é o mesmo que "comer" o sangue? Por que não?

     (18) Por que a sociedade exagera os riscos das transfusões de sangue, e faz parecer que elas são sempre um mau remédio, quando quase todos os especialistas discordam?

     (20) Como a Sociedade decide quais componentes sangüíneos são "maiores" e quais são "menores"? Por exemplo, por que os glóbulos brancos são proibidos e a albumina é permitida, se esta última constitui uma grande porcentagem do volume sangüíneo, e o leite materno e os órgãos transplantados estão cheios desses glóbulos?

     (21) Por que é que o plasma é proibido, se todos os seus componentes, exceto a água, estão na lista de aprovados para as Testemunhas tomarem a fim de "sustentar a vida"?

     (22) Por que a Sociedade usa argumentos e analogias como a sobre álcool e sangue sendo injetados nas veias, cujo erro evidencia-se com esta outra analogia:  A título de comparação, considere um homem a quem o médico diz para se abster de carne. Ele estaria sendo desobediente se parasse de comer carne, mas aceitasse um transplante de rim? Receber um rim transplantado é o mesmo que comer carne? Por que a Sociedade tem de usar truques intelectuais sujos para dar suporte à sua postura?

     (23) Se devemos nos abster completamente do sangue, como diz a Sociedade, então por que a Sociedade também nos diz que é aceitável usar derivados ou componentes de sangue humano? Isto não é contraditório?

     (24) A Torre de Vigia costuma dar destaque aos tratamentos alternativos de alta qualidade, usados no lugar de transfusões de sangue. Irmãos falam com orgulho que usaram remédios como a eritropoietina ao invés de sangue. Mas eles não se apercebem que um dos componentes dessa medicação é um derivado sangüíneo (albumina humana)! No passado, muitas Testemunhas de Jeová não puderam se beneficiar dessas frações sangüíneas porque a Torre de Vigia não permitia. Ela disse certa vez: "É errado suster a vida mediante infusões de sangue, plasma, glóbulos vermelhos, ou várias frações do sangue? Sim!" - A Sentinela, 15/03/1962, p. 174. Notou como ela foi categórica ao dizer que é errado aceitar frações sangüíneas? No entanto, ela abandonou essa opinião, que era imposta ao seu rebanho. Hoje em dia ela ensina: "A ordem bíblica de se abster de sangue, também inclui suas frações? Não podemos afirmar isso." - Ministério do Reino demarço de 2007 (suplemento). -> Ué! E por que afirmavam?

     (25) Que devo fazer? Meu filho está respirando com muita dificuldade. Sua contagem sangüínea está perigosamente baixa. Seu ritmo cardíaco já é de 200p/min, e está aumentando. Os médicos nos disseram que se não houver uma transfusão, ele morrerá de insuficiência respiratória e parada cardíaca. Expansores de plasma não ajudarão a esta altura, ele precisa de mais glóbulos vermelhos. Horrivelmente pálido e com os olhos muito abertos, ele olha para mim e sussurra: "Ajude-me, papai". Devo deixar meu filho morrer baseado na palavra de uma organização que tem freqüentemente mudado sua opinião sobre transplante de órgãos, vacinas, frações de sangue, deveres civis, "as ovelhas e os cabritos", a "geração", 1799, 1874, 1878, 1881, 1914, 1918, 1920, 1925, 1975, etc., etc., etc. ? Devo deixar meu filho, a minha criança, morrer? É isto realmente o que Jeová e Jesus esperam que eu faça? Como eu me sentirei se a proibição do sangue finalmente se tornar apenas mais uma velha luz e a doutrina for abandonada? Serei !! capaz de me perdoar?

     Se você, de forma honesta e sincera consegue achar respostas satisfatórias e razoáveis para os questionamentos acima, então eu aceitarei a doutrina do sangue imposta pelo corpo governante das Testemunhas de Jeová. Caso contrário, o que posso fazer é apenas lamentar tantas mortes totalmente desnecessárias e sem sentido que muitos tiveram ao seguir esta infeliz doutrina.    



    Será que a Bíblia realmente proíbe as transfusões de sangue?

 

Muitas Testemunhas de Jeová são bem sinceras em apegar-se aos padrões da sua organização a este respeito. Algumas até viram filhos pequenos morrerem em resultado disso, e seria cruelmente injusto atribuir isto à falta de amor dos pais. Eles simplesmente aceitaram que os padrões e normas organizacionais ― embora complexos e até confusos ― são baseados na Bíblia e, portanto, ordenados por Deus. Todavia, poucas afirmações tiveram base mais frágil que essa. Como se observa, muito da argumentação da Torre de Vigia concentra-se em textos das Escrituras Hebraicas, principalmente das ordenanças da Lei Mosaica. Visto que a Sociedade reconhece que os cristãos não estão debaixo dessa Lei, o texto de Gênesis, capítulo 9, versículos 1-7, é freqüentemente citado. Ele diz:

     “E o medo de vós e o terror de vós continuará sobre toda criatura vivente da terra e sobre toda criatura voadora dos céus, sobre tudo o que se está movendo no solo, e sobre todos os peixes do mar. Na vossa mão estão agora entregues. Todo animal movente que está vivo pode servir-vos de alimento. Como no caso da vegetação verde, deveras vos dou tudo. Somente a carne com a sua alma ― seu sangue — não deveis comer. E, além disso, exigirei de volta vosso sangue das vossas almas. Da mão de cada criatura vivente o exigirei de volta; e da mão do homem, da mão de cada um que é seu irmão exigirei de volta a alma do homem. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem será derramado o seu próprio sangue, pois à imagem de Deus fez ele o homem. E quanto a vós, homens, sede fecundos e tornai-vos muitos, fazei a terra pulular de vós e tornai-vos muitos nela.

     Alega-se que, como todos os humanos descendem de Noé e seus filhos, estas ordens ainda se aplicam a todas as pessoas. Sugere-se que as ordenanças sobre o sangue na Lei Mosaica devem por isso ser vistas simplesmente como repetições ou considerações adicionais da lei básica anteriormente estabelecida, e que, portanto, ainda vigoram. De outro modo, já que os cristãos não estão sob a Lei Mosaica, não faria sentido citar textos dela como tendo relevância no assunto. Afirma-se que o decreto divino sobre o sangue dado a Noé tem aplicação eterna. Se for assim, não devemos então aplicar isso também à ordem seguinte, “sede fecundos e tornai-vos muitos”, e “fazei a terra pulular de vós e tornai-vos muitos nela”? Se for assim, como pode a Sociedade Torre de Vigia justificar o incentivo, não só a ficar solteiro, mas até a não ter filhos, no caso das Testemunhas casadas? Sob o título “Ter Filhos Hoje”, A Sentinela de 1º de março de 1988 (página 21) diz que, em vista do “tempo limitado” que resta para terminar a obra de testemunho, “é apropriado que os cristãos perguntem a si mesmos até que ponto o casar-se, ou terem filhos, caso sejam casados, afetará a sua participação nessa obra vital”. O artigo admite que criar filhos fazia parte da ordem de Deus após o dilúvio, mas declara (página 26) que “Atualmente, gerar filhos não é especificamente parte da tarefa dada por Jeová a seu povo... Portanto, ter filhos ou não neste tempo do fim é um assunto pessoal que todo casal precisa decidir por si mesmo. Contudo, visto que ‘o tempo que resta é reduzido’, os casais farão bem em pesar cuidadosamente e com oração os prós e os contras de se ter filhos nestes tempos.” Se as palavras de Jeová a Noé a respeito de criar filhos e ‘pulularem e serem fecundos’ podem ser postas de lado como não mais aplicáveis, como podem coerentemente argumentar que as palavras Dele a respeito do sangue têm de ser encaradas como ainda em vigor, e usar isso como base para justificar a aplicação das ordenanças da Lei Mosaica sobre o sangue como ainda em vigor para os cristãos hoje? 

Mais significativo, contudo, é que fazem essas palavras em Gênesis dizerem algo muito diferente do que de fato dizem. Qualquer leitura do texto deixa claro que Deus ali fala de sangue inteiramente em relação a matar animais e depois em relação a matar humanos. No caso dos animais, o sangue era derramado no solo em reconhecimento evidente de que a vida sacrificada desse modo (para alimento) só era tomada por permissão divina, não por direito natural. No caso do homem, seu sangue exigia a vida daquele que o derramava, sendo a vida humana um dom de Deus que o homem não foi de modo algum autorizado a tirar  à  vontade. O sangue  derramado  de animais  mortos  e  humanos assassinados representa a vida que eles perderam. O mesmo ocorre no caso dos textos da Lei Mosaica regularmente citados, que requerem que o sangue seja “derramado”. Em todos os casos, isto se refere claramente ao sangue dos animais que foram mortos. O sangue representava a vida tirada, não a vida ainda ativa na criatura.

As transfusões de sangue, contudo, não são resultado da morte de animais ou humanos, pois o sangue vem de um doador vivo que continua a viver. Em vez de representar a morte de alguém, esse sangue é utilizado exatamente com objetivo oposto, a saber, a preservação da vida. Não existe nenhuma relação real ou paralelo entre a ordem de Gênesis a respeito de matar e depois comer o sangue do animal morto, e o uso de sangue numa transfusão. O paralelo simplesmente não existe. Finalmente, usar leis que ordenam o derramamento do sangue como base para condenar sua armazenagem é ignorar o propósito declarado dessas leis. Segundo o contexto, ordenou-se aos israelitas que derramassem no solo o sangue dos animais que matavam para garantir que o sangue não seria comido, não para garantir que não seria guardado. A armazenagem nem estava em discussão. Empregar tais leis desse modo não só é ilógico como é pura manipulação da evidência, forçando-as a significar algo que não é declarado ou mesmo sugerido. Como os cristãos não estão sob um código de leis, mas sob a “lei régia do amor” e a “lei da fé”, estes pontos merecem certamente séria consideração e meditação. Mostra verdadeiro apreço pelo valor da vida permitir que normas arbitrárias ditem como se deve proceder em situações cruciais? Demonstra amor a Deus e ao próximo fazer isto sem apoio de declarações claras na Palavra de Deus?

Sem dúvida, o principal texto bíblico usado na argumentação da Torre de Vigia é o de Atos 15:28, 29. Estes versículos trazem a decisão de um concílio em Jerusalém e incluem as palavras: “Persisti em abster-vos de coisas sacrificadas a ídolos, e de sangue, e de coisas estranguladas, e de fornicação.” A evidência bíblica de que isto não foi dito como uma forma de declaração com efeito obrigatório legal, será considerada mais adiante neste capítulo. Este assunto é vital visto que é a base principal para o argumento da Sociedade de que as ordenanças da Lei Mosaica são transferíveis para o cristianismo. Embora tratemos deste ponto mais adiante, podemos logo dizer que a exortação para se “abster do sangue” refere-se claramente a comer sangue. A Sentinela de 1º de dezembro de 1978 (página 23), de fato, cita o professor Eduard Meyer dizendo que o significado de “sangue” neste texto é “tomar sangue que  era  proibido  pela lei  (Gêneses 9:4) imposta a Noé, e, assim, também à humanidade como um todo.” Esse “tomar” era por meio de comer.

Uma questão vital, pois, é se pode ser demonstrado que transfundir sangue é o mesmo que “comer” sangue, como pretende a organização Torre de Vigia. Não há, na realidade, base sólida para essa pretensão. Há, é claro, métodos clínicos de “alimentação intravenosa” na qual líquidos especialmente preparados contendo nutrientes, como a glicose, são introduzidos nas veias e fornecem nutrição. Contudo, como sabem as autoridades médicas e como a Sociedade Torre de Vigia às vezes admitiu, uma transfusão de sangue não é alimentação intravenosa; é de fato um transplante (de um tecido fluido), e não infusão de um nutriente. No transplante de rim, o rim não é comido como alimento pelo novo corpo em que é introduzido. Continua a ser um rim com a mesma forma e função. Ocorre o mesmo com o sangue. Ele não é digerido como alimento quando “transplantado” para outro corpo. Continua a ser o mesmo tecido fluido, com a mesma forma e função. As células do corpo não podem utilizar esse sangue transplantado como alimento. Para fazê-lo, o sangue teria primeiro de passar pelo sistema digestivo, ser decomposto e preparado de modo que as células do corpo pudessem absorvê-lo, assim, apenas sendo real e literalmente comido é que ele poderia servir de alimento.

Quando os profissionais médicos acham necessária uma transfusão de sangue não é porque o paciente está subnutrido. Na maioria dos casos é porque o paciente sente falta de oxigênio, não de nutrientes, e isto se deve à falta de portadores de suprimento adequado de oxigênio, a saber, os glóbulos vermelhos do sangue, que levam oxigênio. Em outros casos, administra-se sangue devido à falta de outros fatores, como os agentes coagulantes (como as plaquetas), imunoglobulina contendo anticorpos ou outros elementos, mas, novamente, este não é um meio de prover “nutrição”.

     No esforço de contornar a evidência de que transfundir sangue não é o mesmo que comer, nem tem como objetivo “nutrir” o corpo, a Torre de Vigia tenta muitas vezes ampliar arbitrariamente o assunto pondo juntos, ou até substituindo, o termo “nutrir” pela expressão “sustentar a vida”. Esta tática de desvio só serve para confundir a questão. Nutrir o corpo por comer, e sustentar a vida, não são coisas idênticas. Comer é apenas um dos meios de sustentar a vida. Sustentamos a vida de muitos outros modos, igualmente vitais, como respirar, beber água ou outros líquidos, manter o calor do corpo numa temperatura adequada, e dormir ou descansar. Quando se referem ao sangue, as próprias Escrituras não tratam do aspecto amplo de “sustentar a vida”, mas do ato específico de comer sangue, e referem-se claramente a comer o sangue de animais que são mortos. Quando um israelita comia carne que continha sangue, ele não dependia desse sangue para “sustentar” sua vida — a carne sozinha faria isso tão bem sem o sangue ou com ele. Se a vida dele era ou não “sustentada” por comer o sangue simplesmente não vinha ao caso. O ato de comer sangue era proibido, e a motivação ou as conseqüências finais por comê-lo não foram mencionadas nas leis do sangue.

A organização Torre de Vigia permite que seus membros recebam frações de sangue que são geralmente administradas exatamente para salvar ou “sustentar” a vida da pessoa, como no caso do Fator VIII, administrado aos hemofílicos, ou como no caso da imunoglobulina, injetada como proteção contra certas doenças perigosas ou para evitar a morte de crianças por incompatibilidade de Rh. Em nenhuma parte da Bíblia encontramos tal restrição sobre o sangue com o termo “sustentar a vida”. Esse palavreado confuso da Sociedade Torre de Vigia é tanto desonesto como irresponsável e obscurece a verdade da palavra de Deus, indo "além das coisas que estão escritas." (1 Coríntios 4:6)

 

 ‘Abstende-vos de sangue’

    

    A carta enviada pelos apóstolos e anciãos de Jerusalém, registrada em Atos capítulo 15, usa o termo “abster-se” em relação a coisas sacrificadas a ídolos, sangue, coisas estranguladas e fornicação. O termo grego que eles usaram (apékhomai) tem o significado básico de “afastar-se de”. As publicações da Torre de Vigia argumentam que, em relação ao sangue, ele tem um sentido total, abrangente. Assim, a publicação Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra, página 216, diz: “Abster-se do sangue’ significa definitivamente não introduzi-lo em seu corpo.” De modo similar, A Sentinela de 1º de maio de 1988, página 17, diz: “Andar nas pisadas de Jesus significaria não introduzir sangue no corpo, seja oralmente, seja de outro modo.”

     Mas será que este termo, como é usado nas Escrituras, tem realmente o sentido absoluto indicado nestas publicações? Ou pode, em vez disso, ter sentido relativo, relacionado com uma aplicação específica e limitada? 

     Que pode ser aplicado, não num sentido total, abrangente, mas de modo limitado, específico, pode-se ver no seu uso em textos como 1 Timóteo 4:3. Ali o apóstolo Paulo avisa que alguns professos cristãos introduziriam ensinos de natureza perniciosa, “proibindo o casar-se, mandando abster-se de alimentos que Deus criou para serem tomados com agradecimentos”. Não queria dizer, é claro, que estas pessoas ordenariam a outros que se abstivessem totalmente, sob qualquer forma, de todos os alimentos criados por Deus. Isso significaria jejum total e levaria à morte. Ele se referia obviamente à proibição de alimentos específicos, evidentemente os proibidos pela Lei Mosaica.

     De modo similar, em 1ª Pedro 2:11 o apóstolo admoesta:

     Amados, exorto-vos como a forasteiros e residentes temporários a que vos abstenhais dos desejos carnais, que são os que travam um combate contra a alma.

      Se tomássemos esta expressão literalmente, em sentido absoluto, significaria que não podemos satisfazer nenhum desejo da carne. Certamente não é esse o significado das palavras do apóstolo. Temos muitos “desejos carnais”, incluindo o desejo de comer, de respirar, de dormir, de recreação e muitos outros desejos, que são perfeitamente apropriados e bons. Portanto, “abster-se de desejos carnais” aplicava-se apenas no contexto do que o apóstolo escreveu, referindo-se, não a todos os desejos carnais, mas apenas a desejos prejudiciais, pecaminosos, que de fato “travam um combate contra a alma”.

      Portanto, a questão é: Em que contexto Tiago e o concílio apostólico usaram a expressão “abster-se” de sangue? O próprio concílio tratava especificamente da tentativa de alguns de exigir que os cristãos gentios fossem, não só circuncidados, mas também “observassem a lei de Moisés”. Era esse o assunto a que o apóstolo Pedro se referia, a observância da Lei Mosaica, que ele descreveu como “jugo” pesado. Quando Tiago falou perante o concílio e recomendou que os cristãos gentios fossem aconselhados a abster-se de certas coisas ― coisas poluídas por ídolos, fornicação, coisas estranguladas e sangue ― ele declarou em seguida: 

     Pois, desde os tempos antigos, Moisés tem tido em cidade após cidade os que o pregam, porque ele está sendo lido em voz alta nas sinagogas, cada sábado.

     Sua recomendação, portanto, evidentemente levou em conta o que as pessoas ouviam quando ‘Moisés era lido’ nas sinagogas. Tiago sabia que nos tempos antigos havia gentios, “pessoas das nações” que moravam na terra de Israel, residindo no meio da comunidade judaica. Que requisitos lhes impunha a Lei Mosaica? Não exigia que fossem circuncidados, mas exigia que se abstivessem de certas práticas que são descritas no livro de Levítico, capítulos 17 e 18. Essa lei especificava que, não só os israelitas, mas também os “residentes forasteiros” entre eles tinham de abster-se de participar em sacrifícios idólatras (Levítico 17:7-9), de comer sangue, inclusive o de animais mortos não sangrados (Levítico 17:10-16) e de práticas classificadas como sexualmente imorais (inclusive incesto e práticas homossexuais). — Levítico 18:6-26.

Embora a própria terra de Israel estivesse então sob controle gentio, com grande número de judeus vivendo fora dela, em vários países (estes eram chamados de “Diáspora”, que significa os “dispersos”), Tiago sabia que em muitas cidades por todo o Império Romano a comunidade judaica era como um microcosmo que refletia a situação da Palestina dos tempos antigos, na qual era muito comum os gentios assistirem às reuniões dos judeus na sinagoga, misturando-se assim com eles.

Os próprios cristãos primitivos, tanto judeus como gentios, continuaram a freqüentar estas reuniões nas sinagogas, e até sabemos que Paulo e outros fizeram ali muito de sua pregação e ensino. A referência de Tiago à leitura de Moisés nas sinagogas numa cidade após outra, certamente dá motivos para crer que, ao enumerar as coisas que mencionara imediatamente antes, ele tinha em mente as abstinências que Moisés estabelecera para os gentios que pertenciam à comunidade judaica nos tempos antigos.

Como vimos, Tiago alistou não só as mesmíssimas coisas que estão no livro de Levítico, mas até na mesmíssima ordem; abstenção de sacrifícios idólatras, sangue, coisas estranguladas (não sangradas) e imoralidade sexual. Ele recomendou a observância dessas mesmas coisas por parte dos crentes gentios e a razão evidente para esta abstenção era a situação então prevalecente, a presença de judeus e gentios nas reuniões cristãs e a necessidade de manter paz e harmonia nessa situação. Quando os cristãos gentios foram instados a ‘abster-se de sangue’, isto devia ser entendido, claramente, não num sentido total e abrangente, mas no sentido específico de refrear-se de comer sangue, algo abominável para os judeus.

É significativo que Tiago não incluiu coisas como assassinato ou roubo entre as ações de que se deviam abster. Essas coisas já eram condenadas tanto pelos gentios em geral como pelos judeus. Mas os gentios toleravam a idolatria, toleravam comer sangue e comer animais não sangrados e toleravam a imoralidade sexual, tendo até “prostitutas de templo” em locais de adoração. Portanto, as abstenções recomendadas visavam os  costumes  gentios que eram mais propensos a ofender seriamente os judeus e resultar em atritos e perturbações. A Lei Mosaica não exigira a circuncisão dos residentes forasteiros como condição para viver em paz em Israel, nem Tiago exigiu isto.

     A carta que resultou da recomendação de Tiago foi dirigida especificamente aos cristãos gentios, pessoas “das nações”, em Antioquia, Síria e Cilícia (regiões vizinhas ao norte de Israel) e, como vimos, tratava do assunto específico da tentativa de exigir que os crentes gentios “observassem a lei de Moisés”. A carta tratava das áreas de conduta mais propensas a criar dificuldades entre os crentes judeus e gentios. Não há nada que indique que a carta pretendia ser vista como “lei”, como se as quatro abstenções formassem um “Quadrálogo”, em substituição ao “Decálogo” dos Dez Mandamentos da Lei Mosaica. Era um conselho específico para uma circunstância específica, prevalecente naquele período da história.

Tanto é assim que o Apóstolo Paulo escrevendo algum tempo depois sua 1ª carta aos Corintios, no capitulo 8, ele fala sobre a questão do alimento oferecido a ídolos que depois era comido por alguns cristãos. Em Corinto, alguns cristãos  estavam indo a templos de ídolos onde essa carne sacrificada era depois cozida e servida (por um preço) nos recintos do templo pagão.

Para um cristão, comer ali era, aos olhos de muitos de seus condiscípulos ― especialmente os de origem judaica ―  comparável ao modo como as Testemunhas de Jeová veriam hoje um de seus membros participar de uma ceia na igreja, com alimento previamente abençoado pelos padres e servido na catedral católica romana, com o dinheiro pago pela refeição revertido para a igreja. Como, então, tratou o apóstolo do assunto? Ameaçou ele os que comiam esta carne, advertindo-os dos procedimentos judicativos e da provável desassociação? Apelou para a lei, um conjunto de regras, como meio de restringir esta prática?

Ao contrário, ele mostrou que a ação em si mesma não era condenável, deixando bem claro que o ídolo em si não é nada e que para o cristão o fato de um alimento ter sido oferecido em um templo a algum ídolo para depois ser consumido não mudaria em nada sua relação com Deus, mas poderia talvez causar tropeço a algum co-irmão. Se alguém comia ou não comia, portanto, não dependeria da lei e do receio de ser considerado culpado de violar uma lei. Dependeria do amor e do receio de não prejudicar um irmão “por quem Cristo morreu”, realmente uma atitude superior que faria o cristão revelar o que tinha no coração, e não simplesmente a submissão a uma regra.

O mesmo conselho demonstra que o apóstolo não encarava a decisão dos apóstolos e outros em Jerusalém (registrada no capítulo 15 de Atos) como uma “lei”. Se fosse uma lei, Paulo nunca teria escrito como fez aos cristãos em Corinto, dizendo francamente que comer ou não comer alimento oferecido a ídolos era questão de consciência, e o fator determinante era se comer faria outros tropeçar ou não. Tanto Atos 15:29 como 1ª Coríntios 8:4 usam exatamente a mesma palavra grega. Em ambos os textos a palavra é eudolóthutos, conforme se pode confirmar consultando a Kingdom Interlinear Translation [Tradução Interlinear do Reino] da Sociedade Torre de Vigia.

No entanto, a Tradução do Novo Mundo, que afirma ser uma tradução literal, diz "coisas sacrificadas a ídolos" em Atos 15:29 e "alimentos oferecidos a ídolos" em 1 Coríntios 8:4, não havendo qualquer outra razão [para traduzir a mesma palavra (eudolóthutos) de modo diferente nos dois textos] que não seja esconder as similaridades. Não há nada no contexto, ou na expressão, que indique que Atos se refere a qualquer outra prática além de comer carne oferecida a ídolos. Estes dois textos juntos provam que o texto em Atos 15:28, 29 não é um mandamento universal.

     Encarar a carta de Jerusalém como lei e, com base nisso, pretender que sua menção ao sangue indica que os cristãos permanecem sob as ordenanças da Lei Mosaica a respeito do sangue, é ignorar claramente as declarações do apóstolo Paulo, na questão dos “alimentos oferecidos a ídolos”, mostrando que tal raciocínio não é válido. Se nenhum tropeço era provável, ninguém então podia corretamente julgar Paulo ou algum outro cristão por comer tal alimento. Com respeito à imoralidade sexual (ou “fornicação”, em algumas traduções), também incluída na carta de Jerusalém, o apóstolo não apresenta isto como algo que pode ser certo ou errado, dependendo de causar tropeço ou não. Ele evidentemente a encarava como não tendo nenhuma justificativa.

Portanto, fica evidente que Paulo encarava de maneira diferente as quatro questões registradas em Atos 15:28, 29. Para ele a fornicação não era questão de consciência, mas agora abster-se de coisas sacrificadas a ídolos era. Fica claro que as abstenções de Atos eram uma tentativa de resolver algumas dificuldades de relacionamento entre cristãos judeus e gentios, uma maneira de tornar a convivência entre eles mais harmoniosa. Levar a questão além disso, tentando fazer do sangue em si uma espécie de “tabu”, é tirá-la do seu contexto bíblico e histórico e impor-lhe um significado que de fato não existe. 

     É injusto e desamoroso condenar os que aceitam transfusões de sangue para preservar sua vida ou a vida de entes queridos por que eles não se apegaram a certas regras e proibições originadas de uma organização religiosa. É injusto condenar a tais por que simplesmente não há base bíblica válida, ou qualquer outra, para fazê-lo. Tentar sobrecarregá-los com um sentimento de culpa que é imposto por padrões humanos e não por padrões divinos é desonesto e cruel.

Finalmente, aqueles que hoje insistem em argumentar sobre leis dietéticas fariam bem em acatar o seguinte aviso do próprio Jesus Cristo:

"Não há nada de fora dum homem passando para dentro dele que possa aviltá-lo; mas as coisas que procedem do homem são as que aviltam o homem... Outrossim, ele disse: O que sai do homem é o que avilta o homem;  pois, de dentro, dos corações dos homens, saem raciocínios prejudiciais: fornicações, ladroagens, assassínios, adultérios, cobiças, atos de iniqüidade, fraude, conduta desenfreada e um olho invejoso, blasfêmia, soberba, irracionalidade. Todas estas coisas iníquas saem de dentro e aviltam o homem” (Marcos 7:15, 20-23).

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A Origem das Testemunhas de Jeová

No princípio do século 19, um pastor batista  de Nova Iorque, EUA, William Miller (nascido em Massachussets, 1782) dedicou-se ao estudo da escatologia - estudo das profecias sobre o 'fim do mundo' - buscando prever a data da segunda vinda de Cristo. A partir da leitura de Daniel 8: 14, onde se diz, "...Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado", Miller reacendeu a discussão de um tema  já  bastante controvertido - a habilidade, com base na interpretação das Escrituras, de prever eventos futuros, iminentes e espetaculares. Estavam assim lançadas as sementes do que se convencionou chamar Segundo Adventismo. O movimento das Testemunhas de Jeová guarda estreita relação com esta corrente, de modo que temos de estabelecer aqui nosso ponto de partida. A interpretação dos livros bíblicos de Daniel e Apocalipse não era algo novo nos dias de Miller. Na verdade, estes textos tinham despertado o interesse de estudiosos de religião por séculos antes de ele ter nascido, o que acabou por gerar toda uma corrente (quase contínua) de teorias interpretativas, começando com aquelas do Judaísmo do primeiro século, na pessoa do rabino Akibah Ben Joseph(50 - 132 DC), e passando pelo Catolicismo medieval, a Reforma e, finalmente, o Protestantismo anglo-americano do século 19.  O primeiro estudioso cristão a fazer especulações proféticas sobre a vinda do Messias, servindo-se dos mesmos métodos de cálculo dos rabinos do primeiro século, foi Joachim de Flora, no ano de 1195 DC. Não seria o único - do início século 12 ao início do século 19, cerca de 35 autores continuariam a  especular e propor datas para o cumprimento das profecias bíblicas. De modo que Miller foi um continuador, não o criador do milenarismo - a corrente religiosa cujo cerne consiste nos preparativos para o Reino de mil anos de Nosso Senhor, mencionado em Apocalipse 20: 4. Um longo desfile de especuladores sobre o "fim do mundo" - entre eles,  Charles T. Russell - ainda se seguiria a Miller , anos no futuro juntando-se a outras dezenas, antes dele. O conhecimento deste panorama histórico nos ajuda a compreender aquele que talvez seja o aspecto distintivo das Testemunhas de Jeová - a ênfase na escatologia milenarista - pois foi na efervescente atmosfera do período pós-millerismo do século 19 que o movimento teve seu berço.

    Não é objetivo deste livro descrever pormenorizadamente a história das Testemunhas de Jeová e as interpretações de profecias bíblicas quanto à 'Segunda Vinda de Cristo'. Mencionarei apenas aquilo que julgar relevante na nossa reconstituição do panorama histórico-religioso onde floresceu a entidade que é o alvo de nosso estudo. Para mais detalhes sobre o tema 'escatologia', inclusive aquela sustentada até hoje pelas Testemunhas de Jeová, e a história das Testemunhas de Jeová, recomendo a leitura das obras The Gentile Times Reconsidered [Os Tempos dos Gentios Reconsiderados], de autoria de Carl Olof  Jonsson e Apocalypse Delayed [Apocalipse Adiado], de autoria de James Penton. Trata-se de obras sérias e profundas, produtos de mais de uma década de pesquisas. Submete tais temas ao escrutínio histórico e põe por terra mitos.

 

 

 

     De volta aos trabalhos de Miller, ele utilizou o princípio do "dia-ano", mencionado explicitamente na Bíblia com referência apenas aos textos de Números 14: 34 e Ezequiel 4: 6. Tal método começou a ser aplicado por rabinos judeus a outras passagens e foi formalmente estabelecido como princípio pelo rabino anteriormente mencionado, Ben Joseph. Assim, Miller  "calculou" que os 2.300 dias de Daniel 8: 14 representavam 2.300 anos. Tudo de que precisava, então, era um ponto de partida. Ele adotou como tal o ano de 457 AC, data do regresso de Esdras do cativeiro. Contando, pois, 2.300 anos a partir desta data, Miller chegou ao ano de 1843 como aquele que veria o retorno de Cristo a terra. A previsão fora feita no ano de 1818. Posteriormente (em 1842) ele publicaria um cálculo diferente, contando 2.520 anos, mas preservando  a data-chave de 1843.  Restava, portanto, pouco tempo antes que tal acontecimento extraordinário tivesse lugar. Qual o efeito de tais previsões sobre os contemporâneos de Miller?

 

    O impacto de tal revelação foi bem além do que Miller poderia prever. Crentes de diversas igrejas levaram tal previsão por demais a sério, sendo que muitos doaram suas propriedades, abandonaram suas atividades cotidianas e prepararam-se para recepcionar Jesus Cristo. No entanto, a data chegou e o tão aguardado evento não se deu. Miller, então, revisou seus cálculos e concluiu que errara em um ano, marcando o acontecimento para o ano seguinte, ou seja, 1844, mais especificamente para o mês de março. Tendo novamente decepcionado a si próprio e a seus seguidores (cerca de cem mil) Miller ainda faria uma última tentativa, marcando a vinda de Cristo para outubro daquele ano. Todavia, um novo desapontamento demoveu-o definitivamente da idéia de antever tal portentoso evento. Sobre isso, o próprio Miller escreve:

   "Acerca da falha da minha data, expresso francamente o meu desapontamento... Esperamos naquele dia a chegada pessoal de Cristo; e agora, dizer que não erramos, é desonesto! Nunca devemos ter vergonha de confessar nossos erros abertamente."

                                                                                    (A História da Mensagem Adventista, pág. 410)

    

     Não se pode deixar de reconhecer humildade e candura nas palavras de Miller, ainda mais considerando que sua conduta, a partir de então, veio a corroborar suas palavras. Entretanto, involuntariamente, ele, por assim dizer, 'fez  escola'. Miller  acendeu um pavio que não podia apagar. Apesar de ter reconhecido seu erro, diversos de seus anteriores seguidores insistiram em marcar o dia para a vinda de Cristo, entre eles, os grupos liderados por Joseph Bates, Helen White e Hiram Edson, de cuja fusão nasceu a Igreja Adventista do 7o. Dia.  Como passou  Millera encarar a escatologia que se seguiu ao seu trabalho? Ele diz:

        "Não tenho confiança alguma nas novas teorias que surgiram no movimento..."  

                                                                                                   (A História da Mensagem Adventista, pág. 412)

     

     Por fim, morreu Miller, no ano de 1849, aos 68 anos de idade. Apenas três anos depois, em 16 de Fevereiro de 1852, em Allegheny-Pensilvânia, nascia Charles Taze Russell, filho do casal Joseph L. Russelle Anna Eliza Russell. O jovem Charlesfoi criado como presbiteriano e passou a maior parte de sua infância entre as cidades de Alleghenye Pittsburgh, no estado onde nasceu. Sua mãe o encorajou, na infância, a considerar o ministério Cristão, mas faleceu quando ele tinha apenas 9 anos de idade. Sua educação foi modesta, a partir de escolas públicas e suplementada por estudos com tutores particulares. Seu pai, um comerciante experiente, treinou o filho para ser seu sócio nos negócios, função esta que Charles passou a desempenhar já aos 11 anos, em uma loja de confecções masculinas. Nesta época, parecia demonstrar mais talento para o comércio do que para a religião. Por força das obrigações de trabalho, ele acabou abandonando os estudos aos 14 anos e tornou-se, nos próximos anos, um próspero empresário no ramo de confecções, ampliando o negócio do pai até tornar-se uma cadeia de lojas. Apesar de sua criação como presbiteriano, veio a filiar-se à Igreja Congregacional, por esta estar mais de acordo com seus conceitos na época. 

       A despeito de seu sucesso como comerciante, o jovem Russell manifestava fortes pendores para a religiosidade. Ainda garoto, era um devoto Calvinista, tendo chegado a ponto de  afixar panfletos em lugares públicos, advertindo os infiéis sobre o fogo do inferno. Esperava, com isso, induzir os trabalhadores a mudarem seu estilo de vida. Agora, ao passo que Russell pertencia à Igreja Congregacional, seu pai voltara-se para o Adventismo. Aos 16 anos de idade, Russell passou a inquietar-se com relação a diversas doutrinas comumente aceitas em seu tempo. Ante a ineficácia de suas tentativas em converter 'infiéis'  às suas crenças, acabou por perder a fé na Bíblia. Contudo, não conseguiria fugir por muito tempo daquilo que parecia ser seu talento natural. Uma certa noite, no ano de 1869, um acontecimento deu novo impulso em sua vida. Caminhando pela rua de uma de suas lojas, ouviu o som de um canto, um hino religioso, o qual atraiu-lhe a atenção. De onde provinha? De um culto Adventista. O pregador nesta noite era o pastor Jonas Wendell. O próprio Russell descreve o encontro assim:

     "Como que por acaso, certa noite visitei uma sala poeirenta e mal-iluminada, onde eu ouvira dizer que se realizavam cultos religiosos, para ver se o punhado de pessoas que se reunia ali tinha algo mais sensato a oferecer do que as crenças das grandes religiões. Ali, pela primeira vez, ouvi algo sobre os conceitos dos Adventistas [Igreja Cristã do Advento], sendo o Sr. Jonas Wendell o pregador...Assim, reconheço estar endividado com os adventistas e com outras denominações. Embora a exposição bíblica feita por ele não fosse inteiramente clara,... foi o suficiente, sob a orientação de Deus, para restaurar minha abalada fé na inspiração divina da Bíblia..., embora o Adventismo não me tenha ajudado em nenhuma verdade específica, ajudou-me grandemente a desaprender erros, e assim me preparou para a Verdade."

                                                                                                                      (Watchtower, 1906, reimpressão)

    

     Não se pode deixar de notar um certo paradoxo em que um sermão "não inteiramente claro" e que não continha "nenhuma verdade específica" pudesse servir de alicerce para a restauração da fé de alguém. A partir daí, Russell, com apenas 18 anos, formou seu próprio grupo independente de estudos, o qual acabou por formar um movimento à parte, elegendo-o, seis anos depois, como seu "pastor".  Contudo, ele contou com a contribuição de outros dois adventistas, George Stetsone George Storrs. O primeiro era ministro do Adventismo Cristão e o segundo, ex-ministro da Igreja Episcopal e um dos fundadores do movimento 'União da Vida e do Advento' (com o qual veio a romper, tempos depois) e autor do periódico Bible Examiner [Examinador da Bíblia]. Destes dois, indubitavelmente foi Storrs o que mais influenciou as idéias de Russell.  

     George Storrs tinha estado envolvido com o movimento de William Miller já mencionado anteriormente, mas dele afastou-se após os sucessivos fracassos nas previsões para a volta de Cristo. A partir da leitura de um tratado, em 1837, elaborado por um ex-pastor batista, Storrs veio a tornar-se adepto do 'condicionalismo', a saber, a tese segundo a qual o homem não possui uma alma imortal, mas  os mortos estão inconscientes e à espera de ressurreição, sendo que imortalidade é um dom adquirido, sob a condição  de que o ser humano o  obtenha de Deus por meio de Cristo. Ele também advogava o ensino de que os mortos em ignorância, teriam uma oportunidade de se redimirem diante de Cristo por meio de uma ressurreição terrestre. Não é difícil, pois, saber de onde Russell obteve a matéria-prima para suas doutrinas da mortalidade da alma e da restauração do paraíso terrestre. É bem provável que Russell também tenha herdado de Storrs sua aversão por igrejas e organizações religiosas. Russell  não seria o único a ser influenciado por Storrs. Há indícios que sua associação com diversos grupos religiosos - em especial, adventistas - tenha contribuído para que estes também tenham adotado a doutrina do 'condicionalismo'. De fato, ela está presente, até hoje, nas doutrinas da União da Vida e do Advento - fundada pelo próprio Storrs - da Igreja Cristã do Advento,  da Igreja Mundial de Deus e, naturalmente, das Testemunhas de Jeová.  

      Não se deve subestimar o grau de influência de Storrs sobre o movimento Adventista, pois, além dos aspectos mencionados, há ainda um último legado dele a Russell - a piramidologia. Em 1876, o  professor C. Piazzi Smyth - um astrônomo e piramidólogo anglo-israelita - publicou um artigo sobre este tema no periódico de Storrs,  Bible Examiner. Algum tempo depois, o próprio Storrs escreveu artigos sobre piramidologia no periódico Herald of Life and the Coming Kingdom [Arauto da vida e da Vinda do Reino]. Na seqüência, o "pastor" Russell, dedicaria, em 1897, um capítulo inteiro de uma de suas obras - o volume III de Studies in the Scriptures [Estudos das Escrituras] - ao significado das medidas da Pirâmide de Gizé quanto ao cumprimento das profecias bíblicas. Não seria o único. Por esta época, tais crenças grassavam entre diversos seguimentos do Segundo Advento.

      É também digno de nota que o próprio Russell  fala da convivência com George Storrs e Stetsoncomo o tendo conduzido "passo a passo, a esperanças para o mundo, mais verdes e brilhantes" (Watchtower, 1906, pág. 3821). Em 9 de outubro de 1879, Stetsonmorreu e foi Russellquem realizou, a pedido, o sermão fúnebre. Seu falecimento mereceu, inclusive, menção na principal publicação de Russell, na qual ele se refere a seu colaborador e instrutor como "irmão de notável habilidade".

     Em 1876, Russell faria um derradeiro e decisivo contato, do qual importaria mais alguns conceitos-chave que, somados aos anteriores, formariam o arcabouço de sua teoria doutrinária e a bandeira de sua cruzada missionária. Trata-se de Nelson Barbour, que, assim como George Storrs, também fora um seguidor de William Miller,  e que, agora, liderava um grupo independente em Rochester, Nova Iorque. Sua publicação, Herald of the Morning [Arauto da manhã], chegou às mãos de Russell numa manhã de Janeiro daquele ano. Os conceitos ali expressos eram:

     a) A vinda de Cristo seria invisível.

     b) Cristo estava presente.

     c) Esta presença havia acontecido em 1874.

    

    Nenhum dos conceitos era novo.  Já no século dezessete, Sir Isaac Newton lançou a idéia de uma "vinda invisível". Em 1856, Joseph Seiss - um pastor luterano da Pensilvânia, adepto da piramidologia - "burilou" estes conceitos, dividindo a vinda de Nosso Senhor em duas etapas, uma visível e uma invisível - idéia defendida até hoje pelas Testemunhas de Jeová. Em continuação, o cristadelfiano Benjamin Wilson, em 1844, passou a traduzir "vinda" [parousia] por "presença", em sua tradução da Bíblia, conhecida como Emphatic Diaglott. Um leitor das publicações de Barbour chamou-lhe a atenção para este fato e, a partir daí, ele adotou esta doutrina definitivamente.

     Quanto a 1874,  Barbour não deduziu tal data sozinho, mas com base em um artigo da obra Horae Apocalypticae, de autoria de Elliot, encontrada na biblioteca do Museu Britânico, em 1860. Mais adiante, examinaremos alguns pormenores deste assunto. Assim sendo, em 1876, Barbour, quase 30 anos mais velho - com a mente repleta de idéias aparentemente herdadas de seu antigo mestre, Miller - foi convidado a um encontro com Russell, o qual aconteceu pouco depois em Filadélfia. Sobre este encontro, Russell falaria, mais tarde: "... Ele veio e a evidência me satisfez".  Assim, ao final da reunião, o mais velho, Barbour, conseguiu convencer o mais moço, Russell, da correção de seus cálculos escatológicos.  A partir daí, Russell, que tinha - segundo suas próprias palavras - "desprezado a cronologia por causa do uso errado dela pelos adventistas", ironicamente assumiu ele próprio, com base nas idéias de um adventista - Nelson Barbour - o "timão" do velho barco pilotado por William Miller, quase 60 anos antes dele, e naufragado há mais de 30 anos.

 

 

G. Storrse N. Barbour - As maiores influências de Russelll

 

1799, 1874 e 1914 - As Datas Marcadas

     O encontro com Nelson Barbour  constituiu, sem dúvida, um divisor de águas na carreira do jovem Russell. Anteriormente voltado para a questão doutrinária sobre o sacrifício de Jesus Cristo e algumas crenças básicas secularmente aceitas pelas igrejas "organizadas", como ele dizia, as quais supostamente impediam o retorno ao Cristianismo simples do primeiro século, Russell, a partir deste ponto, enveredou pela mesma trilha de tantos outros, antes e depois dele. Paradoxalmente, talvez esta mudança tenha sido a maior força e, ao mesmo tempo a maior fraqueza de seu ministério. Debruçando-se sobre trechos distintos das Escrituras e aproveitando cálculos escatológicos já publicados - entre eles, o de  John Acquila Brown, em 1823 e o de Nelson Barbour, em 1875 - Russell adotou o mesmíssimo princípio "dia-ano" dos rabinos do primeiro século, aplicando-os arbitrariamente a certas passagens bíblicas, até chegar a sua tríade de datas: 1799, 1874 e 1914.

     A esta altura, é útil reconstituir a trajetória de Nelson Barbourposto que fora ele que, por assim dizer, "passara o bastão" da escatologia a Charles Russell. Como já vimos, ele fizera parte do movimento millerista, tendo dele se afastado após o fiasco de 1844.  De modo que, desapontado, passou a buscar outros alvos em  sua vida. Viajou para a Austrália, onde trabalhou por algum tempo como mineiro. Em 1859, durante uma viagem marítima para os E.U.A. - não resistindo à sua inclinação natural - começou a reler as profecias bíblicas e pensou ter descoberto o erro de Miller, ou seja, o ponto de partida  para a contagem dos  "dias" da profecia de Daniel estaria errado em 30 anos. A data correta para a volta de Jesus Cristo seria 1874, e não 1844. Chegando a Londres em 1860, visitou a biblioteca do Museu de Londres e, lá, encontrou a obra Horae Apocalypticae e, nela, uma tabela com os cálculos do Reverendo Christophen Bowen, os quais levariam ao ano de 1874 como aquele que marcaria os 6.000 anos de criação do homem. Isto só reforçou as convicções de Barbour, no sentido de que seus cálculos, agora sim, seriam os corretos. Indiferente aos sucessivos fracassos daqueles que o antecederam, ele começou a divulgar seus achados, a partir de 1868 - época em que o jovem Russell vagava sem fé, um ano antes de assistir o sermão do pastor Jonas Wendell, o qual mudaria sua vida,  e dois anos antes dele  formar seu grupo de estudos. 

     Barbour publicou, então, diversos panfletos sobre sua teoria, incluindo o Evidences for the Coming of the Lord in 1873 [Evidências da Vinda do Senhorem 1873] , publicado em 1870, até o lançamento de uma publicação mensal, The Midnight Cry [O Grito da Meia-noite], em 1873, ou seja, apenas cerca de um ano antes da tão esperada data. Só que, assim como foi para William Miller e muitos que o antecederam, a chegada de 1874 nada trouxe, além de desapontamento.     

       Todavia, o obstinadoBarbour não se daria por vencido. Valendo-se da forma com que Benjamin Wilson vertia a palavra parousia(Mateus 24 : 37,39), referindo-se a Jesus Cristo, por "presença", e não "vinda", Barbour insistiu na correção de seus cálculos, não abrindo mão da data de 1874, mas mudando apenas a forma com que Cristo retornaria - invisivelmente. Deste modo - sustentava ele - Cristo estava "presente" desde 1874. Convicto da veracidade de tal evento, ao mesmo tempo espetacular  e, paradoxalmente, despercebido pelo mundo inteiro,  no ano seguinte, 1875, Barbour mudaria o nome de sua publicação The Midnight Cry [O Grito da Meia-noite] para outro mais apropriado, Herald of the Morning [Arauto da manhã], o mesmo que - no ano de 1876 - chegaria às mãos de Russell e motivaria o encontro entre os dois. Não se pode negar que, vistas por este ângulo, as coisas ficariam mais  convenientes, afinal, uma presença "invisível" é algo difícil de se atestar ou contestar...

     Assim, ainda no ano de 1876, após o encontro com Barbour, Russell escreveu um artigo que foi publicado no periódico de George Storrs, ou seja, Bible Examiner, sob o título "Tempo dos Gentios: Quando Eles Terminam?". Neste artigo, ele defendia a tese de que os 2.520 "dias" da profecia de Daniel iam de 606 AC a 1914 DC, data em que findariam os assim chamados "Tempos dos Gentios" (Lucas 21: 24). Tratava-se de uma previsão inédita? Absolutamente não. Nelson Barbour  já havia publicado a mesmíssima previsão no ano anterior, em seu periódico Herald of the Morning [Arauto da Manhã].

     O ano de 1877 assistiu à fusão dos grupos de Pittsburgh - liderado por Russell- e de Rochester - liderado por Barbour.  Os dois, com a cooperação de outro associado de Barbour - John Paton -  iniciaram um trabalho de divulgação ombro-a-ombro, o qual se materializou na obra Three Worlds [Três Mundos], da autoria de Barbour, mas com o apoio intelectual e financeiro de Russell, o qual, também neste ano, publicaria o panfleto The Object and Manner of Our Lord's Return [O Objeto e Maneira da Volta de nosso Senhor].  Além disso, ele  passou a aparecer como co-editor da publicação Herald of the Morning [Arauto da Manhã], ao lado de Barboure Paton.  Todavia, esta seria uma união que duraria pouco

     Um dos pontos que o livro de Barbour destacava era que o ano de 1878 seria marcado pelo arrebatamento  dos 'santos' ao céu. Quando tais esperanças não se materializaram, ocorreu o primeiro cisma no ministério de Russell, com muitos deixando o movimento. Ao passo que Russell permanecia  apegado à teoria da 'invisibilidade' - adotada após o fiasco de 1874 -  este novo desapontamento exerceria sobre Barbourum efeito igual ao que William  Miller experimentara 34 anos antes. Não era de surpreender que fosse assim, já que se tratava da quinta desilusão religiosa em sua vida - 3 delas no seu tempo de millerista e 2 consigo próprio - coisa pela qual Russell, mais jovem e  menos experiente,  não passara. De modo que Barbour foi impelido em outras direções.

     Isto não tardou a produzir discordâncias doutrinais francas e abertas entre eles, o que culminaria com o rompimento da parceria.  No ano de 1879 - em meio a uma troca de acusações - Russell retirou-se oficialmente da sociedade , acompanhado de Paton, com o qual também romperia, tempos depois.  Agora o então 'pastor' Russell achava-se financeira e mentalmente pronto para lançar as bases de seu próprio movimento, por meio da criação de um  periódico - Zion´s Watch Tower and Herald of Christ´s Presence[Torre de Vigia de Sião e Arauto da Presença de Cristo], datado de Julho de 1879. Esta publicação, anos à frente, passaria a se chamar simplesmente WatchTower [A Sentinela], a literatura mais popular das Testemunhas de Jeová. Cinco anos depois, Russell, registraria oficialmente a Zion´s Watch Tower Tract Society[Sociedade Torre de Vigia de Tratados de Sião], na Pensilvânia. Esta corresponde atualmente à Watchtower Bible and Tract Society [Torre de Vigia de Bíblias e Tratados], em Brooklyn, New York, além da sede na Pensilvânia. 

 

 

Zion's Watch Tower - o primeiro periódico de Russell

   

 

    Durante o restante de seu ministério, até o ano de sua morte - 1916 - Russell apegou-se tenazmente à significância das datas  1799, 1874 e 1914, as duas últimas aprendidas com seu ex-parceiro, Barbour. E quanto à primeira?

     Bem, até aqui vimos que Russell, em seu encontro com Barbour, aceitara a tese da "presença" invisível de Cristo, desde 1874. Também vimos que, um ano depois de Barbour ter publicado tais doutrinas, ele reproduziu, em um artigo, a mesma tese,  a qual apontava para 1914 como o fim dos "Tempos dos Gentios" .  Quanto ao ano de 1799 -  esta data foi altamente significativa para os estudiosos de profecias do século dezoito. Com quase um século de antecedência, o livro The Rise and Fall of Papacy [Ascensão e Queda do Papado], de autoria de Robert Fleming, previa  a queda da monarquia francesa e do poder papal para 1794. Embora esta data não tenha sido de todo precisa, caiu bem dentro da Revolução Francesa (1789-1798), período aceito pela maioria os historiadores como um ponto de virada na história humana. Em razão disso, durante a revolução, o livro foi reimpresso na Inglaterra e na América. Em 1798, deu-se um acontecimento espetacular: o Papa foi deposto e exilado pelas tropas de Napoleão Bonaparte, parecendo confirmar a previsão de Fleming. Em vista do significado do poder papal para os dissidentes da Igreja Católica e os estudiosos de profecias bíblicas, o movimento adventista adotou, então, a data de 1798 como o começo do "tempo do fim", sendo mantida ainda hoje pelos Adventistas do 7o. Dia. Charles Taze Russell incluiu-se entre os que aceitariam este ponto da história como sendo biblicamente significativo, modificando ligeiramente a data para 1799. Assim, com ideais de renovação cristã na bagagem, mais o combustível da escatologia milenarista, estavam lançadas as bases da cruzada missionária de Russell, a qual atravessaria a virada do século vinte, até nossos dias.

 

Cronologia do Russellismo

        

      Neste ponto, julgo conveniente expor uma ordem cronológica dos eventos até aqui estudados, de modo a que você, leitor, possa estabelecer uma relação de causa e efeito desde os primórdios do adventismo até o início do ministério de Charles Taze Russell, o fundador do movimento das Testemunhas de Jeová:     

      1782- Nasce, nos E.U.A., William Miller, o futuro idealizador do Segundo Adventismo; antes, porém, ele se tornaria um pastor batista.

     1798- As tropas de Napoleão Bonaparte capturam e exilam o papa, parecendo confirmar a previsão de Robert Fleming, feita quase um século antes. No futuro , diversos líderes do Segundo Advento, incluindo Charles Russel, considerarão tal evento como biblicamente significativo - o início do "Tempo do Fim".

     1818- Miller prevê a Vinda de Jesus Cristo para 1843; milhares  tornar-se-iam seus seguidores.

     1823- John Acquila Brown publica, em Londres, um cálculo escatológico pioneiro - de 2.520 anos - partindo de 604 AC e chegando a 1917, como o fim dos "sete tempos" de Daniel, capítulo 4. Contudo, ele não relaciona tal data aos "Tempos dos Gentios" (Lucas 21: 24).  Como seu cumprimento se situa quase um século à frente, não tem a mesma popularidade das idéias de Miller. Décadas no futuro, Nelson Barbour se servirá destes mesmos cálculos e, por sua vez, os transmitirá a Russell, que ainda nem nasceu.

     1837- George Storrs, um ministro da Igreja Episcopal,  lê o tratado de um ex-pastor batista (Henry Grew), e torna-se adepto da crença da alma mortal. Anos no futuro, ele exercerá forte influência sobre Russell - neste e noutros assuntos.

     1842 William Miller publica suas previsões; Storrs torna-se seu seguidor ; Nelson Barbour também se juntaria ao movimento.

     1843- A Vinda do Senhor não acontece e Miller refaz seus cálculos, transferindo a data para março do ano seguinte. Também neste ano, George Storrs cria o periódico Bible Examiner [Examinador da Bíblia].

     Março de 1844- Novamente fracassa a previsão e Miller tenta, ainda mais uma vez, corrigir seus cálculos, marcando o retorno de Cristo para outubro daquele ano.

     Outubro de 1844- Um novo fracasso faz Miller desistir por completo de estabelecer datas para a volta de Jesus Cristo e o início do milênio. Nelson Barbour, George Storrs, assim como  muitos outros - desapontados - deixam o movimento. O primeiro "perde sua religiosidade" e vai para a Austrália, trabalhar como mineiro. O segundo, associa-se com outros grupos adventistas, até fundar o seu próprio - 19 anos à frente.

     1849- Morre William Miller, deixando atrás de si um movimento de especulações proféticas sobre o Advento do Senhor, o qual prosseguiria por toda a segunda metade do século 19, até nossos dias.

     1852- Nasce, na Pensilvânia-E.U.A., Charles Taze Russell, aquele que, um dia, se tornaria o fundador do movimento Estudantes da Bíblia - primeiro nome das Testemunhas de Jeová. Desde a infância, fora educado como presbiteriano e, anos depois, se afiliaria à Igreja Congregacional.

     1859- Em uma viagem marítima de volta aos Estados Unidos, Nelson Barbour começa a reler as profecias e os trabalhos de Miller e conclui que seu ex-mestre errou em 30 anos.

     1860- Barbour visita a biblioteca do Museu Britânico e, lá, lê a obra Horae Apocalypticae, concluindo que à volta do Senhor se daria em 1874, o ano 6000 da criação de Adão. Nesta época, Russell era apenas uma criança de 8 anos.

     1863- George Storrs funda o movimento The Life and Advent Union [União da Vida e do Advento]. Enquanto isso, a fusão de  três grupos de ex-milleristas origina o Adventismo do 7o. Dia. O pequeno Charles, com apenas 11 anos de idade, já trabalha junto ao pai em uma loja de confecções masculinas.

     1868- Barbour começa a divulgar suas idéias sobre o ano de 1874;  nesta época, o jovem Russell, com apenas 16 anos, perambulava, sem fé. Não obstante, toda a estrutura doutrinária e escatológica que ele, um dia, abraçaria, já estava formada - a partir das idéias de clérigos luteranos, batistas, metodistas, cristadelfos e adventistas.

     1869- Após anos de sucessivos desapontamentos religiosos, os quais o tinham levado à perda de sua fé, o jovem Russell, então com 17 anos, reencontra sua espiritualidade, depois de assistir o sermão do pastor Jonas Wendell, em um culto adventista, improvisado em uma pequena sala de reuniões, na rua de sua loja.

     1870- Barbour publica o panfleto Evidences for the Coming of the Lord in 1873 [Evidências da Vinda do Senhorem 1873] e The Midnight Cry [O Grito da Meia-noite]. Enquanto isso, Russell, então com 18 anos, forma seu grupo independente (Pittsburgh).

     1871- George Storrs rompe com o próprio movimento que criou, a União da Vida e do Advento. Por volta desta época Russell faria contato com ele e absorveria diversos de seus conceitos, entre eles, a mortalidade da alma e a ressurreição terrestre. 

     1874- A previsão de Barbour não se cumpre e ele - diferentemente de seu antigo mestre, Miller - decide insistir com a data, alterando apenas a "forma" do "cumprimento" de sua previsão - "invisível".

     1875- Nelson Barbour publica, em seu periódico Herald of the Morning [Arauto da Manhã], seus cálculos, partindo de 606 AC e chegando a 1914 como o fim dos "Tempos dos Gentios". Até hoje, a maioria das Testemunhas de Jeová supõe que fora Russell o pioneiro desta doutrina.

     1876- Piazzi Smyth escreve um artigo sobre piramidologia no periódico  Bible Examiner [Examinador da Bíblia], suscitando o interesse de George Storrs no assunto, o qual compartilhará seus achados com Russel. Ainda neste ano, um número do periódico de Barbour chega às mãos de Russell e eles se encontram. Deste encontro, eles se associam e passam a defender as mesmas idéias. Russell - que, até então, não se mostrava interessado em cronologia -  publica, também no periódico de Storrs , uma matéria reproduzindo o mesmíssimo cálculo que Barbour publicara um ano antes.

     1877- É lançado o livro Three Worlds [Três Mundos], de autoria de Nelson Barbour, com apoio de Russell. O livro proclama a esperança do arrebatamento celestial dos 'fieis' para 1878. Russel publica The Object and Manner of Our Lord's Return [O Objeto e Maneira da Volta de nosso Senhor].

     1878- O tão esperado arrebatamento não acontece e Barbour, frustrado, desiste de novas previsões e revê a doutrina do resgate de Cristo. Russell discorda dele e insiste na teoria da 'invisibilidade'.

     1879- Morre George Storrs. Também neste ano, Russell e Barbour se desentendem e a parceria chega ao fim; Russell cria o periódico Zion´s Watch Tower and Herald of Christ´s Presence [Torre de Vigia de Sião e Arauto da Presença de Cristo]. A partir deste ponto, ele segue seu ministério sozinho.

     1884- Russell funda oficialmente a entidade Zion´s Watch Tower Tract Society [Sociedade Torre de Vigia de Tratados de Sião]. A piramidologia e as datas 1799, 1874 e 1914 farão parte de suas pregações até sua morte, em 1916.

      A esta altura, é apropriado perguntar: foram Nelson Barbour ou Charles Russell pioneiros em suas especulações? Não. Só entre os anos de 1823 e 1916, nada menos que 28 autores (a maioria de Londres) fizeram previsões escatológicas, incluindo os dois já mencionados. São eles:

     Autor               Ano da  Publicação         Data Inicial       Data Final

    

1) John Acquila Brown             1823                          604AC                  1917

2) H. Drummond                        1827                          722 AC                  1898

3) G. Faber                                1828                           657 AC                  1864

4) Alfred Addis                           1829                          680AC                    1840

5) William Digby                        1831                           720AC                    1893

6) W. Holmes                            1833                           685AC                    1835

7)  M. Habershon                       1834                           677AC                   1843

8) John Fry                                1835                          677AC                   1843

9) William Pym                          1835                          670AC                   1847

10) William Miller                     1842                         677AC                   1843

11) Th. Birks                              1843                         606AC                   1843

12) Wm. Cuninghame                 1847                         606AC                   1847

13) J. Frere                                1848                         603AC                   1857

14) E. Bickersteth                       1850                         602AC                   1918

15)E.Elliot                                  1851                         727AC                   1893

16) R. Shimeall                           1859                         652AC                   1868

17) J. Phillips                              1865                         652AC                   1867

18)  J.M.N.                                  1865                         647AC                    1873

19) W. Farrar                              1865                         654AC                    1866

20) Joseph Baylee                        1871                        623AC                    1896

21) P.H.G.                                   1871                        649AC                    1871

22) Edward White                         1874                        626AC                    1894

23) Nelson Barbour                    1875                        606AC                   1914

24) Charles T. Russell                 1876                        606AC                   1914

25) E. Tuckett                              1877                        650AC                     1880

26) M. Baxter                               1880                        620AC                     1900

27) H. Guinness                           1886                        606AC                     1915

28) W. Blackstone                        1916                        587AC                     1934

     Nota: diversos destes autores fizeram mais de uma tentativa de previsão

    

     A partir da relação acima, gostaria de chamar a atenção do leitor para os seguintes aspectos:

a) A maioria das previsões era feita para um futuro próximo, perfeitamente alcançável pela geração dos autores. Que interesse despertaria uma previsão para séculos à frente?

b) A diversidade de pontos de partida demonstra claramente a impossibilidade de estabelecer uma data precisa e um acontecimento específico para o início da contagem.

c) A diversidade dos períodos abrangidos também demonstra claramente a impossibilidade de definir, com certeza, qual o número de "dias" proféticos a ser aplicado em cada caso.

d) Nenhuma das previsões se cumpriu (pelo menos visivelmente). 

    Em vista do acima exposto, é apropriado perguntar - vale a pena, em nossos dias, insistir com tais cálculos?

 

Miller, Barbour  e Russell - A passagem do bastão

     Uma pausa para examinar a condição pessoal tanto de William Miller como de seus sucessores talvez nos ajude a compreender melhor o perfil destes "profetas" modernos. Não se pode negar que as profecias bíblicas sobre a Segunda Vinda de Cristo - acompanhada de eventos cataclísmicos - tenham exercido um fascínio sobre o intelecto humano através das eras, especialmente em períodos turbulentos da história , quando as pessoas - aflitas e impotentes - tendem a se voltar para o sobrenatural em busca de respostas. Foi assim durante a Revolução Francesa e, no século vinte, durante a I e II Guerras Mundiais. Provavelmente será assim no futuro, pois esta é uma inexorável peculiaridade do ser humano. Pode-se demonstrar que praticamente durante toda  a história, a pirotecnia profética sempre esteve presente, com previsões surgindo  aqui e ali. Tal realidade está registrada nas próprias escrituras: "Então se alguém vos disser: 'Eis que aqui está o Cristo!', ou: 'Ali!', não o acrediteis." (Mateus 24: 23)

     Vistos sob esta ótica,  Miller, Barbour  e Russell são símbolos de seu tempo, emergentes de uma cultura onde as especulações proféticas eram objeto de interesse de muitos intelectuais e religiosos (especialmente os clérigos protestantes anglo-americanos do século dezenove). Eram, pois, visionários e, acima de tudo, indivíduos carismáticos e apaixonados por aquilo que faziam. Nestas circunstâncias não era  difícil que outros se sentissem estimulados a seguí-los em suas esperanças e, igualmente, em seus desapontamentos. Consideremos alguns aspectos:

     a) William Miller era um devoto pastor batista e - como tantos outros - acalentava a perspectiva do 'arrebatamento'  dos fiéis para "encontrar o Senhor no ar" (1Tessalonicenses 4: 17). Era, pois, natural que - em meio às expectativas e especulações de sua época - ele próprio buscasse um meio de antever o evento pelo qual ansiava tão fervorosamente. Se ele não o fizesse, alguém, em algum lugar, o faria. Neste afã, entretanto, é bem provável que ele e outros passassem por alto as costumeiras armadilhas em que caem aqueles que se entregam a tais empreitadas. Assim foi que, do alto de seus 36 anos, Miller começou a especular sobre a data de 1843. Aos 60 anos, ainda teve fôlego para enfrentar três decepções - a primeira previsão e as outras duas - até finalmente desistir do ofício de "profeta".

      b) Nelson Barbour  tinha  menos de 20 anos quando se tornou seguidor de Miller, o qual, por sua vez, era cerca de 40 anos mais velho - e, naturalmente mais experiente - do que ele. Após se refazer das 3 frustrações como millerista, Barbour faria nova tentativa por volta dos 35 anos de idade - até que, de modo semelhante a Miller, desistisse de lançar datas para o "fim do mundo",  depois de ver suas previsões se desfazerem em datas que nada traziam de extraordinário.

     c) Charles Russell era quase 30 anos mais jovem do que Barbour - tinha apenas 24 anos quando se deixou convencer pelas idéias dele. Aqui, mais uma vez vemos a natural impetuosidade e o otimismo de um jovem em contraste com o cansaço de um homem que, desde os 20 anos de idade já experimentara os dissabores de expectativas sucessivamente frustradas. Era tão-somente natural que ele, após mais de 50 anos de vida e na quinta desilusão, buscasse outro rumo para sua espiritualidade. Ao passo que Russell estava em ascensão, Barbour estava em declínio.

     Da análise acima, podemos comparar as trajetórias destes três homens - Miller, Barbour e Russell - a uma modalidade olímpica de corrida em grupo, onde cada corredor, após percorrer exaustivamente uma certa distância, passa um bastão ao seguinte, o qual igualmente consome suas energias até à exaustão e repete o gesto do anterior. Assim, ao final, cada um foi ao limite de suas energias. Todos eles lideraram a peleja por um percurso e deixaram sucessores. A corrida, porém, foi contínua. O alvo perseguido era a Vinda de Cristo e o bastão, a escatologia. Infelizmente, esta era uma corrida cujo ponto de chegada ninguém podia determinar e cujo preço foi alto demais para milhões de seguidores. Muitos perderam, não apenas as esperanças, mas também a

 

Malabarismos com Números

     

     A maioria dos adeptos de religiões fundamentadas na escatologia - entre elas, as Testemunhas de Jeová - não está familiarizada com os complexos cálculos envolvidos nas especulações proféticas que foram ensinadas a defender como verdade divinamente revelada. Ainda assim, estas pessoas mostram-se credulamente dispostas a defender o resultado de tais cálculos, a despeito de sua pouca  familiaridade com eles e da ausência de evidências claras que lhes dêem sustentação.  Este, indubitavelmente, tem sido o caso dos atuais defensores da cronologia de Russell, ou do que restou dela. 

     É muito raro encontrar, nestes dias, uma Testemunha de Jeová que saiba explicar os fundamentos da cronologia dele - hoje totalmente alterada por seus sucessores. De fato, as datas de 1799 e 1874 não têm mais hoje qualquer significado no movimento. Da antiga tríade, apenas uma - 1914 - restou, provavelmente por aquele ano ter assistido a eclosão da I Guerra Mundial, algo, sem dúvida, notável, porém bem diferente do que se esperava. Do contrário, certamente teria naufragado - como tantas outras - no mar das previsões fracassadas.   O ano de 1914 não trouxe Jesus Cristo nas nuvens nem o arrebatamento da igreja nem o Armagedom. Trouxe, isto sim, 4 anos de conflito armado, em lugar dos 1000 anos de paz que prometera. Isto deveria nos induzir à reflexão...     

     Diante da infindável lista de autores e de previsões, desde os primeiros séculos até nossos dias, o leigo fica comumente atônito diante da multiplicidade de datas apontadas como biblicamente significativas, bem como dos cálculos escatológicos sobre os quais elas supostamente se apóiam. Especialmente considerando que a maioria dos autores reclamou para si, em maior ou menor grau, o reconhecimento de que eram portadores da revelação divina. Neste respeito, Charles T. Russell não foi diferente.

    Com o propósito de esclarecer o leitor quanto à  futilidade de se tentar, à base do exame acadêmico das Escrituras, inferir esta ou aquela data como sendo o ponto de convergência das profecias, passo a expor algumas das passagens bíblicas de interesse, bem como as diversas interpretações dadas a elas ao longo dos séculos pelos escatologistas, entre eles, Russell.

 Texto                                       Período                                               Interpretação

Daniel  7:25        "um tempo, tempos e  metade de um tempo"      1 + 2 + 0.5 = 3,5 

                                                                                         3,5 x 360 = 1260 anos    

Daniel 8:14                    "2300 tardes e manhãs"                             2300 anos

Daniel 9:24-27                     "70 semanas"                                  70 x 7 = 490 anos   

Daniel  12:11                          "1290 dias"                                           1290 anos

Daniel 12:12                           "1335 dias"                                           1335 anos

Daniel  4:16, 32                      "7 tempos"                                  7 x  360 = 2520 anos

Apocalipse 11:3                      "1260 dias"                                            1260 anos

     Nota: alguns autores aplicaram um período de 50 'jubileus', chegando há 2450 anos, ao invés de 2520.

    

    Pergunta-se: onde se apóiam tais cálculos? Em lugar nenhum, exceto na intuição dos escatologistas, os quais fizeram - por conta própria - uma generalização sistemática do princípio dia-ano, explicitado nas Escrituras apenas em Números 14: 34 e Ezequiel 4:6, referindo-se à peregrinação do povo hebreu no ermo. Dá as escrituras qualquer indicação de que tal princípio aplicar-se-ia a todas as passagens proféticas onde a palavra "dia" aparece? Não, em parte alguma da Bíblia há qualquer indício de que tal equação escatológica constituísse a chave para o entendimento das figuras proféticas. Vemos, pois, que tais previsões assentam-se sobre uma base muito frágil. E o mais importante, jamais - ao longo de quase 20 séculos de especulações - tal fórmula levou à concretização de qualquer um dos eventos apocalípticos. Assim, vemos que, ao lado de outras dificuldades - as quais analisaremos adiante - o escatologista precisa reconhecer que ninguém pode inferir com certeza o significado matemático das dezenas de passagens proféticas que falam de dias, meses e anos.

     E quanto aos pontos de partida? Mesmo que alguém supostamente conseguisse decifrar o significado da dimensão de um período profético, seria, provavelmente aqui -  no ponto inicial da contagem - que se encontraria a primeira grande dificuldade. Para provar meu ponto, passarei a tecer alguns comentários sobre os diversos pontos de partida já adotados por especuladores ao longo dos séculos.

     Se contarmos desde o século 12 quando o primeiro autor cristão,  Joachim de Flora, começou a fazer cálculos escatológicos até o século 20, verificamos que foram adotadas, como pontos históricos de partida, mais de 50 datas distintas! Considerando apenas estas datas e os períodos destacados na tabela acima, chegamos à conclusão que são possíveis mais de 350 combinações! Em qual delas acreditará você, leitor? Precisa ainda ser dito que haveria - ao lado da questão dos algarismos - uma dificuldade adicional: a interpretação dos textos. Este é um dos pontos mais controvertidos. Enquanto existe consenso em relação a algumas passagens bíblicas, outras permanecem obscuras. Há quase tantas interpretações quanto há teólogos e historiadores!

    À guisa de exemplo, consideremos a previsão pioneira de John Acquila Brown, consistindo de um período de 2.520 anos, partindo de 604 AC - ano da ascensão ao trono de Nabucodonosor da Babilônia - até 1917 DC. Olhando atentamente para o ano de 1917, haveria algum evento que pudesse ser classificado como historicamente relevante? Houve, no mínimo, dois -  a revolução comunista ('bolchevique') , na Rússia, em outubro daquele ano, e - mais importante - a assim chamada declaração Balfour de 2 de Novembro, pela qual o governo britânico, após tomar Jerusalém do império turco, declarou-se favorável ao estabelecimento da comunidade judaica na Palestina. Este segundo acontecimento foi, inclusive, apontado como biblicamente significativo por algumas  comunidades religiosas, entre estas, a comunidade dos 'Estudantes da Bíblia' - nome das Testemunhas de Jeová, na época. Todavia, pode-se assegurar que Jesus Cristo, ao falar do sinal de sua Vinda, se referia especificamente a qualquer destes dois eventos? A resposta obviamente é  não!

      Outro exemplo: a previsão de W. Blackstone, partindo de 587 AC e chegando a 1934 DC, a qual tem  (diferentemente da previsão de Nelson Barbour e Charles Russel) pelo menos, o mérito de partir de uma data bem estabelecida historicamente. Neste caso, pergunta-se: houve, em 1934, algum evento historicamente relevante? Pode-se dizer que sim, pois, naquele ano, com a morte do idoso Marechal Hindenburg, Adolf Hitler assumiu o posto de Chefe de Estado da Alemanha, muito embora tivesse sido nomeado para o cargo de Chanceler no ano anterior, 1933. Este foi um fato decisivo na dramática seqüência de acontecimentos que culminariam na II Guerra Mundial.  Entretanto, pode-se assegurar que Jesus Cristo, ao profetizar sobre sua vinda, se referia especificamente a este evento? Novamente, a resposta obviamente é não!

     De modo comparável, o cálculo escatológico de Barbour - mais tarde adaptado por Russel -  quando examinado à luz das evidências históricas, deixa bastante a desejar, tanto por apresentar um ponto de partida (607 AC) totalmente órfão de comprovação histórica, quanto por coincidir com um evento (a  guerra de 1914) que, a exemplo de outros,  absolutamente nada de positivo trouxe à já tão sofrida humanidade, algo que certamente seria de se esperar, pelo menos em algum momento da vinda do Senhor e do estabelecimento de seu Reino de Mil anos. Ademais, como nos casos anteriores, pode-se assegurar que era a I Guerra Mundial que Cristo tinha em mente ao profetizar sobre sua volta? Mais uma vez, a resposta obvia é não!

     Adicionalmente,  uma curiosidade: considerando que as palavras de Cristo, em Mateus capitulo 24 (versículos 15 em diante), parecem referir-se claramente a um tempo futuro, alguém poderia perfeitamente adotar, como ponto de partida da profecia, o ano da destruição de Jerusalém pelas tropas romanas - 70 DC - e, partindo daí, contar 2520 anos e cair no ano de 2590 - mais de quinhentos anos no futuro - como sendo aquele que marcará a volta do Senhor. Dificilmente uma previsão para um futuro tão distante despertaria algum interesse na geração atual. Contudo, se estivéssemos no século 26, é muitíssimo provável que tal data já estivesse sendo cogitada pelos movimentos religiosos alicerçados na escatologia, entre eles sem dúvida as Testemunhas de Jeová.

     Assim, conforme vemos, a partir desta simples análise, qualquer data pode probabilisticamente coincidir com um fato histórico relevante, já que tais fatos acontecem, em maior ou menor grau, praticamente em todos os anos. Todavia, se considerarmos a famosa passagem bíblica de Apocalipse capítulo 6 (os 'quatro cavaleiros')  vemos que, ao passo que os escatologistas costumeiramente apontam para o 'cavalgar' da guerra, da fome e da morte como evidência da precisão de seus cálculos e datas, estranhamente, eles não fornecem nenhum sinal claro e incontestável do 'cavalgar' do "rei vitorioso" desta mesma  profecia, considerado símbolo de Jesus Cristo entronizado.  Ante a falta de tais evidências, alguns, como Barbour  e Russel, viram-se forçados a recorrer ao artifício de propor uma 'presença' invisível!

     Depois da morte de Russel, seus sucessores continuaram apontando datas para o fim do mundo. 1918, 1925, 1941, 1975, 2000, “a geração que não passará” entre outras, foram sendo apontadas como datas certas. Tais datas foram amplamente divulgadas de maneira insistente e enfática. Aqueles que não demonstravam fé nestas predições foram acusados de serem pessoas cegadas pelo diabo, sem discernimento espiritual, relapsas, indignas de serem seguidoras de Cristo. Além disso, quando tais datas passavam e nada acontecia, eles nem se davam ao trabalho de publicar um pedido desculpa (tipo desculpem nossa falha), reconhecendo seu erro. Muito pelo contrario, eles arrogantemente jogavam a culpa nos seus próprios seguidores, dizendo que tais datas surgiram de especulações pessoais deles, movidos por expectativas precipitadas. Mais à frente neste livro mostrarei detalhes sobre tais previsões fracassadas e a atitude covarde e arrogante de tais lideres religiosos diante destes fiascos.

      Mas até aqui, diante do que foi exposto, volto a perguntar: vale a pena insistir com tais cálculos? Devem os cristãos exercer sua religião com tais previsões em mente? Será que o 'estar vigilante', argumento costumeiramente utilizado pelos autores de tais previsões fracassadas justificaria tais aventuras escatológicas e suas temíveis conseqüências?

 

 

Estes questionamentos foram retirados do livro "Tudo que você sempre quis saber sobre as Testemunhas de Jeová mas tinha medo de perguntar". Para adquiri-lo Clique Aqui!

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